domingo, 20 de abril de 2014

Essa noite tive um daqueles  meus sonhos apavorantes. A senhora estava no sonho, como tantas vezes esteve ao longo dessa minha extensa carreira de pesadelos, mas dessa vez, pela primeira vez, não estava no lado de cá. Não sonhei com a sua morte; não preciso mais sonhar com o que já aconteceu. Sonhei com a sua presença fantasmagórica. Sonhei com a sua ausência. Acordei com sua ausência. Minha mãe me mandou abrir os olhos e respirar, e fiquei em dúvida se estava acordada ou dormindo. 

Desde aquele dia em setembro, não sei dizer se estou vivendo uma vida normal ou se nunca acordei de um  dos meus pesadelos enormes. Esses dias, esses meses são tudo, menos a minha vida, a vida que eu tinha antes da sua morte. 

Eu digo morte e preciso ficar repetindo pra ver se a palavra ganha algum sentido. Eu digo morte e estou dizendo nada. Eu digo morte, mas o que estou dizendo mesmo é que a senhora não está. Um dia, de repente, tudo que lhe diz respeito foi interrompido, sua ações estão todas no passado agora. Seu lugar ficou vazio.  Eu digo morte, mas devia dizer vazio.


Vazio. Vazio. Vazio. Vazio.

Vazio.


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