domingo, 8 de dezembro de 2013

Os bebês não são muito diferentes uns dos outros, mas você acha que aquele seu bebê ( no meu caso, nem é meu) é a melhor e maior novidade na Terra desde a invenção da roda. É que você nunca ouviu aquela vozinha antes, nunca ouviu aquela risadinha antes. Se você pensar direito, seu bebê está fazendo aquilo que a humanidade faz desde sempre- andar e falar -, mas não importa: tudo naquela criança é novo, aquela criança é o próprio mundo reinventado.

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Dia desses, cheguei na casa de Vinícius e fui recebida por seu convite animado: - Enta! Enta!
Daí me pegou pela mão, me levou até o sofá e bateu vezes seguida no assento. Era pra eu entrar e sentar. Entrei e sentei. Então, Vinicinho me deu um de seus carrinhos e voltou lá pra sua brincadeira.
Um perfeito anfitrião. Me ofereceu o que tinha de melhor em casa, um carrinho sujo de sei lá o quê.

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Num outro dia desses, tava jogando no celular, quando ouvi Vinícius dizer:
- Ania! Ania! Ania!
Levei um tempo pra perceber que a Ania em questão era eu.  As pessoas costumam arranjar muitos modos de reduzir meu nome, mas Ania é uma novidade. Ele aprende a língua e reinventa meu nome.

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Minha vó não gostava muito de ser chamada de bisavó. Dizia que Bisa era coisa pra gente muito velha. Então,ela falava: " Dá um beijo na vovó, Vini! Senta aqui com a vovó, pretinho!" Ela falava vovó; nós falávamos bisa. Minha vó morreu antes que Vinícius soubesse falar qualquer uma dessas palavras.

Daí que estava ele olhando as fotos no meu celular- o moleque adora fotos e touch screen-, quando parou numa foto que não conhecia: minha vó no hospital, no último dia em que a vi. Vini apontou o dedinho pro celular e disse:
- Bisa!
- O que foi que você disse? 
- Bisa!
Meu coração deu um saltinho. De todas as coisas tristes sobre a morte, o esquecimento é uma delas  - talvez a pior. Todos os dias me vejo num embate entre esquecer e lembrar. A ausência da minha vó já é mais forte que sua presença. Todos os dias, ela vai morrendo mais e mais, e esse desaparecimento contínuo é o que mais dói. Ela não vai estar aqui no Natal, Vinícius não vai comer as rabanadas que ela fazia, Vinícius não vai ouvir a voz da minha vó. Vinícius vai ser gente grande nesse mundo em que minha vó não está. Enquanto ele vai crescendo, ela vai desaparecendo.

Mas aí acontece de esse bebê que está aprendendo o mundo olhar a foto da minha vó e dar a ela o nome certo.  Meu coração dá saltinhos sempre que me lembro.  Minha vó morta existe nesse mundo que a Vinícius inventa enquanto aprende português. 

4 comentários:

juliana disse...

Igor, meu sobrinho mais velho, me chamava de juana. pros irmãos dele, sou só tia ju. :)

acho que é bem isso: as crianças reinventam nosso mundo. e a gente tem de aprender esse novo mundo - com todas as perdas e ganhos - com elas.
:***

Iolanda Lopes disse...

As pessoas queridas que se foram permanecem em nossos corações.
Abç e uma semana abençoada

http://feitocomcarinhodemae.blogspot.com

Luana disse...

=)

Fernanda disse...

Se eu aqui me senti emocionada, imagino você...