sexta-feira, 4 de outubro de 2013

À noite, em vez de dormir, passo horas pensando no contraste entre a pele fria do corpo morto da minha vó e a textura da palma viva e quente da mão dela. Eu nunca havia tocado um corpo morto antes. Se eu pudesse voltar  atrás, teria resistido ao impulso de tocar  a pele da minha vó uma última vez, antes que o caixão se fechasse. Estendi a mão e toquei a testa dela, antecipando as sensações que eu conhecia. Minha vó tinha a pele da testa fina e vincada, como todo idoso. Eu saberia recriar as rugas daquela testa - e de todo rosto- de tanto que as tinha visto, porque minha vó envelheceu diante dos meus olhos, o corpo dela viveu e foi morrendo perto de mim. Eu sabia exatamente o que meus dedos sentiriam toda vez que encostassem na pele dela.

Mas o meu primeiro e único toque no corpo morto da minha vó foi  um evento absolutamente inédito. Encostei a ponta dos dedos na testa morta dela; a testa estava gelada, muito gelada. Eu não conhecia aquele tipo de temperatura. Não era gelado de geladeira, nem aquele gelado de quem tá doente.Era um gelado de pele morta, e eu sou incapaz de descrever o que é isso.

Pra minha sorte, sou uma pessoa das sensações, do tato.. Minha memória não guarda imagens ou sons. Já agora, com tão pouco tempo, me arrependo de não ter vídeos da minha vó no meu celular, porque não consigo recuperar  o timbre da voz dela. Mas a pele dela tá viva na memória - especialmente, a pele delicada da palma da mão. Não preciso nem fechar os olhos pra sentir o quentinho de sua mão viva apertando minha, enquanto eu a visitava no hospital. Não consigo me lembrar com exatidão da última coisa que ela me disse, mas me lembro da textura da parte interna dos dedos dela. Queria ser uma dessas escritoras de talento pra saber descrever a textura da mão viva da minha vó. Assim, quando minha memória começasse a falhar - e eu sei que ela vai falhar- eu viria aqui, leria esse post e saberia, como ainda sei agora, como era a pele viva da minha vó.

Eu só queria nunca esquecer.

9 comentários:

Lilian Silva disse...

:(

me sinto exatamente como você. sinto tanto não ter vídeos da minha mãe, porque não vou me lembrar da voz dela por muito tempo. felizmente não tenho nenhuma lembrança dela morta - não a vi, não a quis ver, não a toquei, porque não saberia lidar com essa lembrança. ela me enlouqueceria.

Anália disse...

Oi, Ju!

Já perdi tanto minha mãe quanto minha vó há mais de 25 anos. No começo, essas sensações são horríveis mesmo, é muito difícil aceitar... Toda vez que chovia, eu chorava pensando na minha mãe debaixo da terra molhada.
Mas com o tempo, muitas vezes não ficam nem imagens nem sons, mas sensações boas que te lembram a pessoa, e é aí que está a essência mesmo. Lembro na minha vó toda vez que abro uma cristaleira aqui de casa, ela é de embuia e tem o mesmo cheiro que um armário da minha vó onde ela guardava vários trabalhinhos manuais e recortes que eu adorava mexer. Lembro da minha vó toda vez que pego uma lã para fazer crochê... Lembro da minha mãe quando vejo coisas verdes, cor que ela adorava (assim, tenho uma parede verde clara, vários objetos verdes tb, rsrs). Lembro da minha mãe quando falo/ouço expressões engraçadas que ela usava (fulano é "demorativo"! Fala a verdade, uma pessoa demorativa é muito mais que demorada, não é? Ou então: não come isso aí não, que tem muita química!) E tudo isso me dá um sentimento que elas estão presentes, um quentinho na alma e no coração! É muito melhor que olhar qualquer foto ou vídeo.
Beijos muito grandes,
Anália

Aline Souza disse...

Minha mente tbm me deixa na mao com algumas coisas! Forca, Juliana. Um abraco online para vc e que possa acalentar um pouquinho o seu coracao! Bjss

Juliana disse...

lílian, foi importante ver o corpo da minha vó. eu precisava visualizar a morte, torná-la mais palpável. Minha ficha demoraria mais pra cair, porque minha vó tinha melhorado. Eu a tinha visto muito bem. A morte dela não me surpreendeu, mas me deixou confusa. Aconteceu quando eu tinha mais esperança.


Anália, te dizer que chorei lendo seu comentário. Que bom que vc me disse essas coisas. Quando as coisas tão recentes a gente não consegue pensar além. ainda tô na fase em que os aspectos físicos da minha vó fazem falta.
Por mim, não teríamos desfeito o quarto da minha vó, mas minha mãe e meus tios já desfizeram e eu acho que foi muito bom.
Ah, mas que eu queria um vídeo, eu queria...


Aline, obrigada pelo abraço, mesmo.

Lilian Silva disse...

Ju, nem que eu quisesse ver. O caixão foi lacrado. Se por um lado agradeço por não ter essas lembranças, por outro ainda tenho a sensação - confesso - de que posso ir buscá-la no hospital. Me sinto horrível quando me pego pensando isso.

Juju M. disse...

A minha vó está indo lentamente. Está internada há muito. É triste e lento. Dá vontade de ser criança novamente. Ganhar docinho de goiabada que só ela fazia para mim. Sinto por você em mim Juju. O tempo ameniza. Um beijo

Fernanda disse...

:(

Força, Ju....

Fernanda disse...

:(

Força, Ju....

Palavras Vagabundas disse...

Lembrei das mãos de minha mãe, ficando finas e pequenas nas minhas.
Força!
bjs
Jussara