domingo, 14 de setembro de 2014

Contei que não moro mais sozinha? Pois é, agora - tem mais de mês já -, divido a casa com dois outros seres vivos, duas amigas: uma é a pessoa, a outro é uma gata. A amiga pessoa é a antiga dona  da casa, que pretendia passar muito tempo morando longe, mas voltou logo. A amiga gata é a Emma, que tinha passado uns tempos aqui, mas agora veio de vez. A chegada desses dois seres vivos mexeu um bocado com os meus nervos e minhas crenças. Porque sempre acreditei que sou a pessoa difícil de qualquer relação e convivência; porque sou mimada e bagunceira; porque não importa o quão crescida eu seja, tenho sempre a certeza de que vai-dar-merda. E eu não quero que dê merda justamente com a pessoa com que mais falei ao telefone nos últimos anos, sabe. Tô nem aí se der merda com gente de quem não gosto, mas com gente de quem eu gosto quero que fique tudo sempre certo, arrumadinho, cheirando a amor e risadas. Bem, até agora vai tudo bem. É melhor ter companhia que viver sozinha, sabe. 

Esses meses em que estive sozinha nessa casa me dei conta de que não sou boa com solidão. Antes, eu imaginava que meu calcanhar de aquiles seria a desorganização e a cabeça avoada. Quer dizer, a minha (enorme) capacidade de não lembrar de nada e a falta ( enorme) de ordem me deixaram meio enlouquecida, mesmo. Tive de sentar e traçar um esquema pra limpeza da casa, pra lavagem da roupa - coisas com as quais nunca precisei lidar de modo, digamos, mais efetivo. Morar a vida inteira com uma vó que só me mimava não me ensinou a coisa mais importante sobre trabalho doméstico: hábito. Claro que sei cozinhar minimamente, lavar o banheiro minimamente, prender o botão que caiu da camisa minimamente, mas me falta aquele toque de capricho que só a a repetição nos ensina. Essa casa nunca teve cara de casa limpinha e cheirosa durante o período que foi só minha. Agora que minha amiga pessoa está aqui, o banheiro tem até um troço grudado no vaso pra desinfetar e dar cheirinho. Uma evolução.

Mas o que mais pesou nesse período foi  mesmo o estar sozinha. Eu já antevia que seria difícil passar tanto tempo só, mas não imaginei que seria  tão ruim. Bem, ruiiiiim não é, nem terrível, nem insuportável. Tem um lado meio maravilhoso, aquele em que você chega do trabalho e há tanto silêncio disponível que só lhe resta deitar no chão da sala e ficar imóvel por toda uma eternidade. Você não precisa lidar com as demandas, com as carências, com as cobranças das relações familiares. Você tá sempre nesse quarto! Você não conversa com a gente! Vem pra cá ver a novela. Aliás, nada melhor prum relacionamento familiar do que morar em outra casa. Todo mundo me dizia isso - e eu acreditava-,mas  agora tenho conhecimento de causa. Nossa, melhor conhecimento de causa! É muito bom ser a visita que tem a chave da casa. Nossa! Nossa! Nossa! Ah, mas tem o lado não maravilhoso: a melancolia. Eu sou uma melancólica, sempre soube disso. Uma melancólica extrovertida e agitada, mas melancólica. Na maior parte do tempo, esse aspecto da minha personalidade aparece na preferência por músicas e livros triiiistes, numa atitude meio contemplativa. Ser melancólica não é ruim, pelo contrário. Eu gosto de me sentir suave e macia, de ter territórios inacessíveis, de ser um pouco triste. Só que existem fases em que perco a medida da tristeza, e é preciso um esforço pra não me agarrar a ela, um esforço pra não me perder da rotina, da praticidade da vida.  A solidão potencializa meu lado melancólico. Eu andava mais ensimesmada e reservada do que o costume. 

Antes de minha amiga pessoa voltar, eu fiquei meio paranoica. Tive medo de que a convivência detonasse a nossa amizade. Porque uma coisa é ser amigo, outra coisa é dividir uma casa. Um amigo meu brincou dizendo que eu ia viver como num casamento, mas, ó, eu acho que não tem nada a ver com casamento, não. Quer dizer, eu nunca fui casada, então não sei como é, mas faço uma ideia. Dividir a casa tem sido mais como ter um gato:  você adora conviver, tem que manter um certo nível de ordem e de higiene, nunca está sozinho, mas tem espaço e passa bastante tempo cuidando da sua vida. Gato exige pouquíssimo de você. Dividir a casa com a minha amiga tem sido assim: fácil como ter um gato.  

E por falar em gato, eu ia falar da Emma, da vinda dela ( aleluia! finalmente!) pra cá, do meu estresse com essa fase de adaptação, mas o post já está enorme. Só pra vocês terem uma ideia, tive uma crise de choro ontem, achando que ela tinha sumido pra sempre, que eu não devia ter tirado a bichinha da casa dela, que pessoa horrível eu sou, cadê minha gata, meu deus? Um estresse. Mas estamos todos bem, ela tá ali dormindo na estante, e eu preciso cuidar da vida.

Update: ao reler esse post, fiquei com a impressão de que  pode soar meio estranha a comparação entre dividir a casa e ter um  gato. Eu amo gatos, tenho uma gata e essa comparação é a única imagem que me ocorre. Se alguém achar que realmente soa estranho, peço que pense no melhor sentido possível pro que eu disse. =)


4 comentários:

Nina disse...

Saí de casa muito cedo. Voltei. E, quando saí de novo, foi casada.
É sim uma convivência difícil, mas antes disso eu vivia com meus amigos - o que era espetacular, era como se eu tivesse escolhido a minha família, entende?
Também não é fácil criar novos hábitos e ter responsabilidade consigo mesma.
Enfim, que a convivência acabe servindo de lição, que saia daí grandes ensinamentos.
O mais difícil da vida e, de certa maneira, lidar com o próximo, não é mesmo?
Abraços.

Aline Souza disse...

Essa coisa de morar sozinha (sem um familiar que acaba sendo o maior responsável pela casa) é algo bem interessante e enriquecedor né? Já dividi casa com amigos. Como todo outro tipo de relação, tem momentos de desafio, mas no geral, acho que o saldo foi bem positivo, afinal, todo mundo continua meu amigo e um ainda virou meu marido rsrsrs

Daniela disse...

eu gostei tanto desse post!

Aline disse...

Morei sozinha um ano e meio e, como você disse, havia as delícias e a parte infernal. Também sou muito melancólica e meu bairro não favorecia pq eu via pouquíssimas pessoas na rua. Ficava paranóica, com medo de assalto e td mais. Me senti descrita ali na parte em que você fala da família e suas dependências. A relação com a minha mãe melhorou muito depois que sai da casa dela.

Adoro seus textos!

Beijo!