sexta-feira, 16 de maio de 2014

O lençol


Eu tava lendo um site sobre transtornos de ansiedade - um site bem legal, aliás. Daí que o texto dizia que as pessoas com transtornos de ansiedade costumam ser assustadiças. Dei uma gargalhada alta. Como é que nunca me toquei disso. Eu sou uma pessoa assustadiça.

Acontece que dormi na minha casa nova, a casa do Rio, como costumo dizer. Essa casa tem um telefone fixo cujo número nem eu sei, logo não espero que o telefone toque, mas hoje ele tocou. Tocou alto e insistente e me acordou. Arregalei os olhos de susto, o coração disparado. Eu me assusto com telefones fixos, com o meu celular tocando no bolso, com os gatos andando no quintal, com alguém falando mais alto perto de mim. Vivo dando saltinhos e gritinhos, como uma mocinha de filme de terror. 

Há várias historinhas sobre como quase morri de susto, mas uma é clássica. Eu devia ter uns seis ou sete anos. Toda manhã, antes de sair pro trabalho, minha mãe vinha ajeitar minhas cobertas-também  sou conhecida por ser uma bagunçadora de camas. Pois bem, numa manhã dessas da minha infância, minha mãe pegou o lençol branco, ergueu no ar pra me cobrir, no exato momento em que eu abri os olhos. Em vez de ver minha mãe e um lençol, vi um fantasma - aqueles que são um lençol branco com dois buracos no lugar dos olhos. Gritei tanto, mas tanto que quase matei minha mãe de susto. Chorei de pavor quase a manhã toda. Nunca mais minha mãe botou lençol branco na minha cama.


quarta-feira, 14 de maio de 2014

Hoje a ansiedade me venceu. Deitei na cama, fechei os olhos e precisei dos exercícios de respiração da terapia. Fazia anos que não precisava deles. Hoje não deu.

Não sei como vocês tão aguentando esse mundo. Vocês também tão apavorados? Todo dia uma dureza. Não sei se vocês, mas eu vivo com medo: da morte, da polícia, dos assaltos, dos linchamentos físicos e morais, dos discursos de ódio, do racismo, da homofobia, da injustiça, da intolerância, da ignorância, dos mecanismos que perpetuam tudo isso. Faço um esforço pra não ser derrotista, conformista. Me recuso a dizer que o mundo é mesmo assim e não tem jeito. Mas tem dias como os de hoje em que você queria muito estar em outro tempo, em um outro lugar, porque o presente pesa e cansa. 

Hoje tô com raiva do mundo. Tô com raiva de quem acha que grevista é vagabundo, que professor tem que trabalhar por amor, que o ensino da escola pública é ruim porque os alunos não querem nada e os professores não se esforçam, que não tem nada demais motorista de ônibus cumprir dupla função, que ser chamado de macaco não é ofensa, que tirar foto com banana acaba com racismo, que a sexualidade alheia deve ser rotulada e condenada, que meninas de 12 anos provocam homens adultos, que não estranham que os pretos são a maioria nas cadeias, que reproduz sem tirar nem por o que a tevê diz, que não fica indignado. 

Hoje, no meio do dia Tiago me  mandou procurar a tradução da música Si, da cantora francesa Ziz. Tive uma crise de choro ao ler, porque, né, é isso, tudo isso:



Se eu fosse amiga do bom Deus
Se eu conhecesse as oraçõesSe eu tivesse sangue azulO dom de apagar e refazer tudoSe eu fosse rainha ou feiticeiraPrincesa, fada, grande capitãDe um nobre regimentoSe eu eu tivesse o passo de um gigante
Eu colocaria o céu na misériaTodas as lágrimas no rioE floriria areiasSobre onde a esperança voariaEu semearia utopiasCurvar-se seria proibidoNão desviaríamos mais os olhares
Se eu tivesse milhares e centenasO talento, a força ou os encantosMestres, poderososSe eu tivesse as chaves de suas almasSe eu soubesse pegar em armasAo fogo de um exército de titãsEu acenderia chamasNos sonhos apagados das criançasEu poria cores nas doresEu inventaria o édenSem contar com a sorteSem contar com as estrelas, com menos do que nada
Mas não tenho mais que um coração em traposE duas mãos esticadas feito galhosUma voz que o vento afasta pela manhãMas se nossas mãos nuas se parecemNossos milhões de corações juntosSe nossas vozes se unissemQuais invernos a elas resistiriam?
Um mundo forte, uma terra alma-gêmeaNós construiremos sobre as cinzasPouco a pouco, migalha a migalhaGota a gota e coração a coração
Pouco a pouco, migalha a migalhaGota a gota e coração a coração

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Respeitável público

 
" Não sei se é um truque banal
Se um invisível cordão
Sustenta a vida real"




Se você mora ou  vem ao Rio de Janeiro, me faça um favor: vá ao teatro ver a montagem de O Grande Circo Místico.  Coisa mais linda, de verdade, sério mesmo!

domingo, 11 de maio de 2014

Adoro isso de mudar de ideia, de não ter certeza, de sentir o coração disparar enquanto conta pra amiga a ideiazinha maluca que você teve.

***
Agora eu tenho uma cama de gente grande.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Pipa avoada

Quem são essas pessoas que AMAM planejar viagem? Onde vivem? Que genes especiais têm? E principalmente: por que não estão aqui sentadas do meu lado, lendo trezentos blogs, falando com a amiga no Skype enquanto convertem moedas?

Não nasci pra planejar viagem. Nasci pra entrar no avião e ir. Só ir.

E minha companheira de viagem é igualzinha a mim. Estamos levemente apavoradas.


domingo, 4 de maio de 2014

Sobre casas e hematomas

Peguei a bicicleta pra dar uma volta. Não cheguei nem ao fim da rua. Vívian me viu passando e veio esfregar a ingratidão na minha cara: você não me liga, você não me ama. E claro: e aí, já tá lá? Lá é a outra casa. E eu respondo o que venho dizendo pra todo mundo que pergunta: não, mas já comprei a cama, tô indo, é estranho, tô maluca!

Todo mundo diz que é mesmo assim. Tiago já tinha dito muito tempo atrás , quando foi a vez dele, que era assim: esquisito, complicado. Eu achei que era o ascendente canceriano de Tiago falando; estava eu errada, Tiago sempre é mais esperto que eu.

***

Sentei pra arrumar a estante do meu quarto. Tirei os livros todos, espalhei no tapete, fui abrindo um a um. Reli umas 10 páginas do livro que mais reli aos 17 anos, Olho de Gato, da Margaret Atwood. Eu costumava  desejar ser uma personagem da Margaret, queria sentir na vida aquela urgência e identificação  que os livros provocavam. Olho de Gato é sobre uma mulher madura, artista famosa, avó. O que eu sabia (e sei) sobre ser qualquer uma dessas coisas? Mas eu sentava por horas com o livro na mão e  entendia Elaine; minha respiração    ficava pesada e acelerada de empatia por ela. 

Se eu fosse uma personagem da Margaret, seria a mulher de 29 anos, 10 meses e 21 dias que não dá  conta de crescer de uma vez e então vai crescendo aos poucos. Muito lentamente.

***
Vívian virou a perna e me mostrou um hematoma gigante. Ela pratica uma luta cujo nome não me arrisco a escrever e levou um monte de chutes num só ponto da coxa. O hematoma é bizarro, dei um gritinho quando vi. Daí ela me contou toda a história da luta, da mudança de faixa, de um cara que todo mundo acha babaca.
- Como isso vai sumir? - perguntei aterrorizada.
- Tô colocando arnica! Mas o pior você não sabe: minha mãe falou um monte e  disse que eu devia tomar mais cuidado, que NÃO SOU mais uma GAROTINHA Se eu quebrar alguma coisa, não volta mais pro  lugar. 

Vívian é seis meses mais velha que eu. Devo dar início à crise dos 30?