quarta-feira, 19 de março de 2014

Desci do ônibus com  post todo pronto na cabeça. Agora que posso escrever não lembro nem no que estava pensando. Talvez fosse algo sobre o fato de que comprei o celular com um vendedor que era a cara do Javier Barden. Comprei em Ciudad del Leste, e parece que beleza é um quesito fundamental pra trabalhar em qualquer loja por lá. Beleza e uma cara blasè. Nunca vi vendedores tão entendiados quanto os de Ciudad del Leste - e olha que eu moro no RJ.

Talvez o post que fugiu da memória fosse  sobre comprar camas. Estou há meses dizendo que vou comprar uma cama. E, claro, ainda não comprei. Faço isso sempre: enrolo tanto que um dia me irrito, entro na loja e compro logo. Não tenho dificuldade nenhuma pra escolher o que comprar. Não tenho é paciência pro processo e gosto de uma procrastinação.

É provável que o post fosse sobre meu humor descompensado. Estou tão mal humorada que um vinco se formou na testa. Eu devia desfazer a cara feia pra não ficar com rugas. Dia desses, uma colega me disse que tenho sorte de ter a testa lisa. Ela achava que eu tinha quase 40. Eu ri. Deve ter sido a primeira pessoa a achar que sou tão mais velha do que sou. Em geral, acham que ainda estou nos 25. No trabalho mesmo,  mais de uma vez, já acharam que eu era a  nova estagiária. Acho um exagero. Tenho cara de quem nasceu em 84 mesmo.

Eu costumo me estressar com rugas. Quando aquelas três linhazinhas no canto do olho começaram a aparecer nas fotos, me deu um medo. Me vi com uma pele toda vincada, como se tivesse pulado direto pros 70. Sempre o exagero. A moça que achou que eu tinha 40 é dessas preocupadas com ruga. Ela lá com uma pele adequada à idade dela, com uma cara excelente, toda ótima e bonita se estressado com linhas de expressão na testa. Fiquei com medo de que o meu discurso seja igual ao dela. Nós duas temos que parar com isso.

Já não me lembro como vim parar nas rugas. Ah, sim, o humor! Acho que tô assim de tanto bancar a chata que meus alunos dizem que eu sou. Eu não sou chata, sou legal, mas me faço mesmo de chata porque sou a adulta da história e meu papel é dizer não, é reclamar das carteiras desorganizadas, é passar 10 páginas de dever de casa. Não posso ser legal, não sei ser a professora legal. Admiro quem sabe. Eu não sei. Se me distraio, os alunos fazem o querem de mim. Eu preciso do esforço da atenção e da disciplina. O ônus: nunca hei de ser a amada pelas crianças. E quem não quer amor?

Meu humor também tem uma dose de medo. Estão acontecendo assaltos violentos no meu bairro. No meu bairro muito residencial, em que todo mundo se conhece. Um carro prata para, o motorista faz ameaças e leva as coisas todas da pessoa. Uma menina levou uma coronhada mesmo depois de entregar a moto que todo mundo sabe que ela pilota. Pilotava. Também o caso da moça arrastada  pelo carro da polícia me apavorou. Chorei de medo e empatia. Disse num grupo de conhecidos que morro de medo de que algo assim aconteça comigo. Disseram que eu devia parar de hipocrisia, que eu não devia ter medo porque tenho um celular de patricinha e um diploma de universidade. Eu só posso achar que um homem branco tem mesmo dificuldade de entender. Não estou de hipocrisia. Minhas duas avós tinham histórias como a da moça arrastada pela polícia. Minha mãe, minhas tias, minhas vizinhas são todas um pouco parecidas com aquela moça. E eu, por mais que tenha um ou outro objeto de patricinha, sempre vou ser uma mulher negra. Sei que ando repetindo esse discurso por aqui; é que se a gente der mole, se afunda na bolha da vidinha e esquece o óbvio.

Ah, sim, o moço  que me chamou de hipócrita ainda citou O Crime e Castigo que eu exibia aberto no colo. Mal sabe ele que o livro é pura ostentação. Tô lendo  mesmo um outro livro, sobre luto,que me faz chorar de cinco em cinco minutos. Lendo num e- reader, diria o moço. Pois é, comprei um Kobo. Passei meses na dúvida Kobo ou Kindle, aí a Cultura decidiu por mim. 50% de desconto sempre decidem por mim.

Bem, eu poderia escrever mais uns dez parágrafos, mas o metrô chegou na estação. Bom dia, gente!


terça-feira, 18 de março de 2014

Daria todo o meu reino pelo direito de falar exatamente tudo que se passa pela minha cabeça.

Não, eu não tenho um reino.

domingo, 16 de março de 2014

Em breve, vou fazer uma coisa que eu jamais pensei que faria. Uma vez, minha primeira analista levantou  a hipótese de eu pensar em talvez fazer essa coisa, e eu mudei de assunto na hora e nunca mais falamos daquilo. Mas, como tudo que falei pra minha analista, nunca esqueci da hipótese de pensar em talvez fazer. Passei muito tempo irritada porque ela tinha feita a tal da sugestão. Aliás, ficar irritada por causa da minha primeira analista era a coisa mais corriqueira. Que raiva que eu tinha dela e de sua capacidade de ser imune a todas as estratégias de simpatia e sedução que uso na vida! Minha primeira analista cagava pros meus dramas, pras minhas caras e bocas, e por isso mesmo  eu voltava toda semana praquele consultório. Ela tinha um tom de deboche e me estendia a caixinha de lenços sem nem pestanejar diante das minhas lágrimas, mas eu sabia que podia confiar nela. Soube no dia em que contei  algo que nunca tinha contado pra ninguém,e aquilo que era tão pesado pareceu  pequeno. Nesse dia, ela encerrou a sessão com a frase mais bonita que alguém já me disse: " um dia o desejo vai ser maior que o medo." Se eu tivesse um lema de vida, seria essa frase. Eu escreveria essas palavras no teto pra dar de cara com elas  toda  manhã, ao acordar, e nunca esquecer.

O desejo é essa coisa maluca que arde  dentro da gente. A gente quer, quer, quer e quer. E houve um tempo em que eu  não sabia que não se pode viver sem desejar. Aí a minha primeira analista me enchia o saco: e o seu desejo? e o que você quer? e você ? Não sei por onde anda minha primeira analista - nem tem sentido saber -, então escrever esse post é meio que escrever pra ela e dizer: você tinha toda razão. Eu sempre soube que você tinha, mas agora sei mais. O medo é grande, mas o desejo é gigante. O desejo é maior pra tudo. 

Eu tô morrendo de medo, mas, claro, tudo bem!

quarta-feira, 12 de março de 2014

Se aqui foi fosse o Facebook, eu postaria assim:

Juliana está se sentindo como Ron Weasley usando o medalhão horcrux.





quinta-feira, 6 de março de 2014

Eu funciono em processos. Tudo pra mim é lento, devagar, no meu ritmo. Tem horas em que sinto o peso do tempo, das exigências sociais, mas na maior parte do tempo só penso: dane-se! Neste momento, tá pesando!

Tenho quase 30 anos, nenhuma casa, nenhum carro, nenhum marido,  uma bunda grande demais pras calças que as lojas vendem, ultimamente só falo da morte da minha vó.Vejam bem, tecnicamente, sou uma Zé mané, uma loser. Deve ser por isso que as pessoas sentem necessidade de me dar conselhos. E mais: as pessoas esperam que eu me odeie. Sério. Ficam confusas quando eu digo que tenho medo de dirigir mas tudo bem, ficam confusas quando eu digo é um saco comprar calça jeans mas tudo bem, ficam me achando maluca quando digo que não sei se vou ter filhos, acho que sim, acho que não, não sei. Ainda não me vieram com o papo de óvulos envelhecidos. No dia  em que vierem, contarei a história dos meus  óvulos ruins na  maior parte da minha vida fértil e do quanto sou muito mais saudável hoje em dia.Apesar de todas essas falhas gravíssimas, eu não me odeio. Nem um pouco. E por que eu haveria de me odiar? Tanta gente detestável nesse mundo, e eu ia escolher justamente a mim pra detestar?

Ironias à parte, eu ando assustada com o mundo e cansada da vida. Você só quer viver sua vidinha de lesma  em paz, mas não dá. Alguém tem sempre algo a dizer, alguém tem sempre um preconceito velado pra destilar. E o pior é que as pessoas tão sempre fazendo o seu melhor, dizendo pro nosso bem. Uma colega que venha me dizer que meu cabelo ficaria melhor alisado não quer o meu mal. Eu gosto de crer que ela só não entende que quero ter direito de escolha - um direito que a sociedade não me dá gratuitamente. Eu gosto de crer que ela não entende que não, eu não acho que meu cabelo ruim. Gosto de crer que quem acha que eu deveria me comportar como uma mocinha dos livros que a Emma Bovary leu só tá querendo ser gentil. As pessoas são gentis e acreditam  mesmo no que dizem. É isso!

É tão óbvio : eu não me odeio. Não sou maravilhosa, perfeita e multimilionária, e ainda assim me acho bem ótima.Não queria ser ninguém além de mim. Eu durmo com a luz do corredor acesa porque tenho medo do escuro. Certamente, esse é um motivo pra eu me odiar, mas, não, obrigada, eu não me odeio.

A mim mesma, eu dedico toda gentileza e  paciência de que sou capaz.



"Meu lado, meu jeito
O que eu herdei de minha gente
Eu nunca posso perder
Me larga, não enche
Me deixa viver, me deixa viver
Me deixa viver, me deixa viver..."



segunda-feira, 3 de março de 2014



Escrevi este post em janeiro no blog fechado que compartilho com meus amigos. Escrever tudo isso foi dificílimo, fui escrevendo aos poucos pra doer menos. A minha testa ardia toda vez que eu acrescentava novas linhas. Levei um tempo pra ser capaz de ler. E agora me deu vontade de postar esse texto aqui no Fina Flor. Não sei bem de onde vem essa vontade, mas vou respeitá-la, ainda que signifique quebrar a promessa (inútil)que tinha feito, pra mim mesma, de deixar o luto um pouco longe daqui.

Nesse meu outro blog, sou ainda menos preocupada com gramática e formatações. Mantive o texto com todas as imperfeições com as quais ele foi concebido. Não botem reparo, por favor!




minha vó morreu no dia em que menos esperei. todos os dias antes da morte dela foram dias em que eu tive certeza de que ela morreria. eu ia vistá-la  certa de que a encontraria morta. mas ela morreu quando eu menos esperei. morreu quando eu dei graças a deus por não ser a minha vez de visitá-la. morreu quando minha mãe foi  fazer as sobrancelhas. morreu. simples assim. minha mãe chegou no hospital e estava morta desde as 9 da manhã. às 9 da manhã, eu estava ao telefone contando pra amiga da minha vó sobre a internação. às 9 da manhã, eu tava deitada no sofá, sentindo a dor de cabeça maldita que me acompanhou durante todo o mês de setembro. às 9 da manhã minha vó estava morta e eu não sabia.

às vezes penso na morte da minha vó e imagino como ela deve ter morrido. imagino seu coração parando. imagino se sentiu dor, se percebeu que estava morrendo. acho que não. acho que ela morreu enquanto dormia. ou que seu anjo da guarda amorteceu o impacto da partida. minha vó acreditava em anjos da guarda.

***

o dia do enterro da minha vó amanheceu cheio de sol. tamiris e eu sentamos no terraço e ficamos olhando a rua, falando amenidades, como se pudéssemos parar o tempo e nos poupar de enfiar nossa vó na cova. Lembro do sol ardendo nas minhas coxas. Lembro de pentear os cabelos. Lembro de entrar no  carro. Lembro de a Tamiris ficar preocupada com vaga no estacionamento. Lembro de entrar na porta lateral do cemitério. Lembro de não conseguir cruzar o portal da capela. parei no portal e chorei tudo que não tinha chorado setembro inteiro.

***

Era setembro, começo da primavera, tinha de haver sol. Sentamos num canto à sombra. Ficamos ali falando amenidades. Silvana trouxe bolo. Jaqueline trouxe empada. Tiago ficou de pé com o seu exemplar do meu livro favorito na mão. Fabrício mal falou. Vivian chegou depois. Encostei minha cabeça no ombro da Sueli, e Paulo Victor disse que deveríamos tirar uma foto. Houve um momento em que rimos alto. Houve também um outro momento em que saí da capela e os vi sentados e tive a impressão de que eram convidados de uma festa.

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Olhei a cidade do alto. Nunca esperei que a vista dali fosse tão bonita.O céu, o relógio da catedral, os morros, tudo tão longe, nós tão no alto. O corpo dela está lá ainda agora enquanto escrevo. Toda vez que passo em frente ao cemitério penso no corpo, sei a localização exata do túmulo.

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2014 e minha vó ainda morre. Todos os dias.



domingo, 2 de março de 2014

De carnaval

E eu nem dormi na minha cama. Faz três noites que durmo em colchõezinhos emprestados. A cabeça fica macia depois de uma noite longa de sono ininterrupto. A pele e o lençol viram uma coisa só, e a gente desliza enquanto espreguiça. O corpo estala, e a gente suspira. 

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Tive um sonho vívido. Sempre sonho com meus medos. Olá, Juliana, sou aquilo que você mais teme, apareci essa noite pra te assombrar. Meu atual temor é o de sempre: não quero ser motivo da frustração e da decepção de ninguém. Encheria uma disco voador com flores só  pra não deixar ninguém triste.

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Minhas amigas,  que mal se conhecem, em dias separados, tiveram a mesma reação quando  eu disse que sim, tenho uma e outra novidades:

- Ai, meu Deus!

Elas não disseram com todas as letras, mas ambas pensaram em bebês. Ainda não parei de rir. Minhas amigas... Ai,ai...


E por falar em amigos, a amiga da minha mãe me perguntou quem é o gatinho que eu tô abraçando no facebook. Pensei logo na Emma, mas ela tava falando duma foto de feliz aniversário. É meu amigo! Amigo? Abraçando daquele jeito???!!! Vocês precisam ver a foto e o abraço. Acho que as pessoas não sabem abraçar. Abraço sem agarrar não é abraço. 

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Se eu tivesse que torcer por escola de Samba, escolheria o Salgueiro. Sei lá, simpatia, tem o vermelho, sei lá... Mas tenho boas razões pra torcer pela Mangueira. Torçam comigo,gente!

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Eu tenho a tendência a ficar com raiva das pessoas, todas as pessoas, qualquer pessoa. Fico puta com o que as pessoas fazem. Geralmente, não tão nem fazendo nada que me interesse, mas eu fico puta mesmo assim. Sou uma intrometida. Queria não ser, mas sou. Meu corpo chega  a arder porque não posso pegar as pessoas, colocá-las sentadinhas no sofá e encher seus ouvidos com sermão.

Por que não cuido só da minha vida, que  não é nenhum exemplo de vida?

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Uma vez, uma colega de trabalho que eu sempre quis que fosse minha amiga me chamou de novidadeira. Adorei a palavra, mas recusei o título. Pobre de mim que tenho uma vidinha tão morna. Aí, ela me lembrou que todas as segundas daquele mês eu tinha chegado contando do jogo que tinha visto no Maracanã, sempre com uma pessoa diferente. Mas não era nada demais ver jogo todo domingo. O Vasco tava na segundona, o ingresso tava muito barato,não tinha como não ir. Aí a colega disse: Pois é, mas ninguém que eu conheço vai, só você. Você tem senso de oportunidade!

Fiz questão de nunca esquecer o que a colega disse, faz com que eu pareça tão mais legal e interessante do que sou.

Mas,gente, é tão simples fazer o que é divertido. Ruim é fazer chatices.


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Dou a desculpa de que não houve tempo ainda ( o que  não deixa de ser verdade), mas  fato é que tô cheia de medo.

Medo. Coração disparado. Estômago apertado.

Torçam pela Mangueira e também por mim.