terça-feira, 19 de novembro de 2013

Dia desses, duas pessoas legais e simpáticas postaram no Facebook que são terminantemente contra o sistema de cotas raciais em concursos. Declarações tão enfáticas me espantam sempre, mas eu tendo a achar que as pessoas legais e simpáticas não sabem do que  estão falando quando afirmam coisas desse tipo. Prefiro achar que as pessoas são ignorantes ou desatentas.

Eu sou preta. Não passo o tempo todo da minha vida pensando na cor da minha pele, nas minhas características físicas. Devia pensar mais, acho, mas não penso. Sou das mais desatentas - e das mais sortudas. Nunca fui xingada de macaca, de negona; não me lembro de nenhuma situação em que fui abertamente discriminada, mas, como eu disse, não passei por nada disso porque tenho sorte. O racismo nunca me agrediu diretamente, daquele modo que faz com que as pessoas fiquem indignadas, divulguem mensagens no facebook, afirmem que têm um amigo negro e tal.  Mas não preciso dizer aqui, não pra vocês, que racismo existe, né? Existe e me atinge, dolorida e silenciosamente. O racismo me atinge quando me torna supervisível.

No fim de semana, estive em Tiradentes com minha amiga. Cidade cheia, feriado e  era possível contar nos dedos as pessoas pretas passeando por ali. Minha amiga e eu éramos umas dessas poucas pessoas. Não é que passamos o tempo todo procurando os outros negros. Não é preciso procurar:  em determinadas situações, tenho a impressão de que estou participando daqueles seriados americanos em que há um negro no grupo só pra constar. Não tenho como contar todas as vezes em que eu fui a única - ou uma das poucas- pessoa negra na turma da faculdade, no avião, naquela loja mais cara,  na fila do banco, nos empregos que tive. Quando eu era mais nova, não percebia muito. Ficando mais velha e mais calejada, passei a ser mais atenta. Em algum momento da minha vida adulta, me dei conta da minha supervisibilidade. E aí comecei a ficar incomodada. Porque incomoda. Ora, nasci e vivo num lugar cheio de gente parecida comigo. O país tá cheio de gente com o mesmo tom de pele que o meu, com o mesmo tipo de cabelo, com o mesmo formato de nariz e de bochecha. Então por que essa sensação de que em determinados lugares ninguém mais se parece comigo? E eu não estou falando aqui do mundo de gente muito rica, da alta sociedade, de coisas fora da realidade. Estou falando da universidade, estou falando do corpo docente das escolas públicas em que trabalhei e trabalho, estou falando do shopping na zona norte do Rio de Janeiro, estou falando da pousada numa cidade do litoral.

Não sei me expressar bem sobre esse tema - me falta estofo, de verdade-, mas acho que dá pra entender o que quero dizer. Suponho que as pessoas que dizem por aí que são terminantemente contra qualquer política racial não sabem o que é ser minoria, não conhecem esse desconforto de parecer um tantinho mais privilegiada enquanto  a maioria daqueles que têm a pele preta como a minha não têm acesso aos mesmos espaços, serviços e escolhas que eu tenho. A vida não é High School Musical, com seu único par de adolescentes negros. Joaquim Barbosa não tem de ser um super-herói.Desfile de moda com modelos negras não devem ser  tratados como exóticos. E mais:  devia causar estranheza, devia incomodar  o fato de as pessoas que a polícia mata, as pessoas que estão nas cadeias, as pessoas que não sabem ler e escrever terem, quase sempre, a pele como a minha.

Eu prefiro acreditar que somos todos desatentos e ignorantes.


P.S.: Não acho que os sistemas de cotas sejam perfeitos e estejam acima de qualquer crítica. Não mesmo, né, gente!

10 comentários:

Cheshire cat disse...

É como eu li por aí: o privilégio é um lugar quentinho e confortável. É difícil sair dele e enxergar que está tudo muito errado. Além de desatentos e ignorantes, somos preguiçosos.

juliana disse...

eu acho que você se expressa muito bem sobre isso. foi lendo você que eu comecei a perceber que sou um tantinho privilegiada, que comecei a rever minha opinião sobre cotas. enfim, que eu me tornei menos desatenta e ignorante.
um beijo.

amanda. disse...

Que do caralho, ju!

Eu evito me alongar quando o assunto é cota racial, justamente porque a realidade onde moro é diferente. Aqui praticamente nao tem negros, ou pardos. A maioria esmagadora é branca. E pobre. Por aqui, as cotas socais funcionam melhor, se mostram mais "justas" que as raciais.
Mas essa é minha visão superficial. Nunca me aprofundei no assunto. Ou seja, preguiçosa e ignorante.

Anônimo disse...

Conversa fiada pra boi dormir que você não nota essas coisas. E isso fica escrachado quando você se contradiz em seu texto, primeiro dizendo que não repara e depois dizendo que repara, porque está calejada. A menor minoria é o indivíduo, não se esqueça disso. Não se esqueça da miscigenação do nosso país. Minorias são os brancos, que figuram em uma porcentagem parecida com a de negros puros, em torno de 7% da população brasileira.

Fernanda disse...

Já fui contra as cotas. Gostava do discurso de que não adianta nada dar vagas a negros na universidade, se não se mudar todo o sistema de ensino, a estrutura social, etc, etc.

De certa forma, ainda penso assim - as cotas não são a solução, não resolvem o cerne da questão. Mas são um paliativo importante.

Quantos anos até que uma política séria para diminuição da desigualdade social seja implementada? Se é que existe mesmo a possibilidade de algum dia surgirem políticos realmente interessados e enagajados nesse propósito... Enfim. Muito, muito tempo.

E enquanto isso, o que fazer com essa parcela enorme da população, que sempre esteve à margem, num reflexo direto séculos de escravidão? Manter todos eles "escondidos debaixo do tapete" e fora das vistas da elite, para que não ""incomodem""?

É complicado. Como você disse, o sistema de cotas não é perfeito. Mas hoje em dia, eu aprovo. Vejo as cotas como uma forma OBJETIVA e IMEDIATA de tentar reparar danos de anos e anos de exploração e marginalização...

Enfim. tenho evitado de comentar assuntos como esse na internet, porque numca é igual a uma conversa olho no olho, onde você consegue se expressar melhor. tenho a impressão que na internet o pensamento sempre fica incompleto, e algo fica mal entendido... por isso, vou parar por aqui.

Só queria finalizar dizendo que acredito que vc esteja certa quando diz sobre tanta gente ser ignorante de desatenta. Sinto que fui uma delas por muto tempo, só me detendo na superficie das coisas, sem pensar a fundo e ir além do óbvio. Mas tenho tentado aprender, e me atentar. Há esperança. ;)

Bjs, e sorry pelo testamento! :*

Anônimo disse...
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Eize disse...

Dentro da minha ignorância de cor parda, acredito que as cotas sociais sejam mais justas. Quem não consegue ingressar em uma universidade pública ou passar em um concurso é o que estudou em colégios públicos, geralmente mais deficitários. Fico pensando que favorecer apenas pela cor da pele não seja sub-julgar a capacidade, nesse caso, do negro.
Más é muito fácil fazer uma análise rasa quando você não sente na pele.

Juliana disse...

Oi, Eize! Pois é, a discussão é complexa demais pra ser resumida num contra ou num a favor.

cristinapardini.com disse...

Ufi, fui comentar e me deparei com o comentário do anônimo neo-nazista. :(
Não sou preta, e acho que o racismo no Brasil é muito forte e visível. O sistema de cotas tem vários problemas, mas acho que é um início válido...

Iolanda Lopes disse...

Difícil. Mas se todos tivessem acesso à educação de boa qualidade, não seria necessário as cotas.

Como definir quem é negro no Brasil?

Sou baiana e morei alguns anos no triangulo mineiro, na minha certidão de nascimento consta que sou parda, para os mineiros eu era negra, e depois que retornei para meu estado, um pouco desbotada, pela distância da praia, passei a ouvir com frequência:
- Nossa como vc está branca! (rs)

Até parece engraçado, mas não é. Como já falei, esqueci da fila da sorte.
bju

http://feitocomcarinhodemae.blogspot.com