segunda-feira, 7 de abril de 2014

O pai da minha mais antiga amiga morreu na noite de domingo. Ainda não consegui registrar que  aquele homem imponente e espirituoso está morto. Parece que estou falando de uma outra pessoa. Ainda estou parada no tempo, bem naquele dia em que minha amiga me disse que o pai dela não andava bem. Ainda me ouço engrossando o coro dos otimistas, dizendo que aquilo era só uma pedra na vesícula, ele opera e fica tudo certo. Eu disse isso há um mês e meio. Estávamos comendo um bolinho de bacalhau superestimado e não sabíamos que naquele  mesmo momento o pai da minha estava dando entrada no hospital.

O pai da minha mais antiga amiga morreu, e eu não pude  ir ao enterro. Tinha o trabalho, não dava mesmo pra faltar. Liguei pra minha mãe às seis da manhã e perguntei se ela podia ir no cemitério. Minha mãe saiu do trabalho, esperou um ônibus que nunca chega, atravessou a cidade, levou a sua presença - e um pouco da minha. Pra mim, não tem telefonema ou mensagem no Facebook que substitua  aquele instante em que você reconhece um rosto amigo chegando na capela durante um velório. 

No enterro da minha vó, minha amiga trouxe uma empada, que minha prima e eu dividimos animadas.Empada é uma comida mais feliz. Amo empada! As pessoas deviam mesmo levar comida pros velórios. A gente esquece que tem fome, e só se dá conta que devoraria um leão quando alguém aparece com uma comidinha.  Minha amiga, assim como minha mãe, atendeu um pedido meu. O cemitério de Nova Iguaçu fica num morro, pra chegar até o túmulo da minha vó é preciso encarar uma subida significativa. Minha mãe tem dificuldade pra andar, um morro daqueles é o equivalente  a uma prova de thriatlon. Em outra situação, eu teria ficado perto dela e ajudado na subida. Naquela circunstância, porém, não me sobrava energia pra mais nada a não ser chorar, então pedi pra minha amiga mais antiga pra que fosse lá pra perto da minha mãe - e ela foi.

No final das contas, o que importa mesmo é ter quem vá no seu lugar quando você não pode ir.


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