quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Ascendente

Sempre às voltas com o ir e ficar.

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Ainda bem que existe quem diga: prioridades, Juliana, prioridades!
Outros verões estão por vir.

Mas tem horas em que bate uma urgência, como se nada fosse mais importante que o impulso. Bate também um medo: e se não houver?

Me imagino correndo e berrando pelo aterro, pelo desterro...

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Uma aluna disse pra mãe dela que sou uma professora amorosa. Ninguém nunca tinha me chamado de amorosa antes. 

Amorosa. Amorosa. Amorosa.

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Uma vez me disseram que tenho uma delicadeza que precisa ser adivinhada. Me disseram também ,  em outras circunstâncias,  que nunca se imaginaria que eu fosse tão sensível.

Eu mesma tantas vezes me sinto  uma fraude.

Aí me explicaram que é tudo culpa de sagitário.

Eu quero acreditar que seja mesmo.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Se mau humor mata, vão se preparando pro meu enterro.

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Chega o apocalipse, mas não chega 21 de dezembro.




terça-feira, 19 de novembro de 2013

Dia desses, duas pessoas legais e simpáticas postaram no Facebook que são terminantemente contra o sistema de cotas raciais em concursos. Declarações tão enfáticas me espantam sempre, mas eu tendo a achar que as pessoas legais e simpáticas não sabem do que  estão falando quando afirmam coisas desse tipo. Prefiro achar que as pessoas são ignorantes ou desatentas.

Eu sou preta. Não passo o tempo todo da minha vida pensando na cor da minha pele, nas minhas características físicas. Devia pensar mais, acho, mas não penso. Sou das mais desatentas - e das mais sortudas. Nunca fui xingada de macaca, de negona; não me lembro de nenhuma situação em que fui abertamente discriminada, mas, como eu disse, não passei por nada disso porque tenho sorte. O racismo nunca me agrediu diretamente, daquele modo que faz com que as pessoas fiquem indignadas, divulguem mensagens no facebook, afirmem que têm um amigo negro e tal.  Mas não preciso dizer aqui, não pra vocês, que racismo existe, né? Existe e me atinge, dolorida e silenciosamente. O racismo me atinge quando me torna supervisível.

No fim de semana, estive em Tiradentes com minha amiga. Cidade cheia, feriado e  era possível contar nos dedos as pessoas pretas passeando por ali. Minha amiga e eu éramos umas dessas poucas pessoas. Não é que passamos o tempo todo procurando os outros negros. Não é preciso procurar:  em determinadas situações, tenho a impressão de que estou participando daqueles seriados americanos em que há um negro no grupo só pra constar. Não tenho como contar todas as vezes em que eu fui a única - ou uma das poucas- pessoa negra na turma da faculdade, no avião, naquela loja mais cara,  na fila do banco, nos empregos que tive. Quando eu era mais nova, não percebia muito. Ficando mais velha e mais calejada, passei a ser mais atenta. Em algum momento da minha vida adulta, me dei conta da minha supervisibilidade. E aí comecei a ficar incomodada. Porque incomoda. Ora, nasci e vivo num lugar cheio de gente parecida comigo. O país tá cheio de gente com o mesmo tom de pele que o meu, com o mesmo tipo de cabelo, com o mesmo formato de nariz e de bochecha. Então por que essa sensação de que em determinados lugares ninguém mais se parece comigo? E eu não estou falando aqui do mundo de gente muito rica, da alta sociedade, de coisas fora da realidade. Estou falando da universidade, estou falando do corpo docente das escolas públicas em que trabalhei e trabalho, estou falando do shopping na zona norte do Rio de Janeiro, estou falando da pousada numa cidade do litoral.

Não sei me expressar bem sobre esse tema - me falta estofo, de verdade-, mas acho que dá pra entender o que quero dizer. Suponho que as pessoas que dizem por aí que são terminantemente contra qualquer política racial não sabem o que é ser minoria, não conhecem esse desconforto de parecer um tantinho mais privilegiada enquanto  a maioria daqueles que têm a pele preta como a minha não têm acesso aos mesmos espaços, serviços e escolhas que eu tenho. A vida não é High School Musical, com seu único par de adolescentes negros. Joaquim Barbosa não tem de ser um super-herói.Desfile de moda com modelos negras não devem ser  tratados como exóticos. E mais:  devia causar estranheza, devia incomodar  o fato de as pessoas que a polícia mata, as pessoas que estão nas cadeias, as pessoas que não sabem ler e escrever terem, quase sempre, a pele como a minha.

Eu prefiro acreditar que somos todos desatentos e ignorantes.


P.S.: Não acho que os sistemas de cotas sejam perfeitos e estejam acima de qualquer crítica. Não mesmo, né, gente!

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Quando eu estava no ensino médio, odiava as quartas-feiras. Era o dia em que eu mais estudava, tinha o estágio de manhã e ainda ia pro inglês à noite. Era tanto cansaço. E eu tinha 12 anos menos do que tenho hoje. Numa quarta-feira dessas tenebrosas, cheguei em casa, depois do dia exaustivo, morta de fome. Eu poderia comer um pedaço da porta da cozinha se fosse o caso. Encontrei a casa vazia, nenhuma comida na panela, nadinha pra comer. Me lembro como hoje. Em vez de comer um pedaço da porta, sentei no chão da cozinha, vencida pelo cansaço, e chorei. Tanto desamparo.

Esse desamparo é o meu atual sentimento predominante. Estou cansada. 2013 vem sendo exigente. Eu mantenho a elegância e não sento no chão da cozinha porque sei que não adianta de nada.  Mas queria. Estou cansada, muito cansada. Meu corpo dá todos os sinais de exaustão. Se eu pudesse, anteciparia 31 de dezembro e dava o ano por terminado. Cansei de viver 2013. Quero um ano novo o mais rápido possível. Quero um ano novinho e mais ameno. Quero mais estabilidade, mais escolhas felizes, menos mudanças. Ou melhor quero só as mudanças que não exijam. Bem, eu sei que isso não existe, mas me deixem desejar.

Enquanto isso, vou lidando com as lágrimas que cismam de aparecer nas horas indevidas. Lágrimas, essas coisinhas rebeldes, de natureza incontrolável.

Quero férias.

Muitos anos

Mil anos é tempo demais, especialmente pra amar quem quer que seja. Um amor assim deve pesar para ambos os lados.  Prefiro promessas mais suaves.

Mas ando cantarolando esse musiquinha fofinha sem parar:

A Thousand Years 

As musiquinhas podem dizer o que elas quiserem, né?


domingo, 17 de novembro de 2013

De volta à cidade delicada

Melhor silêncio. Melhor barulhinho de chuva. Melhor vista distante da janela. Melhor capuccino. Melhores taxistas. Melhores pessoas gentis/simpáticas/ calorosas. Melhor tutu. Melhor caldo verde. Melhor pão de queijo. Melhor igreja iluminada. Melhor igrejinha iluminada. Melhor igrejona iluminada. Melhor céu encoberto. Melhor noite azulada. Melhor praça lotada. Melhor garçom. Melhor moça que trabalha na loja de rocambole. Melhor doce de leite sem açúcar. Melhor pão francês. Melhor ar geladinho da manhã. Melhor praça silenciosa.Melhor ladeira pra ver o pôr do sol. Melhor pôr do sol delicado. Melhor luz do sol.













Tiradentes.

Suspiros.




P.S.: Jaqueline tirou a última foto.




quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Eu sei que só ando falando de morte por aqui. Tô monotemática. Me perdoem; me aguentem, se puderem. Vai passar.  Juro que se vocês pudessem estar o dia inteiro ao meu lado saberiam que eu falo de outras coisas,  só não sei que outros assuntos são esses. Os dias são tão corridos que sinto como se eu passasse pelos lugares e pelas pessoas sem realmente registrá-los. É novembro, e eu nem percebi.

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Me falta um talento fundamental: traquejo. Todo dia, cada vez mais, percebo a falha na minha formação: em algum momento da vida, deixei de aprender ( ou deixaram de me ensinar) a medida certa na relações sociais. Oscilo entre excesso de cuidado e cuidado nenhum. Oscilo entre muita ternura e muita displicência. Às vezes, simplesmente não me importo - e não sinto culpa. Mas se me interessa, se me cativa, eu gosto muito, muito, muito. O engraçado é que anda cada vez mais difícil me importar. Não sei se sou eu, não sei se são as pessoas. Não sei se tem a ver com a idade e com o que não aprendi. Parece que ainda estou na quinta série - e estou mesmo, todos os dias na escola. Os adultos  nunca saem dos 11 anos, acho.  Tudo parece igual; a diferença é que os adolescentes costumam ser mais crus e mais honestos. Nós adultos gostamos do verniz.

Eu pensei que tivesse aprendido. Quase andei por aí exibindo meu traquejo adquirido como quem tira onda com um troféu. Adquiri traquejo coisa nenhuma. Ainda sou aquela mesma movida pelos afetos. Pior: hoje sou mais mimada. Tô acostumada a gostar e a ser gostada por inteiro. Acho estranhas as meias medidas, acho estranho ficar sempre na superfície. 

Acho estranho. Queria não achar, mas acho. Estranhíssimo.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Contrariando as expectativas, cheguei cedo no trabalho. Contrariando as expectativas, não entrei em sala. Fui, então, pra sala de leitura procurar um conto pra aula de amanhã. Saí de lá com um livro da Ana Maria Machado, que foi devidamente lido no ônibus, na volta pra casa. Tenho o meu livro de gente grande me esperando na bolsa, mas nunca resisto aos juvenis.

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A escola em que trabalho funciona num prédio antigo de tijolos vermelhos, chão preto, quente no verão e frio no inverno. Nos dias amenos, um vento gelado surgido não sei de onde passa pelos corredores - é um vento meio fantasmagórico. Conversando com a secretária, fiquei sabendo que escolas vêm funcionando naquele prédio desde a década de 1940. Recentemente, esteve lá uma pessoa que se formou em 1954. Muito tempo. Minha mãe nem era nascida.

Conversar com os meus colegas do trabalho sempre me dá uma noção do tempo. Todo mundo tem de profissão o que tenho idade. Todo mundo não, mas quase. Hoje soube que uma das minhas colegas é professora desde 1968. Mil novecentos e sessenta e oito. Tem noção?

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Uma das minhas colegas é professora e enfermeira. Daí que, nem sei bem como, nosso papo chegou no processo de preparação do corpo para o velório. A gente sabe que os cadáveres recebem um tratamento, mas eu nunca tinha ouvido  um profissional contar como funciona esse processo. Achei interessante. Todas as pessoas mortas que vi até hoje estavam com a aparência mais serena e suave do que a que  tinham nos últimos dias de vida, então nunca me ocorreu que , por baixo de todas aquelas flores que cobrem o caixão estivesse um corpo apodrecendo, com órgãos sendo devorados por bactérias.

Eu não me importo de falar sobre morte; me incomodo justamente com o contrário.

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Noite dessas, sonhei que encontrava  minha vó sentada no sofá e ela me dizia que os médicos tinham encontrado um jeito de ela viver mais um pouco. Tinham ido ao cemitério, tirado o corpo do caixão e colocado um coração novo no lugar. O efeito desse procedimento não seria duradouro; ela morreria em breve novamente, mas, dessa vez, não seria tão difícil nem pra ela ,nem pra nós. Minha vó ainda ria e me dizia: " Estou igual àquele cara daquele filme de maluco que você vê." Eu franzia a testa sem entender e acordava.

Ontem, me dei conta de que minha vó estava se referindo ao que acontece ao Mulder, naquela temporada de Arquivo X  que me recuso a assistir. 

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Estou chegando naquela fase do luto em que a saudade rói.

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Eu queria ser inteligente, dizer coisas inteligentes. Queria não dizer a primeira coisa que passa pela minha cabeça, queria ser mais difícil de ler. 

O que eu queria mesmo era só parecer mais adulta. Só parecer já tava de bom tamanho.