domingo, 27 de outubro de 2013


"A realidade é que sem ela

Não há paz, não há beleza

É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai"


Há exatos 30 dias minha vó morreu. É tão estranho esse mundo em que ela não está. A gente precisa se adaptar à nova rotina, mudar a lista de compras, deixar de ligar pra casa no meio do dia porque não vai ter ninguém pra atender. O leite estraga na geladeira porque não dou conta de tomar uma caixa em tão pouco tempo. Ninguém mais liga a tevê da cozinha. A casa está mais silenciosa. 

A ausência da minha vó é um silêncio dentro mim. Não sei definir de outra forma.

2013 me ensinou que existe um tipo de saudade para a qual não há solução.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Criminal Minds: a série fofa

antes de ler: sempre que vejo o povo falando de seriados por aí, aparece um aviso sobre spoilers. Eu não tenho a menor ideia se as coisas que digo aqui podem ser consideradas spoilers. Não conto a solução de nenhum crime, não conto detalhe nenhum de episódio nenhum, esse post é pura zoeira, mas vai que aparece alguém que não gosta de saber de nada. Então: contém spoilers.


Minha mãe se preocupa comigo. Todo dia tem uma preocupação. A atual preocupação da minha mãe é que eu passo meu tempo livre assistindo a Criminal Minds,  um seriado policial cheio de cenas violentas, muito sangue e morte, muita morte. As pessoas morrem em Criminal Minds, morrem muito, morrem das piores formas possíveis. Quando um personagem aparece em cena, procuro não me apegar muito. Se a pessoa não for do elenco do principal,  a chance de ser fatiado em mil pedacinhos é grande. Além de morrerem, as pessoas em Criminal Minds  são atacadas no conforto do seu lar, enquanto jantam, tomam banho ou sonham em suas camas macias.Nenhum lugar é seguro pra um personagem do seriado. Mas, apesar das mortes e dos crimes horripilantes, minha mãe não deveria se preocupar tanto: Criminal Minds é uma série fofa, muito fofa.Hum, bem, eu entendo se vocês não concordarem de imediato com essa afirmação, minha mãe também não concordou, mas nada me impede de tentar convencer vocês.



As estrelas do seriado são agentes do FBI lotados numa unidade de elite. Os caras são especialistas em traçar o perfil de criminosos ( apavorantes) em série, são top de linha, muito qualificados, muito espertos, os caras. A gente sabe que um monte de gente fodona junto pode dar confusão, guerra de egos, essas coisas legais. Mas brigas, fofocas e intrigas não têm espaço na BAU, a equipe chefiada pelo bom pai/ bom marido/ bom chefe  Aaron Hotchner . Aquele pessoal se adora, vai ao cinema junto, janta junto, viaja naquele jatinho legal junto. Eles são convidados pra chefiar outras equipes e não aceitam porque preferem a BAU. Eles são obrigados a aceitar uma promoção e choram copiosamente. Eles apoiam uns aos outros,  consolam uns  aos outros. Ninguém fala mal de ninguém pelas costas, ninguém fica revoltado por ter de fazer horas extras. As patadas são perdoadas e compreendidas, os atrasos são perdoados e compreendidos, Garcia dá um chilique com o chefe e recebe elogios. Essas pessoas são colegas de trabalho de comercial de margarina. A BAU é o melhor lugar pra trabalhar, eu quero ser profiler do FBI também.

Agora vamos analisar a fofice individual:

 * O chefe:  Hotchner é todo sério e compenetrado, nunca se altera, nunca move mais que um músculo do rosto. Tem uma  esposa incrível, um filho liiindo, uma casa aconchegante. Tem total controle de seu trabalho,  lida bem com a chata da Strauss, viaja o país inteiro e ainda assim é um pai dedicado. Seus subordinados simplesmente adoram o cara, se preocupam com ele, e a recíproca é verdadeira.


 Vem ser meu chefe, Hotch!

*O Gênio: Reid, ou melhor, Dr. Reid, é um gênio, tem mil formações, uns 300 doutorados, guarda tudo na cabeça graças à sua memória fotográfica,  enche o saco de todo mundo com suas genialidades, mas todo mundo ( inclusive eu ) ama o Reid.  Spencer é gentil,  fofamente estranho. Tem empatia pelas vítimas, usa seus talentos com o objetivo de prender criminosos  perigosos. Sua vida pessoal parece ser a menos organizadinha, mas ele recebe de seus colegas o apoio e a proteção que uma família daria.


Vem me ensinar todas as teorias, Reid!




* A porta-voz:  JJ é a pessoa perfeita. Inteligente, articulada, equilibrada, doce, linda, com aqueles olhos lindos, com aquela voz linda ( amo a voz da JJ). Da sexta temporada pra cá, então, virou o suprassumo da perfeição. Não só continua maravilhosa, como virou a agente que salta, bate, atira, corre, prende, salva  o dia. JJ é a pessoa que mantém contato com as famílias das vítimas, então a gente sempre a vê sendo delicada, atenta, fofa. E pra completar: JJ tem o filho mais lindo que já vi em todos os seriados. Como não querer ter um Henry pra chamar de seu?


Vem tomar chá aqui em casa, JJ!


* A poderosa: Prentiss é diva. Prentiss nem está mais no seriado, mas a mulher é tão amada que a gente ignora completamente a sua substitua - até os roteiristas ignoram. Emily fala línguas que ninguém fala, Emily  tem o passado mais legal, Emily fez sacrifícios inimagináveis pra salvar uma pessoa inocente. Ela é inteligente, lê livros difíceis, é fã de ficção científica. Os cílios dela são enormes. Toda vez que Prentiss conversa com uma vítima criança eu choro.  É melhor eu parar de falar da Prentiss, antes que conte o que não devo contar. Mas, ó, muitos <3 pra Emily.



Vem me contar o segredo desses cílios lindos, Emily!


* A nerd:  O que dizer de Garcia? Ela é a fofurice de Criminal Minds corporificada. Garcia usa as roupas mais coloridas e loucas, atende o telefone feliz, paparica todo mundo, não consegue trabalhar "se alguém que ela ama não está bem". Ela é capaz de descobrir qualquer coisa sobre qualquer pessoa, sentadinha naquela sua salinha cheia de fofurice. Garcia se recusa a ver as fotos mais chocantes dos crimes, faz o grande sacrifício de se vestir como os pobres mortais só pra que a equipe não sinta o peso de ter um membro a menos. 3500 coraçõezinhos de amor pra Garcia!



                                                 Vem ser minha melhor amiga, Penelope!

* O famoso: Rossi é o melhor amigo de sua ex-mulher, financia uma investigação ilegal que salva um monte de gente com o dinheiro do próprio bolso, organiza o casamento mais bonito, dá jantares legais, oferece uma sessão de videogame a suas colegas estressadas, ajuda os colegas com a reforma de suas casas. Não sou muito fã de Rossi, mas, ah, como eu queria que ele fosse meu coleguinha de trabalho e me levasse pra jantar na casa dele.

                                                 Vem me dar festas de presente, Rossi!

* O mais gato de todos os gatos de todas as séries: Deixei por último o meu favorito. Claro que Morgan é meu favorito. Deveria ser o favorito de qualquer pessoa sensata. O homem é lindo, lindo, lindo, tem um sorriso lindo, uma voz linda, uma andar lindo, tudo de lindo. O primeiro episódio que assisti é um em que ele aparece só de toalha logo no início; foi uma excelente cena de boas vindas à série! Enfim, deixa  eu respirar fundo aqui antes continuar. Respirei. Morgan é, sim, um homem lindo ( é a última vez que digo isso), mas não só. O cara chama a responsabilidade pra si, é esquentadinho mas nunca ultrapassa os limites da ética. Os episódios focados no passado dele me fizeram chorar de soluçar. A família dele é toda legal, as irmãs dele são legais, a mãe dele é legal, a tia dele é uma fofinha. Derek é o cara que poderia ter dado errado, mas deu certo, muito certo. E ainda é todo protetor, atencioso. Ah, e, claro, protagoniza com Garcia os momentos " amigos também dizem eu te amo" mais fofos.


                                               Vem me chamar de Baby Girl, Morgan!



É muita fofice!

 E eu nem falei do Kevin e  dos personagens que aparecem em um episódio só. A verdade é que eu poderia passar posts e posts falando de Criminal Minds, mas passa de 1h da manhã e preciso dormir. Mas, antes, me diga: minha mãe não devia parar de se preocupar? hihihi



P.S.:Não vou citar  Elle e Gideon porque não os conheço bem. Até agora vi  a sexta, a sétima e parte da oitava temporadas e alguns episódios aleatórios, então não conheço bem esses dois, e ,pelos poucos episódios que vi, não fui muito com a cara deles.Também não vou citar a Blake, porque, né, ainda não entendi pra que o nome dela tá na abertura da série. Pra cês terem ideia nem lembro o primeiro nome dela.

P.S.2: Ó, isso de dizer que Morgan é o homem mais lindo de todas as séries é uma pequena licença poética. Ele é o segundo mais lindo. Todos sabem que o mais lindo é esse aqui. =p

P.S.3: Esqueci de dizer que o elenco da série parece se dar muito bem. Há um monte de fotos engraçadinhas deles:






domingo, 20 de outubro de 2013

Cresceu

Em fevereiro, o meu cabelo estava assim:

Estamos em outubro e meu cabelo tá assim:


Só tive o cabelo tão curto quando era criança. Vi um dia desses uma foto minha,aos 10 anos, com o cabelo Joãozinho. O trauma causado pelo corte foi tão grande que não lembro daquela fase. Sério mesmo. O problema não foi o corte, e sim  o motivo de meu cabelo ter sido cortado tão curto. Uma tia minha, que costumava cortar os cabelos da família, decidiu que um cabelo " difícil" como meu precisava ser bem curto pra ficar domado. Pois é. Desde então, nunca mais cortei de verdade até fevereiro desse ano. Quase 20 anos depois, tava na hora de superar, né? Cortei bem curto porque quis, porque queria mudar a cara. E , ao cortar, acabei descobrindo que meu cabelo fica mais saudável sem o relaxamento. Na verdade, a única parte do meu cabelo com a qual é " difícil" lidar é justamente aquela em que o relaxamento permanece.  É que eu arrumei bem arrumadinho pra  sair na foto, senão vocês veriam que essa mecha aí na frente é híbrida - até certo ponto, tem o meu cabelo natural; de um ponto em diante, os fios estão quebradiços e espigados. Eu já poderia ter cortado logo essa parte com química, mas uma ousadia de cada vez.


Com o cabelo curto, aprendi duas coisas importantes: brincos pequenos não mordem ninguém e pentear o cabelo de manhã não é assim tão ruim. Você não penteava o cabelo de manhã, Juliana?! Não. Eu sou daquelas pessoas que não deveriam viver antes das 9h da manhã, mas o sistema capitalista não tá nem aí pras necessidades do meu corpo, né? Então, entre arrumar o cabelo  e dormir mais, sempre preferi dormir mais. Aí acordava, tomava banho, fazia um coque e saía. Foi difícil me adaptar à impossibilidade de fazer coque.Agora tenho que dar uma olhada no espelho de vez em quando pra ver se não estou completamente descabelada. Claro que sempre que vou checar, estou completamente descabelada, mas nada que um sprayzinho não resolva.

Com o cabelo curto e as orelhas mais expostas, descobri que as minhas habituais argolas e os brincões que costumava usar não ficavam tão legais. Brincos grandes, pelo menos em mim, só ficam bons se forem daqueles que começam presos no lóbulo .E eu nem tinha brincos pequenos, era oito ou oitenta: brincões ou nenhum brinco. Eu sou grande, bochechuda; achava que brincos pequenos ficavam desproporcionais. Aí descobri que existem os pequenos- não -tão- pequenos.


Agora, eu ando pensando em botar em prática um velho desejo: mudar a cor. Nunca pintei o cabelo. Quer dizer, aos 13 anos, tentei tornar minhas madeixas vermelhas, usando papel crepom e água. Não riam da menina de 13 anos que eu fui. Tudo ficou manchado, as mãos, as unhas, a testa, menos o meu cabelo. Nem sei de que cor pintaria hoje, só queria mudar esse tom escurão de sempre. Vamos ver, vamos ver!


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

E eu que pensei que luto se resumiria a  chorar na primeira semana e escrever um post no blog?

 Eu e minha ingenuidade. Ou eu e essa arroganciazinha de achar que posso gerenciar o que quiser - sentimentos, principalmente. Ou eu e o medo de lidar com o que não está previsto. 

Ou eu e minha humanidade. Simples assim.


***

Não quero que minha vó vire uma lembrança. Não sei pensar na minha vó como lembrança. Não sei falar dela no passado. Não sei olhar pras coisas dela e dizer " eram dela". Minha vó ainda é pra mim. Não sinto falta dela porque ela ainda está

O quarto está desfeito. As roupas foram distribuídas. Não fiquei com nada além da chave de casa e a canga de praia dela - coisas que já eram mais minhas do que dela mesmo. Mas nada disso faz muita diferença. Essa ainda é a casa dela. Eu ainda sou a neta dela. Tudo sobre minha vó ainda é vivo, íntimo, habitual. 

Minha vó ainda é um hábito meu.

***
Até esse ano, poucas eram  as fotos de gente morta nos meus álbuns. 2013 será lembrado como o ano em que  passei a ter muitas fotos de mortos em casa.

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Fomos à missa no sétimo dia de morte da minha vó. Fui à missa por ela, porque faz tempo que não vou  a missas por mim mesma, especialmente às missas da igreja do bairro. É engraçado você fazer uma coisa pensando em alguém que nem vai saber que você fez. Mas eu fiz.

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A morte da minha vó , em si, não é um peso. Eu não tinha qualquer pendência com ela, não deixei de dizer nada pra ela , fiz tudo que pude pra que ela tivesse uma morte digna. Minha vó foi das pessoas mais próximas que tive na vida. Cresci perto dela, herdei algumas de suas maluquices, aprendi alguns de seus bons hábitos, tínhamos vozes tão parecidas que confundiam até quem nos conhecia bem. Sobretudo, tenho em mim as marcas do seu excelente humor  e um tantinho da sua resistência. Brigamos um bocado, mas também conversamos muito, saímos pra ela tomar chope, sentei no colo dela, sentamos  pra ver novela, comi a dobradinha com batata que fazia só por mim.

Não queria - e não preciso- que minha vó vivesse mais. O corpo dela não dava mais conta. Sobrava vontade, mas não havia mais corpo. Minha vó gastou todas as suas reservas de energia e coragem. Ela não merecia e nem precisava de uma sobrevida. A morte da minha vó não é um sofrimento pra mim. A morte é um alento, um consolo. Acabou - e eu não me arrependo de nada.

Durante todo o tempo em que ela esteve internada, minha cabeça doeu terrivelmente. O médico disse que eu estava tensa. Faz todo sentido, claro. Desde que minha vó morreu, a dor não voltou mais. Eu não durmo, fico mal humorada, sinto meu corpo esvaziado de energia e vontade, mas dor de cabeça passou. Minha cabeça doía porque eu não aguentava ver o sofrimento, aquelas dores, aquela cama de hospital, aquela falência do corpo, o esforço dela pra ficar só mais um pouco.

Minha vó esteve perto de mim por 29 anos. Foram 29 anos de saúde, de animação, de teimosia, de maluquices, de implicância, de músicas ecoando pela casa, de autonomia, de bravura. Não trocaria nenhum desses 29 anos pra que ela estivesse viva agora, sem saúde, sentindo dor, com um coração que não dava mais conta, com rins que sobrecarregavam o coração, com pernas que não se sustentavam mais.

Eu prefiro a saudade que vai vir.

***

A depiladora da minha vó é a mesma que faz as minhas sobrancelhas. Daí hoje fui fazer as minhas sobrancelhas indomáveis. A depiladora gostava um bocado da minha vó, então inevitavelmente falamos dela, e eu fiquei  feliz por isso. A moça não falou da minha vó como se tivessem  se conhecido num passado distante. 

Num dado momento, ela me disse assim:

- O mais triste pra mim é não saber  que nunca mais vou ver a pessoa. Quando meu pai morreu, chorei todos os dias pensando nisso.

Deve ser por isso que não choro todos os dias. Ainda não pensei que nunca mais vou  ver minha vó.




quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Fina Florzinha

Botei essa foto no perfil do Facebook.  Adoro todo mundo colocando foto da infância no perfil.

Bem, olho pra esse meu retrato e penso em várias coisas:

* minha vó odiava essa roupa porque não escolhi comprar o lindo vestido cheio de babados que ela queria que eu usasse.

* eu era uma criança de 3 anos grande demais. Essa foto é de junho de 1987.

* o fotógrafo achou que o chão era tão importante quanto a aniversariante.

* meus olhos apareciam em fotos quando eu era menina. Hoje em dia preciso provar que eles existem.

* sou de um tempo em  que havaianas eram chinelo de pobre. Olha minhas havaianas de pobre ali. Não tinha essa frescura de reposicionamento de marca, de sandália que vc usa na praia e no shopping. Era chinelo de dedo, pronto e acabou. Ah, e quando arrebentava, minha vó colocava um preguinho na tira,pra estender a vida útil do chinelo. 

* Que cama bagunçada essa, hein!

* Há uma caixa de fósforo nessa foto! Há uma caixa de fósforo nessa foto e eu tô sentada do lado dela. Nunca tinha notado isso. Eu sentada do lado de uma caixa de fósforo é um evento e tanto. hahahaha
Já falei do meu nojo de palito de fósforo aqui no blog, neste post.

* meus dentes eram mais bonitinhos em 1987, mas o sorriso de 2013 é mais caloroso.

terça-feira, 8 de outubro de 2013


Faz  tempo que venho querendo falar sobre a greve dos profissionais de educação do Rio aqui no blog, mas me falta estofo pra tratar, com propriedade, os detalhes do famigerado plano de cargos e salários, pra falar  de todas reivindicações de um modo geral. Aí li um texto excelente no Blogueiras Feministas, escrito por uma professora, a Larissa Costard. A Larissa  faz um resumo da situação da escola pública na cidade do Rio e explica alguns pontos do plano.  É um texto bacana de verdade. Se quiserem entender um pouquinho o que tá acontecendo aqui no Rio, comecem a ler o texto aqui e depois vão lá no Blogueiras Feministas:

" (...)
Eis então, que surge o PCCR (Plano de Cargos, Carreiras e Remunerações) da Prefeitura do Rio de Janeiro, que une as duas frentes da nossa luta. Ataca diretamente a nossa carreira e institucionaliza o projeto de educação a partir da reforma do quadro de professores. Todos os parquíssimos benefícios só valem para os professores que migrarem para 40 horas semanais, sem a remuneração condizente (o salário nem se compara ao pago nos colégios federais), eliminando aqueles que trabalham nos regimes de 16 horas (fundamental II), 22,5 horas (fundamental I) e os 30 horas (modalidade especial do professor de fundamental II).
O plano institucionaliza a separação entre professor e pesquisador, desautorizando-nos a produzir o conhecimento (logo, criando cada vez mais profissionais com dificuldade de criticá-lo) quando afirma que as pós-graduações valorizadas serão somente as da área de educação (não que esta não seja importante, mas o professor precisa ter o direito de escolher a área que deseja pesquisar); institucionaliza o professor polivalente (extinguindo as carreiras de PI e PII – respectivamente professor de 6º ao 9º e os de 1º ao 5º anos), criando o professor de educação básica, que pode atuar em qualquer área. Esses são alguns exemplos de como o PCCR mata, via carreira do professor, não só nosso futuro profissional como a educação crítica e de qualidade."
Continua aqui


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

À noite, em vez de dormir, passo horas pensando no contraste entre a pele fria do corpo morto da minha vó e a textura da palma viva e quente da mão dela. Eu nunca havia tocado um corpo morto antes. Se eu pudesse voltar  atrás, teria resistido ao impulso de tocar  a pele da minha vó uma última vez, antes que o caixão se fechasse. Estendi a mão e toquei a testa dela, antecipando as sensações que eu conhecia. Minha vó tinha a pele da testa fina e vincada, como todo idoso. Eu saberia recriar as rugas daquela testa - e de todo rosto- de tanto que as tinha visto, porque minha vó envelheceu diante dos meus olhos, o corpo dela viveu e foi morrendo perto de mim. Eu sabia exatamente o que meus dedos sentiriam toda vez que encostassem na pele dela.

Mas o meu primeiro e único toque no corpo morto da minha vó foi  um evento absolutamente inédito. Encostei a ponta dos dedos na testa morta dela; a testa estava gelada, muito gelada. Eu não conhecia aquele tipo de temperatura. Não era gelado de geladeira, nem aquele gelado de quem tá doente.Era um gelado de pele morta, e eu sou incapaz de descrever o que é isso.

Pra minha sorte, sou uma pessoa das sensações, do tato.. Minha memória não guarda imagens ou sons. Já agora, com tão pouco tempo, me arrependo de não ter vídeos da minha vó no meu celular, porque não consigo recuperar  o timbre da voz dela. Mas a pele dela tá viva na memória - especialmente, a pele delicada da palma da mão. Não preciso nem fechar os olhos pra sentir o quentinho de sua mão viva apertando minha, enquanto eu a visitava no hospital. Não consigo me lembrar com exatidão da última coisa que ela me disse, mas me lembro da textura da parte interna dos dedos dela. Queria ser uma dessas escritoras de talento pra saber descrever a textura da mão viva da minha vó. Assim, quando minha memória começasse a falhar - e eu sei que ela vai falhar- eu viria aqui, leria esse post e saberia, como ainda sei agora, como era a pele viva da minha vó.

Eu só queria nunca esquecer.