segunda-feira, 3 de março de 2014



Escrevi este post em janeiro no blog fechado que compartilho com meus amigos. Escrever tudo isso foi dificílimo, fui escrevendo aos poucos pra doer menos. A minha testa ardia toda vez que eu acrescentava novas linhas. Levei um tempo pra ser capaz de ler. E agora me deu vontade de postar esse texto aqui no Fina Flor. Não sei bem de onde vem essa vontade, mas vou respeitá-la, ainda que signifique quebrar a promessa (inútil)que tinha feito, pra mim mesma, de deixar o luto um pouco longe daqui.

Nesse meu outro blog, sou ainda menos preocupada com gramática e formatações. Mantive o texto com todas as imperfeições com as quais ele foi concebido. Não botem reparo, por favor!




minha vó morreu no dia em que menos esperei. todos os dias antes da morte dela foram dias em que eu tive certeza de que ela morreria. eu ia vistá-la  certa de que a encontraria morta. mas ela morreu quando eu menos esperei. morreu quando eu dei graças a deus por não ser a minha vez de visitá-la. morreu quando minha mãe foi  fazer as sobrancelhas. morreu. simples assim. minha mãe chegou no hospital e estava morta desde as 9 da manhã. às 9 da manhã, eu estava ao telefone contando pra amiga da minha vó sobre a internação. às 9 da manhã, eu tava deitada no sofá, sentindo a dor de cabeça maldita que me acompanhou durante todo o mês de setembro. às 9 da manhã minha vó estava morta e eu não sabia.

às vezes penso na morte da minha vó e imagino como ela deve ter morrido. imagino seu coração parando. imagino se sentiu dor, se percebeu que estava morrendo. acho que não. acho que ela morreu enquanto dormia. ou que seu anjo da guarda amorteceu o impacto da partida. minha vó acreditava em anjos da guarda.

***

o dia do enterro da minha vó amanheceu cheio de sol. tamiris e eu sentamos no terraço e ficamos olhando a rua, falando amenidades, como se pudéssemos parar o tempo e nos poupar de enfiar nossa vó na cova. Lembro do sol ardendo nas minhas coxas. Lembro de pentear os cabelos. Lembro de entrar no  carro. Lembro de a Tamiris ficar preocupada com vaga no estacionamento. Lembro de entrar na porta lateral do cemitério. Lembro de não conseguir cruzar o portal da capela. parei no portal e chorei tudo que não tinha chorado setembro inteiro.

***

Era setembro, começo da primavera, tinha de haver sol. Sentamos num canto à sombra. Ficamos ali falando amenidades. Silvana trouxe bolo. Jaqueline trouxe empada. Tiago ficou de pé com o seu exemplar do meu livro favorito na mão. Fabrício mal falou. Vivian chegou depois. Encostei minha cabeça no ombro da Sueli, e Paulo Victor disse que deveríamos tirar uma foto. Houve um momento em que rimos alto. Houve também um outro momento em que saí da capela e os vi sentados e tive a impressão de que eram convidados de uma festa.

***

Olhei a cidade do alto. Nunca esperei que a vista dali fosse tão bonita.O céu, o relógio da catedral, os morros, tudo tão longe, nós tão no alto. O corpo dela está lá ainda agora enquanto escrevo. Toda vez que passo em frente ao cemitério penso no corpo, sei a localização exata do túmulo.

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2014 e minha vó ainda morre. Todos os dias.



4 comentários:

Lia disse...

E isso é o mais triste da morte...
"ela ainda morre. todos os dias"

livroseoutrasfelicidades disse...

Poxa, Ju, sei o que é essa sensação de irrealidade no velório/enterro. É algo estranho. E vc ainda vai sentir bastante falta da sua avó, até um dia só restar lembranças boas e a dor ser beeeem pequenininha.

Rita disse...

Flor, eu sei dessa dor. E não sei, ao mesmo tempo. Cada um perde de um jeito, né? E é tão difícil esse negócio louquíssimo de perder pessoas. Eu só queria que você soubesse que entendo, leio, escuto e torço.

Beijinhos

Maeve disse...

:´´(