quarta-feira, 16 de julho de 2014

Sexto

Só quem trabalha em escola sabe  o mundo de significados por trás do sintagma "sexto ano". Talvez quem tem filhos de 11, 12 anos possa ter uma vaga ideia do que significa estar numa turma de sexto ano. Não tem aquela criança de 11,12 anos que você conhece? Então, agora imagina mais 30 dessas num mesmo espaço durante 4 horas por dia. Pois é, amiguinhos! Quer apavorar um professor do segundo segmento do ensino fundamental? Chegue pertinho dele, assim, quando estiver distraído, cantarolando, e diga "sexto ano". Acredite! Ele vai gritar: nãoooooooooo! Igualzinho a um personagem de filme de terror. Hihihi.

Ano passado, quando cheguei na escola em que trabalho, fui agraciada com 3 turmas de sexto ano. Três! Sentei na frente da minha nova chefe e ela foi logo dizendo: ó, você vai pegar 3 sextos anos, seus horários são esses, são as três piores turmas da escola... A partir daí não ouvi mais nada do que ela disse; só pensei nas rotas alternativas pra montanhas. O sexto ano sempre, sempre, sempre sobra pros recém-chegados.  É a prova de fogo! Seis meses se passaram, e eu sobrevivi, de alguma forma, até o fim do ano. As turmas eram de querer arrancar todos os cabelos da cabeça com pinça, mas eu já tinha enfrentado coisas piores. Porque, apesar de toda encheção de saco, de toda  necessidade de mostrar quem manda, de todo  tia -meu- lápis-sumiu,  existe uma ternurinha, uma fofurice, uma ingenuidade que você não encontra em nenhum outro lugar da escola.

Dia desses, um menino veio até a minha mesa só pra me contar que tinham assaltado a padaria perto da casa dele. Nossa! Sério?Achei que  fosse me contar de tiros, reféns, sangue, essas coisas. Nada! Ele tava chocado mesmo era com o fato de que os ladrões tinham levado todo o estoque de sorvete. Agora onde a gente vai comprar sorvete, professora? E os colegas que ouviram a conversa também se demostraram preocupados e passaram a trocar informações sobre pontos de venda de sorvete alternativos. Prioridades, né, gente?  Houve também o dia em que senti um enjoozinho no meio da aula. Eu sou dada a enjoos, meu estômago é chato, mas os alunos não sabem disso, então, saí da sala rapidinho pra lavar o rosto e todo um boato sobre um futuro filho meu se formou. Quando voltei, uns 3 minutos depois, meu filho já tinha nome e sobrenome - havia até uma disputa sobre quem seriam os padrinhos da criança. Hoje, por exemplo, uma menina chegou por trás e passou a mão no meu cabelo. Tomei um susto. Calma, tia! Eu só queria mexer no seu cabelo. Faz tempo que eu queria. Parece miojo! E ficou apertando as mechas do meu cabelo, enquanto eu corrigia o dever dela. 

Aliás, essas pessoas do sexto ano gostam de dar abraços, não reclamam (muito) se você aperta as bochechas delas. Só odeiam ser chamadas de criancinhas;  implicante como sou, faço ainda melhor: chamo de criancinhas bonitinhas do meu coração. Em resposta, dizem que vão me chamar de professora Jujuba. É só brincadeira, claro, porque eu sou old school, e pessoas do sexto ano só me chamam de professora. Não tem essa de Juliana, Juliana. Só abro concessão pro tia.  Tenho colegas que preferem morrer a ser chamados de tia e tio; eu não me importo. A irritação aparece quando falam tia, tia, tia, tia, todos juntos feitos grilos. Um de cada vez que meus ouvidos não são biônicos-  e eles riem dessa piada péssima. O sexto ano ri de qualquer coisa, se interessa por qualquer história que você conta. E lembram do nome da sua gata, do nome do seu afilhadinho, perguntam por que você tá usando um brinco só. Ih, perdi o outro, nem vi.

No final do ano  passado, a diretora me disse que, ao me conhecer, não levou fé de que eu sobreviveria às tais turmas terríveis. Ninguém nunca leva fé em mim, tô acostumada.Os sextos anos tenebrosos agora são sétimos anos cheios de adolescentes que riem feito bobos se você falar "linguiça".Pois é!Respirem fundo comigo, amiguinhos! Minha chefe depois chegou à conclusão de que tenho o perfil pra trabalhar com o sexto ano. Eu neguei, claro! Não trairei minha classe. Nenhum professor gosta do sexto ano, ora! Mas não dá pra explicar o quanto é divertido você chegar no corredor e ouvir o barulho de correria e cadeiras. A Juliana tá vindo! A Juliana tá vindo! Daí você para no meio do caminho, espera uns segundos pra criar um clima e uma cena - a expectativa é a alma do negócio-   e entra naquela sala de aula imprevisível.

3 comentários:

Anália disse...

OI, Ju!
Que delícia ver uma professora que gosta tanto de dar aula! Fiquei super emocionada, além do quê, meu filho tá em no 6o ano! É fogo mesmo, mas é lindo! Bjs,
Anália

Cheshire cat disse...

Eu larguei essa vida de colégio por desilusão e falta de jeito com os maiores, mas o sexto ano sempre morou no meu <3

Tati disse...

Sexto ano foi o pior ano quando eu estava na escola. Não consigo sequer imaginar o que seja dar aula para esses adolescentes, mas admiro muito você passar por isso e ainda escrever um lindo texto!
beijo