terça-feira, 22 de julho de 2014

Eu devia ter uns 16 anos. Estava indo pela primeira vez, sozinha, pra um encontro religioso. Tava cheia de expectativas boas, toda animada, certa de que ia conhecer um monte de gente, de que ia fazer amigos pra vida toda. Na rodoviária, esperando o ônibus, esbarrei num menino que também ia pro encontro. Puxei papo, toda simpática, falei que ia ser tudo lindo e maravilhoso, e o menino, com uma arrogância bem adolescente, me chamou de tonta e disse que o pessoal do lugar pra onde a gente ia era conhecido por não dar confiança pra gente nova. O menino foi um balde de água fria, e eu fiquei putíssima. Passei um sermão nele. Não tenho ideia do que falei, mas sei que falei um monte. Eu era uma menina boa em sermões. 

Não lembro bem do que aconteceu depois dessa conversa afável e salutar na rodoviária, mas a sementinha da insegurança se instalou, claro, no meu coração juvenil.  E pior: o menino tinha uma certa dose de razão. Meus dois primeiros dias  no evento foram um inferno. Ninguém falava comigo. Todo mundo se conhecia dos anos anteriores, os grupos tavam formados; poucas vezes me senti tão deslocada na vida. Vi o menino várias vezes ao longo desses dois dias, mas ele fazia questão de me ignorar. Houve uma vez apenas em que ele chegou perto de mim, só pra dizer: eu não tinha razão? Olha, que raiva daquele menino. Eu devia ter cortado pescoço dele ali mesmo, mas  meu espírito cristão conteve meus instintos assassinos.

Os dois primeiros dias foram mesmo terríveis. Eu senti frio, eu me senti sozinha, eu quis voltar pra casa. Aí no terceiro dia, conheci uma menina legal, a Fernanda. Ela era mais velha que eu, tava na faculdade, fazia serviço social, se bem me lembro.  Conheci também a Kelly, a Laura - conheci outras pessoas cujos nomes não lembro mais. No último dia, já não queria ir embora. No último dia, na última atividade do evento, todo mundo se abraçando, todo mundo se despedindo, o menino veio falar comigo. Eu já não tava com ódio dele, então falei com ele também. A gente se abraçou, e ele me disse , no meio do abraço, que eu era uma pessoa muito especial e que eu tinha razão no que tinha dito.

Eu tinha razão,viu ,gente! Só não tenho a menor ideia do que eu disse pra ele na rodoviária.

Nem  lembro o nome do menino. A gente nunca mais se viu. Também nunca mais soube da Fernanda. Acho que nem sei mais que caras eles tinham. Sei lá por que me lembrei dessa história hoje. 

Só sei que é bom ter razão.

hihihi

3 comentários:

Tati disse...

Sim, ter razão é muito bom!
Hoje vim me atualizar no seu blog, desculpa a enxurrada de comentários :P
beijos!

livroseoutrasfelicidades disse...

Por que eu tenho a sensação de que já li esta história? Você já tinha publicado antes, Ju?

Inaie disse...

Pelo jeito vcs dois tinham razão.

Que existam mais Fernandas no mundo!!