quinta-feira, 10 de outubro de 2013

E eu que pensei que luto se resumiria a  chorar na primeira semana e escrever um post no blog?

 Eu e minha ingenuidade. Ou eu e essa arroganciazinha de achar que posso gerenciar o que quiser - sentimentos, principalmente. Ou eu e o medo de lidar com o que não está previsto. 

Ou eu e minha humanidade. Simples assim.


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Não quero que minha vó vire uma lembrança. Não sei pensar na minha vó como lembrança. Não sei falar dela no passado. Não sei olhar pras coisas dela e dizer " eram dela". Minha vó ainda é pra mim. Não sinto falta dela porque ela ainda está

O quarto está desfeito. As roupas foram distribuídas. Não fiquei com nada além da chave de casa e a canga de praia dela - coisas que já eram mais minhas do que dela mesmo. Mas nada disso faz muita diferença. Essa ainda é a casa dela. Eu ainda sou a neta dela. Tudo sobre minha vó ainda é vivo, íntimo, habitual. 

Minha vó ainda é um hábito meu.

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Até esse ano, poucas eram  as fotos de gente morta nos meus álbuns. 2013 será lembrado como o ano em que  passei a ter muitas fotos de mortos em casa.

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Fomos à missa no sétimo dia de morte da minha vó. Fui à missa por ela, porque faz tempo que não vou  a missas por mim mesma, especialmente às missas da igreja do bairro. É engraçado você fazer uma coisa pensando em alguém que nem vai saber que você fez. Mas eu fiz.

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A morte da minha vó , em si, não é um peso. Eu não tinha qualquer pendência com ela, não deixei de dizer nada pra ela , fiz tudo que pude pra que ela tivesse uma morte digna. Minha vó foi das pessoas mais próximas que tive na vida. Cresci perto dela, herdei algumas de suas maluquices, aprendi alguns de seus bons hábitos, tínhamos vozes tão parecidas que confundiam até quem nos conhecia bem. Sobretudo, tenho em mim as marcas do seu excelente humor  e um tantinho da sua resistência. Brigamos um bocado, mas também conversamos muito, saímos pra ela tomar chope, sentei no colo dela, sentamos  pra ver novela, comi a dobradinha com batata que fazia só por mim.

Não queria - e não preciso- que minha vó vivesse mais. O corpo dela não dava mais conta. Sobrava vontade, mas não havia mais corpo. Minha vó gastou todas as suas reservas de energia e coragem. Ela não merecia e nem precisava de uma sobrevida. A morte da minha vó não é um sofrimento pra mim. A morte é um alento, um consolo. Acabou - e eu não me arrependo de nada.

Durante todo o tempo em que ela esteve internada, minha cabeça doeu terrivelmente. O médico disse que eu estava tensa. Faz todo sentido, claro. Desde que minha vó morreu, a dor não voltou mais. Eu não durmo, fico mal humorada, sinto meu corpo esvaziado de energia e vontade, mas dor de cabeça passou. Minha cabeça doía porque eu não aguentava ver o sofrimento, aquelas dores, aquela cama de hospital, aquela falência do corpo, o esforço dela pra ficar só mais um pouco.

Minha vó esteve perto de mim por 29 anos. Foram 29 anos de saúde, de animação, de teimosia, de maluquices, de implicância, de músicas ecoando pela casa, de autonomia, de bravura. Não trocaria nenhum desses 29 anos pra que ela estivesse viva agora, sem saúde, sentindo dor, com um coração que não dava mais conta, com rins que sobrecarregavam o coração, com pernas que não se sustentavam mais.

Eu prefiro a saudade que vai vir.

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A depiladora da minha vó é a mesma que faz as minhas sobrancelhas. Daí hoje fui fazer as minhas sobrancelhas indomáveis. A depiladora gostava um bocado da minha vó, então inevitavelmente falamos dela, e eu fiquei  feliz por isso. A moça não falou da minha vó como se tivessem  se conhecido num passado distante. 

Num dado momento, ela me disse assim:

- O mais triste pra mim é não saber  que nunca mais vou ver a pessoa. Quando meu pai morreu, chorei todos os dias pensando nisso.

Deve ser por isso que não choro todos os dias. Ainda não pensei que nunca mais vou  ver minha vó.




2 comentários:

Chico Mouse disse...

Nem sei o que dizer, Ju...

Minha vózinha tá bem velhinha e sei que também vai ser um baque quando ela se for... :(

Cíntia Ribeiro disse...

Luto é um negócio complicado. Sentimentos são complicados, não adianta tentar explicar ou prever. A questão é aprender a conviver com eles e respeitá-los.