sábado, 10 de agosto de 2013

Tudo novo de novo

Eu estava parada na janela da sala de aula. Tem feito dias extraordinariamente bonitos no Rio. Parei na janela pra olhar um pouco o céu, espiar a vizinhança. Olhei pra praça em frente à escola e fui erguendo os olhos, prestando atenção em tudo e, de repente, me deparei pela primeira vez nesse primeiro mês de emprego novo com o vizinho mais ilustre da escola. Lá longe, ao fundo,  estava o Cristo, com um dos seus braços apontados bem pra mim.

- Gente, mas é o Cristo!

Os alunos desdenharam da minha surpresa.

- Ué, ele tá sempre aí!

É, mas eu nunca tinha visto.


***

Muitos dos meus novos alunos são nordestinos ou filhos de nordestinos. Vários deles vieram da Paraíba. Eles abrem a boca e a gente já sabe que estiveram em outras partes do país. Às vezes, peço que falem mais devagar pra  que eu possa entender o que tão dizendo. Experimentem tentar entender uma pessoa de 12 anos, dentro de uma sala de aula cheia de outras pessoas de 12 anos, falando com um sotaque com o qual você não está acostumada. Experimentem.

Quando percebo um sotaque, vou logo perguntando de onde ele ou ela veio. A resposta  sempre envolve alguma cidade do Nordeste e é dita de muitas formas. Uns baixam os olhos e respondem baixinho. Outros respondem com voz alta e tom desafiador, como quem espera escárnio. Um deles falou no meu ouvido que era Campineiro. Meus alunos, meninas e meninas de 12 anos, têm vergonha de dizer de onde vêm. Há uma explicação possível: aqui no Rio de Janeiro, o nome do estado de origem de boa parte dos meus novos alunos é usado com sentido pejorativo. A palavra Paraíba carrega significados bem distintos dos sentimentos de saudade e afeto que meus meus alunos demonstram ao falar do lugar onde nasceram. Paraíba, no Rio de Janeiro, é um termo que suplanta a identidade daqueles nascidos nos mais diversos estados do Nordeste, que reforça estereótipos, que ofende. Ser "paraíba" não é uma coisa boa de ser.

Parte o coração da gente perceber  o peso do preconceito incidindo sobre gente tão jovem.

(Um dos meninos, apesar do seu sotaque, disse que nunca tinha saído do Rio. Eu estranhei. Aí ele falou, com a maior simplicidade do mundo: " Nasci aqui, mas eu falo do mesmo jeito que minha família". E eu fiquei achando que não poderia haver resposta mais sábia e didática.)

***

Na terça à noite, sentei no chão do quarto para esperar. Eu queria dormir, precisava dormir, mas não conseguia. Enquanto eu ouvia Caetano e jogava Pet Rescue, duas menininhas muito importantes estavam nascendo. Eu poderia ter ido dormir, poderia ligar pro pai delas no dia seguinte, mas queria estar acordada  enquanto as meninas nasciam. 

Caetano tava cantando Leãozinho quando o celular vibrou. Eu estava esperando a notícia, mas não tava preparada pras  fotos que vieram  pelo Whatsapp. Ver pela primeira vez  bebês muito aguardados é sempre um evento. Meus olhos ficam molhados sempre que lembro.

***
Dei uma mexidinha na cara do blog. Tava enjoada da cara antiga, tava procurando uma  nova.





14 comentários:

Miriam disse...

QUE LINDO O BANNER!

PS: Nem precisa dizer que esse comentário não tem nada com o post... mas não resisti!

Júuh . disse...

Infelizmente o preconceito ainda é grande, e por muitas vezes, preconceito dos próprios nordestinos...eu sou nordestina e com muito orgulho, sim! Dizem que meu sotaque é bem forte, mas acho que você não ia pedir pra eu falar mais devagar! hauhauaha

Tá linda a carinha do blog, Ju!
É bom mudar, né? :)
Beijo, flor! :*

Tati disse...

Posso dizer que eu me emocionei com a parte do meio? Passei uma semana em que uma professora de SP que eu admiro muito e que mora e trabalha aqui fez um comentário esquisito nesse aspecto e eu fiquei muito triste. Muito bom saber que seus alunos tem uma professora como você.
Que respeita todos os sotaques e todos os jeitos :)
Um beijo enorme e vida longa ao Fina Flor que ficou mais lindo com esse novo banner! A sua cara ;)

Luciana Nepomuceno disse...

tá linda a cara nova do blog, especialmente quando a gente vê assim que nem eu, com olhos borrados de lágrrimas

Anônimo disse...

Beijo rpo aluno campineiro =)))

Quando saí de Campinas pro Rio, meu menino mais velho tinha 9 anos. Novinho na escola, fazia leitura me voz alta e né, retroflexo, voltou pra casa reclamando chateado que tinham rido da cara dele por causa do sotaque caipira. Conversei na escola, a professora deu uma aula de geografia sobre as regiões do país, seus sotaques, culinária etc =) De qq forma, meu filho virou ~bilíngue~: dentro de casa era campineiro, fora de casa um carioca pra ng botar defeito =P
Eu, na UFRJ, era zoadíssima tb. Numa aula de fonética sobre pontos de articulação, a profa me usou como exemplo de R retroflexo: "Beatriz, diga *porta aberta*".Disse e a sala toda veio abaixo hahahahha... Mas continuei com meu sotaque caipira nos 5 anos de Rio ;)

Bia Francisco

Juliana disse...

Miriam, vc gostar do banner é um elogio e tanto, uma vez seu blog é todo lindo!

Tati, se eu pudesse, ficaria horas e horas ouvindo as histórias e vidas dos alunos. Sempre é mais divertido que a aula.
Uma das coisas que a faculdade de letras me ensinou foi a achar que sotaques são as coisas mais bonitas- mil modos de dizer uma língua.

Lu, =)!

Bia, que coisa boa vc aqui. O meu aluno é de Campina Grande.

Tô pensando no que eu posso fazer pra colaborar com essa questão do preconceito.


Juliana disse...

Ju, eu nunca entendo nada que ninguém fala, como ou sem sotaque. kkkk

Lilian disse...

Ju, bem-vinda de volta.

Eu, filha de mineira com nordestino, já morei em SP (que tem todo um sotaque), já morei no litoral e agora aqui no interior. Bom, já passei por diversos sotaques e acho que ou não tenho nenhum ou misturo todos eles e nem percebo. rs

Ah, em SP, capitár, o adjetivo pejorativo é 'baiano'. Quando se fala que fulano é baiano ou fez baianada, não é uma coisa boa. Imagino se na Bahia e na Paraíba 'paulistano' e 'carioca' significam coisas boas.

Lisa disse...

Ok, vc venceu. 13 dias. Adorei o novo layout.

Bjs

Lia disse...

Que coisas lindas!!
Vc tem o Cristo!!!

Adorei o template...

"Nasci aqui, mas eu falo do mesmo jeito que minha família".

Rita disse...

Ah, Ju, a gente precisava era sentar naquela mesa do Planetário de novo, néam?

Amei o novo visual do blog, tá lindão.

Beijocas!

Inaie disse...

Fiquei arrasada com a estória das crianças que já sentem o peso do preconceito, sem nems aber ao certo por que!
passei grande parte da minha vida em Campinas. A sacanagem antiga é dizer que lá só tem homossexual. Algumas cidades vem com essas bobagens atreladas. Triste!

E benvinda as menininhas!

livroseoutrasfelicidades disse...

Que bom que você voltou :-)))

Inaie disse...

Menina!!! cadê o texto do gaiola????