quinta-feira, 17 de abril de 2014

Escola e verrugas

Dia desses, uma antiga colega de escola me marcou numa foto da turma de 1994.  Levei um tempinho pra achar a menina de 10 anos que fui no meio de tantas carinhas. Olhei, olhei, olhei e , por fim, percebi que eu estava no canto mais nítido da foto. Meu rosto é um dos mais fáceis de ser identificado, mas eu passei por ele sem notar. Não me reconheci  na menininha séria, naquele olhar de quem não sabe muito bem como agir.
Várias pessoas lembraram de mim, alguém comentou que eu era cdf, a professora disse que eu era seriíssima. Seriíssima? Nunca ninguém usou esse adjetivo pra falar de mim; eu não consigo pensar em mim como seriíssima. Estou acostumada a ser a pessoa sorridente nas fotos. Queria poder voltar no tempo e dizer pra menininha de 94 que no futuro ela será a pessoa sorridente das fotos. No futuro, menininha, você dirá, às gargalhadas, que seu sorriso é igual ao do Mussum. No futuro, você terá fotos nada sérias no perfil do facebook!

***
Passei 8 anos na mesma escola e não tive amigos. Só no último ano fiz uma amiga. Nós fomos colegas de turma durante todo esses anos, mas mal nos falávamos. Na oitava série, ela se aproximou de mim por sugestão da vó. Eu era uma boa menina, estudiosa, quietinha, uma boa companhia aos olhos de qualquer vó. A menina não gostou muito da sugestão  a princípio; ela me achava metida. Todo mundo me achava metida. Passei parte da minha vida provocando antipatias. Uma das minhas melhores amigas me olhou feio durante uns 3 meses, até que um dia fizemos uma viagem de ônibus juntas e ela foi obrigada a sentar do meu lado. Anos depois, ela me disse que naqueles primeiros 3 meses tudo que eu fazia a irritava: minha voz, as coisas esquisitas que eu falava, o fato de os adultos me acharem ótima. 

Não lembro quando as pessoas deixaram de me achar antipática. Se é que deixaram... Deixaram?

***

Passei pelo ensino fundamental sem ser hostilizada ou humilhada. Não tinha melhores amigos, mas não me faltavam colegas pra trabalhos em grupo. Participava das atividades extracurriculares todas. Escapei das crueldades infantis.

A  primeira vez em que fui hostilizada na escola  eu já não era aluna. Foi em 2012. Cheguei em outubro numa turma de sexto ano, substituindo uma professora muito querida. Imaginei que a adaptação  seria difícil; foi mais que difícil: os alunos e a escola como um todo  eram muito complicados. Foram 2 meses terríveis até o fim do ano letivo. Houve um dia em que liguei pra Sueli, tremendo, com o coração disparado, só pra falar com alguém que gostasse de mim. 

Eu tenho no rosto e no pescoço aquelas verrugas escuras que aparecem em peles negras. Começaram a aparecer no início da juventude e vêm se multiplicando.  Me acostumei a tê- las. Não gosto nem desgosto delas. Se as pessoas acham feio, nunca me disseram nada - tem gente que nem repara. Mas adolescentes reparam, os alunos daquela turma tenebrosa repararam e passaram a me chamar, pelas costas mas de um modo que eu ouvisse, de galinha pintadinha. Num outro contexto, eu acharia muita graça do apelido, mas naquela escola, com aquelas crianças, senti o desamparo que só quem foi uma menina deslocada sabe como é.

Saí da escola tenebrosa, passei por outros lugares, estou de volta ao sexto ano. As pessoas do sexto ano são muito interessadas em tudo que diz respeito aos professores. Eles querem saber da sua casa, da sua vida, de por que você não tem marido e filhos, acham que você devia namorar o professor tal, mexem no teu cabelo, perguntam o que são essas coisinhas pretas no teu rosto. Dia desses, uma menina parou na minha frente e perguntou se as bolinhas no meu  rosto doem. Eu suspirei toda defensiva e comecei a dizer que não, não doem, mas vou tirá-las em breve, têm um nome que não lembro... A menina colocou um dedo sobre uma das verrugas mais salientes e disse:

" Ah, tia, não tira tudo, não! Deixa algumas. Elas são tão bonitinhas, parecem sardas. Você fica bonita com esse monte de pintinha!"

Quase contei pra ela que costumo pensar em mim como um brigadeiro - cheio de granulado.


( as verruguinhas não costumam aparecer em fotos; é preciso tirar foto bem de perto.)



2 comentários:

Tati disse...

Muito bonito Ju! Fiquei com raiva daqueles primeiros meninos que te trataram tão mal, adolescente é tão cruel nessa idade, que não estranho muitos professores que conheço com medo de turmas de 5 e 6 séries. Até terapeuta tem dificuldade em atender pré adolescente, acredita?
Ainda bem que essa menina dessa outra turma me fez terminar o post com um sorriso.
E sim, você é um brigadeiro, cheio de granulado <3
Beijo e bom feriado!

Maeve disse...

Nossa! Eu não repararia nunca se nAo fosse a foto.

Ô Ju, vc escreve tão bem <3