quinta-feira, 6 de março de 2014

Eu funciono em processos. Tudo pra mim é lento, devagar, no meu ritmo. Tem horas em que sinto o peso do tempo, das exigências sociais, mas na maior parte do tempo só penso: dane-se! Neste momento, tá pesando!

Tenho quase 30 anos, nenhuma casa, nenhum carro, nenhum marido,  uma bunda grande demais pras calças que as lojas vendem, ultimamente só falo da morte da minha vó.Vejam bem, tecnicamente, sou uma Zé mané, uma loser. Deve ser por isso que as pessoas sentem necessidade de me dar conselhos. E mais: as pessoas esperam que eu me odeie. Sério. Ficam confusas quando eu digo que tenho medo de dirigir mas tudo bem, ficam confusas quando eu digo é um saco comprar calça jeans mas tudo bem, ficam me achando maluca quando digo que não sei se vou ter filhos, acho que sim, acho que não, não sei. Ainda não me vieram com o papo de óvulos envelhecidos. No dia  em que vierem, contarei a história dos meus  óvulos ruins na  maior parte da minha vida fértil e do quanto sou muito mais saudável hoje em dia.Apesar de todas essas falhas gravíssimas, eu não me odeio. Nem um pouco. E por que eu haveria de me odiar? Tanta gente detestável nesse mundo, e eu ia escolher justamente a mim pra detestar?

Ironias à parte, eu ando assustada com o mundo e cansada da vida. Você só quer viver sua vidinha de lesma  em paz, mas não dá. Alguém tem sempre algo a dizer, alguém tem sempre um preconceito velado pra destilar. E o pior é que as pessoas tão sempre fazendo o seu melhor, dizendo pro nosso bem. Uma colega que venha me dizer que meu cabelo ficaria melhor alisado não quer o meu mal. Eu gosto de crer que ela só não entende que quero ter direito de escolha - um direito que a sociedade não me dá gratuitamente. Eu gosto de crer que ela não entende que não, eu não acho que meu cabelo ruim. Gosto de crer que quem acha que eu deveria me comportar como uma mocinha dos livros que a Emma Bovary leu só tá querendo ser gentil. As pessoas são gentis e acreditam  mesmo no que dizem. É isso!

É tão óbvio : eu não me odeio. Não sou maravilhosa, perfeita e multimilionária, e ainda assim me acho bem ótima.Não queria ser ninguém além de mim. Eu durmo com a luz do corredor acesa porque tenho medo do escuro. Certamente, esse é um motivo pra eu me odiar, mas, não, obrigada, eu não me odeio.

A mim mesma, eu dedico toda gentileza e  paciência de que sou capaz.



"Meu lado, meu jeito
O que eu herdei de minha gente
Eu nunca posso perder
Me larga, não enche
Me deixa viver, me deixa viver
Me deixa viver, me deixa viver..."



11 comentários:

Chico Mouse disse...

Achei de uma franqueza incrível, Ju! E não se sinta só com as neuras que os outros tentam empurrar na sua cabecinha... Vivo tentando me livrar das coisas que as outras pessoas tentam jogar em cima de mim.

(Será que a crise dos 30 anos tá chegando pra gente?? Hahaha... que merda...)

Abraço e se cuida!

Rita disse...

Vc tá mais é certa. Sua linda. Eu também não odeio você.

Beijocas

Cheshire cat disse...

Posso tatuar essa última frase aí no meu braço? Que coisa mais linda, continue sendo sim muito delicada e gentil com você mesma. Você merece! :)

Luciana Nepomuceno disse...

<3 <3 <3

vou plagiar, fique logo sabendo ;-)

Aline Gomes disse...

Toca aqui,colega o/
Estamos no mesmo capítulo do livro dos 30... Tô tentando não me estressar mais com a "boa intenção" das pessoas que acham que sabem da minha vida mais do que eu.

Fernanda disse...

Palmas lentas! Texto perfeito, Ju... às vezes me pego quaaaaase me odiando, mas aí percebo que isso geralmente acontece se começo a me comparar com as outras pessoas, ou a enumerar todas as expectativas não realizadas dos outros sobre mim. E isso é uma bosta, sabe?

Por exemplo, quando olho apenas a mim mesma, ignorando os outros, percebo que não, não me acho feia por ser gorda, nem estou querendo cortar os pulsos porque não tenho um namorado, nem coisas assim. Mas me sinto mal quando penso que OS OUTROS estão me achando gorda, ou que estão me achando uma fracassada porque estou solteira sem previsão de casamento aos 25 anos.... e por aí vai, também.

Você tem razão, Ju. Os outros que pensem o que quiserem, não vou me odiar por isso.

E quanto à boa intenção dos outros... talvez eu seja boba, mas também acredino nela. Mesmo ela sendo tão inconveniente e errada às vezes.

Bjs!

Roberta disse...

Nossa, tinha que imprimir seu post e sair distribuindo por aí.
Não adianta, temos que ser excepcionais. Não basta ser legal e fazer o que gosta, você tem que se destacar (não na sua concepção, mas na dos outros). Isso tá me cansando. Vou favoritar esse texto porque é um conselho pra mim, tenho que ler sempre pra me lembrar que a única pessoa que eu devo agradar sou eu mesma.

Katia Sandes disse...

Nossa.... Como o mundo realmente anda assim, louco, como pessoas querendo colocar suas vontades nas nossas. Sou dona dos 30, sem crise, sem marido, sem filhos e sem falta de identidade. Descubro. cada dia que sou mulher de verdade, que vivo, sinto, luto, com minha natural e inerente beleza sem photoshop onde quer que seja. Aceitando uma parte do destino, modificando algumas acoes, e acretidando no amanha tao feliz quanto hoje. encontrar pessoas sem cera como voce esta dificil. Parabens!

Milla Pupo disse...

"A mim mesma, eu dedico toda gentileza e paciência de que sou capaz."

Queria isso num quadro, coisa mais linda.

livroseoutrasfelicidades disse...

Posso copiar exatamente o comentário da Mila acima?

livroseoutrasfelicidades disse...

Posso copiar exatamente o comentário da Mila acima?