sábado, 29 de novembro de 2014

Aconteceu no final da aula. Todos saindo, aquela balbúrdia de adolescente que acaba de se ver livre das aulas. Com os do sexto ano, sou mais chata. Se fazem muito barulho, mando esperar e vão saindo de um em um. Mas sétimo ano, gente, sétimo ano é o reduto dessa força incontrolável da natureza conhecida como pessoas de 13 anos. Não tente domar, conter, acalmar uma turma de sétimo ano. Não vai adiantar. Eu, com meu perfil de escandalosa e chiliquenta, descobri a duras penas que a gente só conquista o silêncio chegando com um conto incrível do Moacyr Scliar ou contando um detalhezinho inocente do seu fim de semana. Só assim.

Pois bem, estavam todos saindo, e eu na minha mesa, ajeitando minhas tralhas. Eu tenho muitas tralhas: caderno, livro, caneta pilot, microfone, pasta, outra pasta, mochila, garrafinha de água. Distraída com minhas tralhas, não percebi a aproximação da B., aquela menina de quase 1,80m. Só me dei conta de que algo estava acontecendo quando senti o ar me faltar.

- Ai, meu deus! Mas o que é isso?

B. tinha passado os braços em volta da minha cintura e estava me apertando - apertando muito e desajeitadamente.

- Olha, J! Olha, L.! - ela gritou pras amigas, exibindo o seu gesto, e eu sendo amassada feito uma boneca de pano gigante.As meninas olharam sorrindo.

- Mas o que é isso? Uma aposta pra ver quem vai matar a professora sufocada? - eu perguntei com o meu tom de deboche que eles sempre apreciam.

- Não. É que eu te amo, professora! 

E esmagou minha bochecha com um beijo barulhento.

Ser a adulta em posição de autoridade e ouvir um " te amo " de uma  adolescente equivale a encontrar cinco mil reais no bolso da calça na hora de lavar. Acho que tenho estoque de amor até o final do ano.



segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Ué, já não era dezembro?

Chegou a época do ano em que fico maluca. Eu não deveria estar porque as coisas estão bem encaminhadas: lancei as notas, entreguei testes, combinei festinhas de despedidas. Mas se não respiro fundo tem sempre uma lágrima querendo escapulir. Hoje foi no final da aula do sétimo ano. Não aguento vê-los crescidos e lindos, não aguento saber que não serão meus ano que vem. Nessa turma, tenho duas xarás. Ambas boas alunas, inteligentes e interessadas. Uma delas está naquela categoria de aluno que você gostaria que te adorasse mas não te adora. Minha xará não me dá a menor confiança, mas eu me iludo. Atribuo a indiferença à timidez dela. Passei todo 2014 querendo que essa mocinha gostasse de mim, mas não rolou. Sou um fracasso.




Novembro: o mês com 365 dias.


O que dizer de um dia que termina com você matando sem querer uma barata com o pé descalço?

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Eu acho que amizade é um evento. É uma coisa como a chuva.  A gente até sabe como a chuva acontece, sabe que tem algo a ver com pressão, ar, vento, ciclo, mas chuva é mesmo encantamento, aquele monte de água caindo do céu, enchendo tudo, molhando e deixando cheiro na terra e no asfalto. Não é sempre que paro pra prestar atenção na chuva, mas  quando paro, fico meio confusa pensando: meu deus, tá caindo água do céu! Não é incrível que caia água do céu? Eu acho incrível.

Amizade é feito chuva.  Tem algo a ver com o lugar onde você mora, quanto dinheiro você tem, que livros você lê, quem é a sua família. Tem a ver com o ano em que você nasceu. Tem a ver com condições favoráveis e ciclos. Mas se a  gente para pra pensar nada disso faz sentido. É coisa mais maluca você viver toda uma vida longe de alguém e , de repente ( não tão de repente como um passo de mágica, é um de repente mais processual), uma vida se encaixa em outra vida e uma pessoa passa ser como uma casa.

Amigo é uma casa. A gente deita no ombro na alegria e na tristeza. A gente se esconde entre os braços quando tudo pesa. A gente dança em torno do amigo pra celebrar. Amigo é pra onde a gente volta.

Eu não me canso de me deslumbrar com a amizade. É um afeto que não arde, não dói. Amizade é uma coisa macia. Amizade é o colchão da cama da gente.


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

The Beatles Book Tag




Blog da Tati: Little doll house
Blog da Aline: No país das entrelinhas


1. Twist and Shout – um livro que sempre te deixa feliz.
2. All my loving - um livro com uma história romântica
3. Across the universe – um livro transcendente
4. Help! – um livro onde o protagonista sofra/coma o pão que o diabo amassou.
5. Beatles For Sale – um best seller favorito
6. Penny Lane - um livro que te lembre o lugar onde você nasceu
7. In my life – biografia ou memória favorita
8. Strawberry Fields Forever - um livro que te fez crescer de alguma forma
9. Revolver – livro policial favorito
10. Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band – livro fantástico favorito
11. Magical Mistery Tour – um livro que contenha um universo mágico, fantasioso, surreal.
12. White Album – um calhamaço (só porque o álbum é duplo, rs)
13. The long and winding road – um livro triste
14. Revolution – um livro com personagem questionado


Sobre Filho eterno e Precisamos falar sobre Kevin:
Filhos eternos  e Eu não precisava falar



Amy cantando lindamente All my loving:


domingo, 9 de novembro de 2014

Eu tava tão chateada e cansada que a possibilidade de ficar sozinha pareceu mais cansativa que o dia. Então, peguei o metrô lotado no sentido contrário, enfrentei o trânsito, só pra não ficar sozinha. Fui recompensada com pizza, costelinha de porco, discussões sobre enfeites de festa e compreensão. É incrível como a distância facilita a vida. A saudade faz com que sua comida favorita apareça quentinha no seu prato.

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Sempre achei que soubesse tudo de solidão porque sempre fui meio sozinha. Filha única aprende a se virar com que tem. Minha melhor companheira de infância era a goiabeira lá de casa. Nós brincávamos de comadres- a madrinha das minhas bonecas era uma árvore. Mas brincar com árvores ou passar horas andando de bicicleta nada têm a ver com essa coisa maluca que é ser a única pessoa capaz de sentir (e lidar com) suas próprias dores e seus próprios prazeres. A gente pode tentar explicar, pode ainda compartilhar, pode ser confortada, mas o que é seu, é seu - ninguém dá conta. É apavorante e bom.

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Eu devia me meter menos na  vida das pessoas. Quer dizer, eu não me meto, só dou palpite se me pedirem. Mas fico agoniada esperando que as coisas mudem, que aquele " não aguento mais" seja verdadeiro. Se eu cuidasse só da minha vida, não ficaria puta com as eternas concessões. Não ficaria puta quando me dissessem que ficar sozinho dá medo. Vontade de dizer: " Feliz ou infeliz, a gente tá sempre sozinho, meu bem! Melhor que seja feliz!" Fico só na vontade porque não dá pra repetir um clichezão desses e sair incólume. 

Só que, meu deus, cuidar um pouco da própria vida e encarar uns tempos de tristeza e sentimento de fracasso não matam ninguém.


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Tenho a impressão de que a vida se divide em correr atrás do próprio rabo e em tentar não correr atrás do próprio rabo. Às vezes, os dois ao mesmo tempo - e acho que assim deve ser melhor mesmo.

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Chegou o cansaço de fim de ano. Soube que tinha chegado quando mandei uma aluna sumir da minha frente. Toda paciência que não tenho na vida tenho no trabalho. Mas estamos em novembro. A paciência que tinha secou, e não existe chuva de paciência. Ouvir uma resposta atravessada  da professora não vai matar a menina.

Daí que no dia seguinte àquele  em que descobri o fim da paciência, me irritei e saí da sala de aula. Simples assim. Tá certo que faltavam só 10 minutos pro fim da aula. Tá certo que o inspetor por perto. Ainda assim... eu nunca tinha saído de uma sala de aula com tanta raiva - e olha que já vivi situações muito ruins no trabalho. Mas quer me matar? Esfrega indolência na minha cara. 
Bem, eu não deveria trabalhar com adolescentes, então, né!

Como sobreviverei à novembro?

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Status atual: um poço de amargor