quarta-feira, 14 de maio de 2014

Hoje a ansiedade me venceu. Deitei na cama, fechei os olhos e precisei dos exercícios de respiração da terapia. Fazia anos que não precisava deles. Hoje não deu.

Não sei como vocês tão aguentando esse mundo. Vocês também tão apavorados? Todo dia uma dureza. Não sei se vocês, mas eu vivo com medo: da morte, da polícia, dos assaltos, dos linchamentos físicos e morais, dos discursos de ódio, do racismo, da homofobia, da injustiça, da intolerância, da ignorância, dos mecanismos que perpetuam tudo isso. Faço um esforço pra não ser derrotista, conformista. Me recuso a dizer que o mundo é mesmo assim e não tem jeito. Mas tem dias como os de hoje em que você queria muito estar em outro tempo, em um outro lugar, porque o presente pesa e cansa. 

Hoje tô com raiva do mundo. Tô com raiva de quem acha que grevista é vagabundo, que professor tem que trabalhar por amor, que o ensino da escola pública é ruim porque os alunos não querem nada e os professores não se esforçam, que não tem nada demais motorista de ônibus cumprir dupla função, que ser chamado de macaco não é ofensa, que tirar foto com banana acaba com racismo, que a sexualidade alheia deve ser rotulada e condenada, que meninas de 12 anos provocam homens adultos, que não estranham que os pretos são a maioria nas cadeias, que reproduz sem tirar nem por o que a tevê diz, que não fica indignado. 

Hoje, no meio do dia Tiago me  mandou procurar a tradução da música Si, da cantora francesa Ziz. Tive uma crise de choro ao ler, porque, né, é isso, tudo isso:



Se eu fosse amiga do bom Deus
Se eu conhecesse as oraçõesSe eu tivesse sangue azulO dom de apagar e refazer tudoSe eu fosse rainha ou feiticeiraPrincesa, fada, grande capitãDe um nobre regimentoSe eu eu tivesse o passo de um gigante
Eu colocaria o céu na misériaTodas as lágrimas no rioE floriria areiasSobre onde a esperança voariaEu semearia utopiasCurvar-se seria proibidoNão desviaríamos mais os olhares
Se eu tivesse milhares e centenasO talento, a força ou os encantosMestres, poderososSe eu tivesse as chaves de suas almasSe eu soubesse pegar em armasAo fogo de um exército de titãsEu acenderia chamasNos sonhos apagados das criançasEu poria cores nas doresEu inventaria o édenSem contar com a sorteSem contar com as estrelas, com menos do que nada
Mas não tenho mais que um coração em traposE duas mãos esticadas feito galhosUma voz que o vento afasta pela manhãMas se nossas mãos nuas se parecemNossos milhões de corações juntosSe nossas vozes se unissemQuais invernos a elas resistiriam?
Um mundo forte, uma terra alma-gêmeaNós construiremos sobre as cinzasPouco a pouco, migalha a migalhaGota a gota e coração a coração
Pouco a pouco, migalha a migalhaGota a gota e coração a coração

6 comentários:

Miriam disse...

Me sinto como você.

Cheshire cat disse...

Sinta-se abraçada, Ju, tá foda mesmo.

Juju M. disse...

Ju, resumiu tudo. A gente devia voltar porque não deu muito certo.

Anália disse...

Acho que tá todo mundo assim...

Maeve disse...

...

Tati disse...

Também ando assim. A vontade é de fugir mesmo...