segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Contrariando as expectativas, cheguei cedo no trabalho. Contrariando as expectativas, não entrei em sala. Fui, então, pra sala de leitura procurar um conto pra aula de amanhã. Saí de lá com um livro da Ana Maria Machado, que foi devidamente lido no ônibus, na volta pra casa. Tenho o meu livro de gente grande me esperando na bolsa, mas nunca resisto aos juvenis.

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A escola em que trabalho funciona num prédio antigo de tijolos vermelhos, chão preto, quente no verão e frio no inverno. Nos dias amenos, um vento gelado surgido não sei de onde passa pelos corredores - é um vento meio fantasmagórico. Conversando com a secretária, fiquei sabendo que escolas vêm funcionando naquele prédio desde a década de 1940. Recentemente, esteve lá uma pessoa que se formou em 1954. Muito tempo. Minha mãe nem era nascida.

Conversar com os meus colegas do trabalho sempre me dá uma noção do tempo. Todo mundo tem de profissão o que tenho idade. Todo mundo não, mas quase. Hoje soube que uma das minhas colegas é professora desde 1968. Mil novecentos e sessenta e oito. Tem noção?

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Uma das minhas colegas é professora e enfermeira. Daí que, nem sei bem como, nosso papo chegou no processo de preparação do corpo para o velório. A gente sabe que os cadáveres recebem um tratamento, mas eu nunca tinha ouvido  um profissional contar como funciona esse processo. Achei interessante. Todas as pessoas mortas que vi até hoje estavam com a aparência mais serena e suave do que a que  tinham nos últimos dias de vida, então nunca me ocorreu que , por baixo de todas aquelas flores que cobrem o caixão estivesse um corpo apodrecendo, com órgãos sendo devorados por bactérias.

Eu não me importo de falar sobre morte; me incomodo justamente com o contrário.

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Noite dessas, sonhei que encontrava  minha vó sentada no sofá e ela me dizia que os médicos tinham encontrado um jeito de ela viver mais um pouco. Tinham ido ao cemitério, tirado o corpo do caixão e colocado um coração novo no lugar. O efeito desse procedimento não seria duradouro; ela morreria em breve novamente, mas, dessa vez, não seria tão difícil nem pra ela ,nem pra nós. Minha vó ainda ria e me dizia: " Estou igual àquele cara daquele filme de maluco que você vê." Eu franzia a testa sem entender e acordava.

Ontem, me dei conta de que minha vó estava se referindo ao que acontece ao Mulder, naquela temporada de Arquivo X  que me recuso a assistir. 

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Estou chegando naquela fase do luto em que a saudade rói.

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Eu queria ser inteligente, dizer coisas inteligentes. Queria não dizer a primeira coisa que passa pela minha cabeça, queria ser mais difícil de ler. 

O que eu queria mesmo era só parecer mais adulta. Só parecer já tava de bom tamanho.








Um comentário:

Lilian Silva disse...

Eu já estou na fase em que a saudade corroi.