quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O último

2015 foi um ano cansativo. Nunca me senti tão cansada. Eu fui vivendo e pensando: ai, que saco! Não tenho energia nem pra mover o dedão do pé. Vivi 2015 no automático, administrando a vida prática ( para a qual não tenho o menor talento) e encarando as maluquices da minha cabeça. Porque esse foi o ano em que todos os meus fantasmas decidiram se reunir numa convenção pra  me assombrar. Não tive trégua, mas acho que fui uma boa soldado. Encarei as maluquices da melhor maneira que pude. E sobrevivi.
Mas eu não quero falar de chatices. Esse blog sempre funcionou como meu HD externo, então quero voltar nesse post daqui a um tempo pra me lembrar do tanto que sou grata pelo que  vivi em 2015. Esse ano estranho e meio torto me obrigou a aprender que amar é mais que deixar ir, é deixar ser. Alguns dos meus laços mais importantes sofreram abalos dolorosos, mas outros se tornaram ainda mais seguros. Um desses laços me confirmou o que sempre tive dificuldades de entender: sozinho, tudo é mais difícil. E eu estou longe de estar sozinha. Tenho uma família cheia dos defeitos, mas que não abandona os seus. Tenho uma mãe que sempre esteve por perto e que não cansa de me surpreender positivamente. Tenho amigos que se dispõem a enfrentar perigos pra me ajudar, que passam uma tarde longa numa sala de espera pra me apoiar, que têm paciência com meus defeitos, que  me confiam  seus segredos, que me dão uma afilhada. Tenho  um trabalho que adoro, num lugar que adoro, onde recebo abraços todos os dias. 2015 foi o ano mais leve e prazeroso que tive em toda minha carreira em escolas.
2015 me deu Sophie, me deu Salvador, me deu o exercício da paciência e da compreensão, me deu  essa coisa boa que é estar viva apesar de.
Vou começar 2016 cheia de uma esperança que não cabe em mim. Apesar dos pesares, tenho fé no poder do afeto dos  que nos amam e na nossa própria vontade de ser mais feliz.  É o que eu quero pra 2016: ser mais feliz, na medida do que for possível. Quero aceitar a tristeza e encarar os dias em que ela vem pesada com algum equilíbrio. Quero ter coragem e paciência. Quero me lembrar que sei me virar muito bem. Quero não estar sozinha. Quero estar mais de peito aberto. Quero saber ser grata. Quero a beleza, a bondade e abraços. Quero  gentileza e maciez. Quero.
Sei que não estive muito por aqui esse ano,mas as pessoas que leem esse blog são muito importantes pra mim. Sempre foram. E eu quero meus desejos de felicidade cheguem até você, pessoa querida que leu esse post,  e que você possa recebê-los como um abraço bem apertado.
Feliz 2016, minha gente!

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Continue a nadar

" É preciso tentar não sucumbir ao peso das nossas angústias, Harry, e continuar a lutar."

Dumbledore, aquele homem maravilhoso, sempre dizendo a coisa certa, né? Tá certo que a gente não tem que derrotar um cara que partiu a alma em sete pedaços e tal, mas acho que é um conselho que não deve ser desperdiçado.

Essa fala é de [ muitos coraçõezinhos pra esse livro] O Enigma do Príncipe.  

domingo, 1 de novembro de 2015

Sentir falta de escrever aqui é uma constante. Houve uma época em que tudo era motivo de post. Nos últimos tempos, penso umas  cinco vezes antes de abrir o aplicativo do blogger. Sim, aplicativo,  quase não tenho usado o notebook. Meu celular novinho com tela maior que a daquele celular da maçãzinha muquirana ganhou a batalha entre os gadgets. Dia desses, eu tive que dar uma reviradinha na casa atrás do notebook. O pobre estava embaixo da cama, empoeirado e obsoleto. Eu começo a escrever e de repente tudo parece chato, bobo, cansativo. Agorinha mesmo, neste exato momento, esses sentimentos tão surgindo aqui na minha cabeca, mas eu vou resistir, serei mais forte. A batalha é dura, viu. Vou respirar um pouco e continuar a guerra no próximo parágrafo.

Travei. Tenho uma ideia do que quero escrever, mas falta aquela palavra boa que impulsiona o parágrafo. Hum. Não queria usar "eu". Minha professora da quinta série me ensinou que iniciar parágrafos  com pronomes pessoais é um recurso pobre e nunca consegui desapegar desse conselho. Só que eu já não estou no início do parágrafo, então vai o " eu" mesmo. Eu... e agora não lembro o queria dizer. Ah, sim. Eu desisto de escrever aqui  porque só sinto vontade de falar de cansaço, que está muito longe de ser um assunto inédito no blog. Eu vivo falando de cansaço, eu vivo cansada. Mas agora é um cansaço com o qual não tô sabendo lidar. Vou contar uma história no parágrafo seguinte pra ilustrar, historinhas sempre explicam melhor.

Dia desses, dois ex-alunos meus brigaram na escola. Uma aluna veio me contar detalhes do evento que agitou o recreio. Para identificar um dos envolvidos, ela usou a expressão: " um viadinho do sétimo ano". Eu não estava preparada pra ouvir isso. Nunca vou estar. Eu conheço o menino a quem a garota se referiu. Ele tem 13 anos, é filho único de uma mãe que trabalha 12 horas por dia, é aluno de uma prestigiosa academia  de dança, é um moleque inteligente e bacana, mas nada disso é importante na hora de identificá-lo. Sei que a briga tem a ver justamente com esse rótulo que todo mundo acha que tem direito de atribuir a ele. Eu queria poder dizer a ele que as coisas vão melhorar quando ele for adulto, mas não  posso dizer mentiras pra adolescentes. Você cresce e nada melhora. Eu tô assustada de verdade com esses tempos em que a gente tá vivendo. Tantos retrocessos, tanta crueldade, tanto ódio, tanto moralismo. Vcs não estão  apavorados?

E fora essas dores normais de ser gente. Porque ninguém avisa que  a vida nunca para de doer, que vc tem é que se virar pra se manter sã enquanto vai lidando com uma magoazinha aqui, um trauminha ali. E haverá dias em que você não vai dar muito conta. Eu estou nesses dias em que não estou dando conta. Estou operando no nível básico de energia. Só tenho fôlego pro mínimo: respirar e trabalhar. Esse é o nível de cansaço. Opa! Mais uma vez a vontade de largar o post bem aqui neste ponto em que claramente falta uma conclusão. Assim como existem as musas, devem existir os gênios maus que conspiraram pra que a gente desista dos posts. Mas eu vou demonstrar bravura, vou terminar no  próximo parágrafo.

Terminei.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Eu sou péssima com relacionamentos, muito péssima. Tem gente que acha que essa é uma afirmação dramática porque sou simpática e sorridente. Existe um pressuposto de que as pessoas extrovertidas e sorridentes são competentes nos relacionamentos. Baseada na minha larga experiência de 31 anos de vida, eu diria que taí um pressuposto furadíssimo. Meus alunos certamente me acham legal, tenho amizades verdadeiras e duradouras, meus colegas de trabalho diriam assim:" ah, Juliana, aquela de português? Ela é meio condescendente com os alunos e tem umas ideias de esquerda, mas é gente boa!" A merda toda está na intimidade, tá naquele limitezinho que eu nem sei bem qual é, mas que tá ali fazendo de mim um desastre no trato com quem chega perto, bem perto.

Eu passei por 4 analistas, e para todas  elas eu disse a mesma coisa: não sei fazer isso, não! Não quero saber de compartilhar, de deixar que saibam. Sou péssima. Prefiro ficar quieta aqui no meu canto. Olha como meu canto é ótimo, limpinho, quietinho e meu, só meu. Ninguém precisa vir aqui. Pode deixar que eu vou lá no canto dos outros pra manter contato. Sou boa em manter contato.Vou só acenar, ouvir e sorrir. Funciona que é uma beleza. Aí todas as 4 analistas repetiam a mesma fala, parece até que combinaram:  Você não acha que é importante poder contar com as pessoas? Uma pergunta como essa quebra qualquer argumento, né?

Sim, é importante; fundamental até. A pessoa não precisa nem salvar sua vida ou seu dia. Basta estar em algum lugar respirando - respirando e com o whatsapp à mão já tá ótimo. Às vezes, é necessário a  gente sentir essa respiração mais de perto, aí a pessoa vem aqui e respira junto. Mas na maior parte do tempo saber que a pessoa existe tá de bom tamanho. 

Relacionamentos dão um trabalho danado, são um saco. Que cansativo que são! Mas, né, tá sozinha nessa vida é cansa bem mais.

(   esse post não tá como eu queria, mas tá na hora de desemperrar o teclado e os dedos.)

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Minha analista disse que sou uma mulher  decidida. Se essa afirmação tivesse vindo de  qualquer outra pessoa, eu teria refutado, com vários bons argumentos. Mas analista é outra história. A gente ouve e presta atenção no que analista diz. E registra, pra ir se convencendo toda vez que ler.

Está registrado, e lerei umas três vezes por dia.

domingo, 20 de setembro de 2015

Cantando sem parar







"Abrirmos a cabeça
Para que afinal floresça
O mais que humano em nós.
Então tá tudo dito e é tão bonito
E eu acredito num claro futuro
De música, ternura e aventura
Pro equilibrista em cima do muro.
Mas e se o amor pra nós chegar,
De nós, de algum lugar
Com todo o seu tenebroso esplendor?"

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Uma ilha e uma cama cheia de formigas

Uma colega veio toda animada me perguntar o que achei de Morro de São Paulo, e eu não soube como ser honesta sem ser confusa. Ela vai pra lá nas férias, marido já organizou tudo. Eu respondi com parte da minha verdadeira opinião: Morro é um lugar lindo. Só se eu tivesse probleminhas de visão, pra afirmar o contrário. Mas não tive coragem de dizer: ó, não sairia do Rio de Janeiro só  pra conhecer a ilha.



Eu amei Salvador, muito, tanto. Fui pra Morro com a promessa de amor ainda maior. No meio do caminho, porém, havia aquela tenebrosa viagem  de catamarã por 2h30min em mar aberto. Passei boa parte dopada de remédio de enjoo, a outra parte foi dedicada a tentar colocar meu corpo no lugar depois de tanto sacolejar. Cheguei na ilha me sentindo como se meu corpo não me pertencesse. Me instalei no hotel indicado por uma colega e saí pra comer. Eram 18h. Entrei num restaurante de comida argentina, devorei uma picanha fantástica, ao som de uma menina que cantava lindamente as minhas músicas favoritas da Amy. Ao final da refeição, ganhei uma caipirinha. Parece que é uma cortesia habitual do restaurante. Eu não bebo, mas tenho um fraco por caipirinhas, o que não me impede de ficar lânguida e engraçada com um copo da bebida Voltei pro hotel meio trôpega, ainda sob o efeito do remédio de enjoo, deitei na cama e apaguei. Só acordei às 6h da manhã do dia seguinte, com a chuva sacudindo a janela.



Em julho, o tempo é instável na Bahia. Me disseram que as chuvas não dão trégua. Eu já sabia da instabilidade do tempo, da possibilidade de não poder entrar no mar. Mas não foi o tempo que me deixou meio infeliz em Morro. Eu teria encarado a chuva numa boa se não tive escolhido a hospedagem inadequada pro meu momento de turista solitária e se   não tivesse chegado com  um mundo de turistas estrangeiros. Fiquei com a impressão de que os baianos de Morro não ficam muito felizes com tantos gringos na sua ilhazinha linda. Eu mesma me senti um pouco estrangeira. Tudo parecia feito pra alegrar e entreter os outros turistas, menos brasileiros, mais brancos, com mais dinheiro. Maeve e Hélio me disseram que fui a Morro num período em que nenhum baiano vai, por isso senti o lugar tão pouco baiano, tão pouco brasileiro. Quero voltar a Morro em pleno verão então.

Passei dois dias inteiros na ilha. Num deles, fiquei todo o tempo no mar, que esperava ser mais morno. Todo mundo dizia que a água do mar baiano é morna. Se comparada às ondas da praia do Arpoador, certamente é mais quente, mas, sei lá, eu esperava... Sei lá! Acho que criei muitas expectativas em torno de Morro e tudo ficou pior porque não consegui parar de comparar com a experiência de Salvador. Vejam bem, não tô comparando as duas cidades. Eu seria bem idiota de colocar na mesma balança uma capital e um balneário turístico que não tem agência bancária. Me refiro a como me senti nos dois lugares. Morro, em julho, talvez não seja o lugar ideal para mulheres viajando sozinha. Ou para Juliana viajando sozinha. Achei tudo muito turístico, tudo muito caro, senti falta de calor humano. Um outro  ponto importante foi o fato de eu ter ficado hospedada na vila, na região onde os moradores vivem. E a sensação que tive foi a de que o turismo e o tanto de moradores estrangeiros têm afastado cada vez mais essa população das praias, da sua terra. E há uma insatisfação clara com isso. 

Meu maior erro, acho, foi ter ficado em uma pousada. No primeiro dia, sob o efeito do cansaço e da caipirinha, achei incrível o bangalô localizado numa área silenciosa e arborizada. No segundo dia, me senti num filme de suspense. Cheguei da rua e encontrei um monte de  formigas na cama. Um monte. Fui atrás do rapaz da recepção, claro. Encontrei somente a moça do restaurante que funciona na entrada da pousada. Ela me disse que a recepção fechava às 19h. Eram 20h. Nunca tinha visto algo assim. Já me hospedei em lugares tranquilos, mas mesmo assim sempre havia alguém na recepção. Fora que a pousada não tinha portão nem qualquer proteção em relação à rua.  Os quartos davam pra uma escada  mal iluminada que levava direto pra entrada sem portão.  As casas no entorno tinham portões e grades na janela.A pousada em frente à minha não tinha grades, mas tinha um portão que ficava fechado à noite. A amiga que me indicou o lugar me disse, depois, que eu tinha sido muito carioca ao desconfiar tanto da segurança do local e que foi avisada no primeiro dia que era só ligar pro celular do dono do pousada que ele aparecia. Eu não fui avisada de nada disso, então me senti insegura mesmo e fui obrigada a catar as formigas do lençol. Pra ajudar, choveu forte de madrugada e fui acordada pelas janelas sacudindo. No dia seguinte, enquanto estava na rua, meu lençol foi trocado e conversei longamente com a arrumadeira ( uma xará da minha mãe) e descobri que era comum que as recepções  das pousadas fechassem cedo. Decidi então dar uma segunda chance ao lugar, apesar do péssimo sinal de wi-fi. Só que a noite seguinte foi ainda pior: choveu horrores, as janelas sacudiram ainda mais e os meus vizinhos de quarto fizeram muito barulho. Acordei mais uma vez no meio da noite; dessa vez sem saber se os vizinhos tavam arrastando móveis e batendo portas porque estavam sendo vítimas de um assassino furioso ou porque eram problemáticos. Os barulhos me assustaram. O carregador do celular deu problema, então eu nem podia ligar pro tal rapaz da recepção, caso ficasse confirmado que meus vizinhos estavam sendo mortos. Passei uma noite péssima. De manhã, fechei a conta e comprei passagem pra Salvador. Descobri que meus vizinhos tinham sido vítimas de uma goteira violenta em cima da cama, de uma porta de banheiro emperrada e de um ar-condicionado ruim. Sofreram mais que eu, claro.

dá até pra ver que preciso de pedicure, né?

Voltei pra Salvador pelo caminho semiterrestre. Demora um pouco mais, porém cheguei inteira na cidade. Saí de Morro sob um céu cinza. Encontrei uma Salvador ensolarada. A volta antecipada me permitiu estar com Maeve e Hélio mais uma vez e ainda conhecer a linda Casa do Rio Vermelho. Eu estive hospedada no mesmo bairro  Jorge Amado e Zélia Gattai moraram e quase vou embora sem conhecer a casa deles, o que teria sido um enorme desperdício.  

Em resumo: Morro é um paraíso, mas eu não fui muito feliz, por lá, não.



P.S.: a cama ficou cheia de formigas porque eu deixei um pacote de biscoito aberto em cima dela.

Outro P.S.: Se vocês forem à Casa do Rio Vermelho, levem dinheiro vivo. Se forem a Morro, façam o mesmo. A bilheteria da Casa não aceita cartão. Em Morro, vários lugares, até os camelôs, têm maquininha de cartão, mas você pode sem dinheiro em espécie nenhum se não for cliente o Bradesco, do Banco do Brasil ou da Caixa.




domingo, 6 de setembro de 2015

A data

Tenho muita paranoia com prazo de validade de comida. Olho todas as embalagens,  cheiro mil vezes aquele leite esquecido na geladeira antes de beber; de preferência, dou pra alguém experimentar. De todos os intestinos do mundo, o meu é mais frágil. Melhor alguém ter intoxicação no meu lugar. Não adianta me mostrar reportagens sobre a verdade sobre prazos de validade. Tá vencido? Não vai pra minha barriga de jeito nenhum.

Minha mãe sempre achou minha fé naquela data indicada pelo fabricante uma grande bobagem. Devo ter comido muita comida vencida antes de ser capaz de me defender. Obrigada, duendes das filhas de mães teimosas, pela proteção! Minha vó sempre me deu mais ouvidos, como toda boa vó mimadora de netinhas, então corri menos  riscos sob sua tutela. Quer dizer, exceto por aquela vez em que ela me obrigou a comer nugget azedo. Eu devia ter 10 anos e já desafiava, com meu paladar seletivo, a boa vontade da pessoa que penou na infância e passou muita fome na vida.Eu não comia açúcar, não comia peixe, só tomava o caldinho de feijão e isso  quando era obrigada (é duro ser uma criança fluminense quando não se gosta de feijão preto), enjoava com cheiro de melancia. Minha vó tinha paciência. Mas houve aquele dia de que nunca me esqueço em que ela encheu meu prato de nugget estragado e me obrigou a comer um por um. Eu disse pra ela que o gosto tava horrível, amargo, ruim, e minha vó, crente que eu tava chiliquetando, afirmou sem experimentar o nugget que o gosto azedo era limão. Limão, gente! E eu comi. E me pergunto como estou viva pra escrever esse post. Limão! Humpf! Quando minha mãe foi jantar, sua palavra e seu paladar de adulta prevaleceram e os nuggets foram pro lixo. O bom foi que, depois disso, passei uma semana comendo bife com batata frita. Minha vó não deve ter sabido lidar com a culpa.

Lembrei dessa historinha porque hoje minha mãe tentou nos envenenar com farinha vencida. Minha prima aproveitou o dia de chuva e pediu que minha mãe fizesse as rosquinhas que alegravam nossa infância. O pedido foi prontamente atendido e Vinicinho se juntou à minha mãe na execução da receita. Ficamos minha prima e eu no quarto , vendo Faustão e sentindo o cheirinho de massa frita. Tempos depois, Vinicius trouxe duas rosquinhas minúsculas feitas por suas mãozinhas igualmente minúsculas. Aceitamos a oferta de bom grado, mas na primeira mordida soubemos que algo tava errado: a rosquinha tava meio salgada.

Cê botou sal nisso, tia? 
Claro que não!
Mas tá salgado!
Eu não botei sal! 
Ah, mas tá horrível, mãe!

Sem pestanejar, corri pra olhar o pacote de farinha de trigo. Validade: 14/05/2015. Façam as contas. Resultado: um embrulho no estômago, minha prima vomitou, meu intestino sucumbiu. Vinicinho foi dormir com a mãozinha na barriga, reclamando de dor. E a minha mãe preocupadíssima com os efeitos da farinha vencida no estômago do menino. Só no dele, né? 

A menina de 10 anos que eu fui se sente vingada.  Acho que minha mãe não vai mais ignorar aqueles numerozinhos na embalagem. Quer dizer, eu espero.

sábado, 15 de agosto de 2015

Duas ex-alunas minhas morreram esse ano.  Ambas tinham 13 anos, ambas frequentaram a mesma turma de sexto ano, ambas saíram da escola muito antes de eu me apegar a elas como sou apegada aos outros todos. Lembro do nome e sobrenome das duas, sei em que lugar sentavam na sala, nunca cheguei a saber muito mais. Uma delas morreu nessa semana, atropelada. Um fone de ouvido e o hábito de atravessar a rua no lugar errado facilitaram a ação de um ônibus que vinha em alta velocidade. Pelo menos, foi essa a história que me contaram, porque o acidente não foi noticiado em jornal nenhum. Eu sei o que as alunas assustadas me contaram. A morte de alguém jovem é tão difícil de entender. A melhor amiga da menina desmaiou, eu senti um aperto duro no peito. Mesmo os que não a conheciam estão impressionados. Poderia ter sido qualquer um desses adolescentes que andam  com os fones berrando no ouvido, surdos pros sons do mundo. Poderia ter sido eu, que "piso nos astros, distraída" sempre.


Dia desses, Silvana me disse que eu deveria falar no blog sobre como o enterro da minha vó foi leve. Escrevi tantos posts sobre o luto, e ela acha que seria bom contar de como ficamos sentados num canto do cemitério, eu e os amigos mais chegados, rindo tão alto que alguém  fez "chiuuu' pra gente. Contar que minha mãe e eu rimos quando uma mulher que ninguém conhecia se postou ao lado do caixão e beijou dramaticamente a testa da minha vó. A mulher era uma prima que minha mãe e meus tios não viam desde a adolescência. Contar que no momento em que o caixão era baixado na cova o celular da minha tia tocou descontroladamente. Ah, sim, pra agradar Vinicinho, minha tia costumava usar Ah lek lek lek como ringtone. Contar de como essa mesma tia ficou desesperada quando viu minha prima comendo a empada que Jaqueline trouxe do shopping. Não come coisa do cemitério, pelo amor de Deus! Tá tudo contaminado com as doenças de quem tá enterrado aqui!

Minha vó era uma mulher de 75 anos, com um coração  tão grande que pressionava os pulmões, uma vesícula cheia de pedras, um rim comprometido, níveis incontroláveis de glicose no sangue, pressão altíssima. Ela passou um mês inteiro no hospital,  antes tinha passado maus bocados em casa. A morte dela foi um alívio para nós. Não estou sendo cruel, é verdade. Ver alguém sofrer e saber que não há nada que possa ser feito é pior que o inferno, é um inferno com doses cavalares de angústia. Durante o período em que minha vó esteve internada, minha cabeça doía de uma dor frequente, pulsante, cansativa. Doía, doía, doía. No dia do enterro, a dor não estava mais lá. O inferno tinha acabado.

Não consigo (e  nem quero ) imaginar como é o enterro de uma menina de 13 anos que morre de um jeito tão.. sei lá... Dois segundos teriam evitado a morte. Se alguém tivesse por perto pra dar um puxão na menina...Se alguém tivesse conseguido fazer um sinal pro motorista do ônibus... Se ela tivesse atravessado no sinal... Se ela tivesse esquecido de carregar o celular naquele dia...

A morte poderia riscar da sua lista meninas de 13 anos distraídas.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Roommate



Num dia desses aí da vida, Sil virou pra mim e perguntou:

- Será que os vizinhos acham que a gente é um casal?
- Será? Acho que não.
- Ué, por que, não? Ninguém sabe nada da gente. Veem duas mulheres morando juntas, podem pensar que a gente é um casal.
- Ah, eu acho que não! Se bem que as pessoas estranham quando eu digo que moro como uma amiga. Percebo que as pessoas ficam meio desconcertadas.
- É porque elas acham que essa amiga não é uma amiga.
- Que isso? Ninguém vai ser casada com uma pessoa e dizer pros outros que mora com uma amiga. Isso não tem o menor sentido. 

O diálogo não foi bem assim, mas vamos fingir que foi. Dia depois, eu tava lendo um jornal e uma colunista contava que uma de suas tias morou durante anos com uma amiga "especial". Todos na família sabiam da natureza romântica daquele relacionamento tão duradouro, mas, para todos os efeitos, as duas mulheres eram apenas roommates muito íntimas.

A minha ingenuidade é uma coisinha bonitinha, né?

***

Dias desses, veio um moço aqui em casa ver a gatinha pra qual estou procurando um lar. Vieram ele e o filho. Conversei com os dois, simpática, falei da gatinha e tal. Passados uns dez minutos de papo, chegou Silvana, vinda da rua, falando como uma matraca como sempre, ocupando o lugar dela na casa. O moço olhou pra mim, olhou pra ela e perguntou se éramos irmãs. Silvana sorriu, e eu disse a verdade: somos amigas. Não tenho habilidade pra descrever a cara que o moço fez.As pessoas sempre fazem essa cara quando digo que moro com uma amiga. Sempre. É engraçado.

***
Silvana e eu somos amigas há mais de 10 anos e fazemos parte de um grupo de amigos que vêm se tornando adultos juntos. Nunca imaginei que ela e eu moraríamos na mesma casa, mas aconteceu e estamos vivas até então. Dividir a casa com uma amiga não tem nada a ver com ser Monica e Rachel. Não é difícil nem doloroso, mas é diferente, muito diferente da amizade de sempre. Morar com alguém torna as características que você já conhecia muito ampliadas; é muito maluco. E saber lidar com essa nova perspectiva, saber dosar o tom da intimidade, respeitar o espaço da outra é complexo, exige que você reaprenda a se relacionar com alguém que você conhece há uma década.

Exemplo: eu passei toda minha vida ouvindo minha mãe e minha vó reclamarem da minha cara feia e sempre achei que elas tavam fazendo drama. Daí vim morar com a Sil e a minha cara feia entrou em pauta novamente.  Silvana diz que nunca sabe o que significa a minha cara feia. Então, minha mãe e minha vó não eram tão malucas assim, né? A não ser que a Silvana também seja maluca, Mas  acho que não é o caso. Ela tem razão - e que bom que minha mãe não lê esse blog. Eu sempre acordo de cara feia, depois a cara melhora, mas pode voltar a ficar feia a qualquer hora do dia. Minha cara feia pode ser fome, cansaço ou dor de barriga, geralmente é uma combinação dos dois primeiros. Deve ser meio chato mesmo  pra quem está fora da minha cabeça acompanhar o processo de mudança de cara.

Agora consigo ter uma ideia de por que casamentos acabam, viu!

***

Se fosse pra escolher, Silvana seria Monica e eu seria Rachel.  Eu sou uma Rachel menos mimada, bem menos bonita e com alguma intimidade com as panelas, claro. 

Silvana sabe desentupir vasos sanitários, tem uma técnica infalível pra tirar pelo de gato da roupa e desenvolveu um sistema de acomodação e transporte das compras do mercado que não pode ser questionado. Monica, muito Monica, não é?



terça-feira, 28 de julho de 2015

Aliás

1. A Igreja do Bonfim não fica no alto de um morrão e a escadaria não tem 37543 degraus. Fiquei meio decepcionada, viu! A igreja não foi feita pra me agradar, eu sei, mas,sei lá, esperava... Ah, não sei... Desculpem, baianos!

2. Aliás, baianos!!! Ah, os baianos... Antes, eu achava que os mineiros eram as melhores pessoas. Agora, tô sendo obrigada a rever minha opinião e dividir o título com os baianos. 

3. Aliás, comida baiana! Como é que eu vou viver sem acarajé? E nem venha me dizer que tem acarajé no Rio, porque, né, amiguinhos, não, não, não. Quero acarajé da Cira na esquina da minha casa já. Quando eu chegar no Rio, tenho fé de que uma barraquinha estará montada bem pertinho do meu portão. Acarajé que faz crec na hora que a gente morde e com muita pimenta.

4. Aliás, pimenta! Maeve e Emily, baianas legítimas, já atestaram que posso requerer minha cidadania soteropolitana. Passei no teste de baianidade: pimenta, pode botar pimenta. Ai, pimenta! Também fui aprovada com certa moral no outro teste de baianidade: o dendê pesou no estômago, mas não me desarranjou. Desculpa, mas tenho que dizer: arrasei, nem!

5. Aliás, eu já nasci aprovada nesse teste aí. Eu amo farofa, tenho um ranking de farofas favoritas, como farofa com macarrão, só de falar a palavrinha a boca enche d'água. Soteropolitanos comem tudo com farofa. Soteropolitanos comem uma das minhas comidas favoritas da galáxia, bobó, com farofa. Eu achei que estava morta e tinha chegado ao paraíso quando misturei a farofinha de manteiga num bobó escandaloso.

6. Aliás, na minha infância, havia duas comidas recorrentes. Uma era fantástica, o bobó. A outra não nada fantástica: angu à baiana. No Rio, no nosso inverno fake, as pessoas tomam caldos pra esquentar. Você pode chegar numa barraca de caldos e pedir angu à baiana tranquilamente. Passei toda a vida achando que angu era comida baiana, aí chego em Salvador e Maeve nem sabe o que angu. Ontem, no caminho pro Bonfim, conheci Seu Roque. Perguntei o intinerário do ônibus pra ele e, pronto, ganhei companhia pra viagem todas. Seu Roque morou uns meses no Rio e queria saber que embuste é esse de angu à baiana. 

Quem mais aí não sabe o que é angu? É um creme salgado de fubá, é a polenta antes de endurecer. Se for à baiana, a gente come com sarapatel, que no Rio a gente chama só de miúdo mesmo. 

7. Eu ia dizer " aliás, nome de comida", mas taí assunto que merece um post, três livros,  quatro artigos sobre variação linguística. Vou dizer então: " aliás, Rio!"porque nascer no Rio é uma credencial e tanto por aqui. Eu abro a boca e as pessoas sorriem. Querem saber em que bairro eu moro, pra que time torço. Conhecendo ou não conhecendo a cidade, as pessoas já dizem que amam e meio que te amam também. Tenho vontade de dizer que o Rio nem é tão legal assim, mas fico só na vontade porque ser amada gratuitamente é muito bom.

8. Aliás, amor! Tô indo hoje pra outro lugar lindo da Bahia que todo mundo duz que vou amar. Eu acredito, mas meu coração tá aos pedaços. Não vai ser fácil  viver sem Salvador.

Acho que conheço lugares tão ou mais bonitos quanto essa cidade; não se trata só de beleza... Ai, ai... Salvador, ó, é puro amor. Não encontro outra definição.

Como sempre, Caetano tem razão: "quem vem de lá/ sente saudade"

Mas eu volto! 

domingo, 26 de julho de 2015

Diário de viagem

* escrevi esse post no celular, então não botem reparo em nada, por favor! Eu me superei nas palavras repetidas, e o autocorretor deve ter criado umas frases bem malucas. =p


As moças do meu quarto no hostel perguntaram se tenho planos, as moças na piscina me perguntaram se eu queria ir num show de música sertaneja. Ontem eu estava deitada na minha caminha, tentando me recuperar do impacto da melhor moqueca da vida ( eu nunca tinha comido e espero que todas as moquecas sejam assim), aí apareceu a moça linda e simpática da cama de cima. Ela me olhou intrigada e quis saber se eu não tinha saído. Deu vontade de dizer: meu amor, eu acordo cedo! Você tava roncando quando eu saí.Mas não seria justo. A menina é um doce, não merece grosseria. Mas é que, gente, tudo bem ficar sozinha e não sair à noite. Tudo bem ficar deitadinha aqui enquanto meu estômago processa o dendê. Meu dia foi ótimo. Fui ao Pelourinho, desci aquela ladeira ao som do batuque, chorei vendo o vídeo da Zélia Gattai na casa do Jorge Amado, caí no papo furado do ambulante na Praça da Sé, essas coisas. Fez sol. Parece que há dias o céu não ficava tão limpo. De tarde, fui ao farol da Barra com os baianos mais simpáticos. Depois tive uma aula sobre como comer boa comida baiana. Tô ótima, tô feliz!


A solidão é como a tristeza: todo mundo tem pavor dela, né? É uma pena, porque é bom estar com outras pessoas, mas é bom também fazer aquilo que você quer, no tempo que você quer, cometer uns erros só seus. Eu tenho mesmo uma dificuldade pra me relacionar com gente nova e tal; isso é um problema na minha vida. Só que tô com a impressão de que  o povo aqui tá  com necessidade de se juntar, de arranjar a companhia que não veio junto de casa. É uma impressão, não sei. Vai ver que eu é que tô mais ensimesmada que o normal. Mas, ó, até agora tô achando que fiz certíssimo de ter comprado a passagem sem pensar muito. Tem horas em que queria que André ou Jaqueline estivessem aqui. Consigo até imaginar como seria a viagem se cada um deles tivesse vindo.  Jaqueline e eu ficaríamos horas sentadas contemplando a vista da Cruz Caída. André faria  um de seus famosos vídeos de viagem bem embaixo  daquela foto do Michael Jackson no Pelourinho. No mínimo, eu  teria com quem dividir os pratos nos restaurantes, pelo menos. Mas, na falta dos melhores companhias, estar sozinha tá funcionando muito bem.

Agora vou lá pro banho que Maeve e o namorado dela vão me levar pra tomar um café da manhã bem baiano. Fiquem na torcida pelo meu aparelho digestório 
não pifar, porque eu tenho muitos dias ainda pra devorar comida boa.

Antes de ir,  umas fotinhos:









terça-feira, 21 de julho de 2015

Sozinha no mundo

Acontece sempre. Digo que vou viajar nas férias. Primeiro perguntam pra onde; em seguida, querem saber com quem. A resposta dessa vez é: com ninguém, sozinha. Alguns dos meus interlocutores me acham maluca, outros dizem que não teriam a minha coragem, minhas colegas de trabalho me encorajaram.  E eu? Se o medo e a ansiedade estivessem brincando de cabo de guerra, eu seria a corda. 

Não sei bem do que tô com medo. Fiz o que sempre faço antes de viagens: reservei hospedagem, dei uma olhada no que quero conhecer, anotei as informações importantes no caderninho.  Geralmente, esses procedimentos me bastam. Nunca fui de planejar, meus habituais companheiros de viagem também não são. Minha preocupação maior é sempre perder o voo. Depois que entro no avião, só me preocupo em não morrer na aterrissagem. 

Dessa vez, ainda em casa, tenho tantos medos que nem me reconheço. E se a reserva do hostel estiver errada? E se eu for assaltada? E se eu morrer de tédio? E se escolhi as roupas erradas? E se eu desmaiar na rua? E se eu passar sete dias sem conversar com uma  viva alma? Esse último é o medo mais palpável. Todo mundo diz que vou encontrar companhias temporárias. Eu duvido um pouco, viu. Não vejo muita chance de conhecer gente pra uma criatura desconfiada feito eu. Pra que a solidão não me mate, abarrotei o Kobo. 

Viajo amanhã, mas, pra não fugir ao habitual, a mala tá aberta no meio no quarto servindo de cama de gato. Odeio arrumar mala. Odeio. Não decidi se vou pro aeroporto de táxi ou de ônibus. Não comprei creme de pentear. Não fiz as sobrancelhas. É melhor parar de enumerar as pendências antes que algum viajante organizado e planejador tenha urticárias só de ler. Hihihi

Aos viajantes solitários: aceito dicas de sobrevivência, gente!


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Triângulo

Trabalhar em escola pode ser tudo, menos monótono. Chego em casa todo dia com uma história nova, e o bom é que minha roommate nunca enjoa delas. Na última semana, descobri um enredo muito melhor que Malhação acontecendo entre os alunos do sexto ano. A trama é um triângulo amoroso que tô adorando acompanhar.  Vou contar pra vocês. Os personagens são Carol, Canhotinho e Léo. Os nomes não são exatamente esses, mas foram devidamente inspirados na realidade. Carol é uma menina que pinta o cabelo de roxo com papel crepom, usa presilhas multicoloridas, só tira boa nota e aparece todas as manhãs com um saco de papel cheio de pirulitos. Canhotinho é moleque agitado, meio exibido e artilheiro do time mirim de futebol. Léo faz todos os deveres, chega do recreio  suado de tanto correr e usa um penteado maravilhoso. Todos os envolvidos têm 11 anos. Léo e Canhotinho são colegas de turma; Carol estuda na sala ao lado.

Numa manhã qualquer dos últimos meses, Canhotinho me contou que namorava uma menina da  outra turma e me perguntou se eu sabia quem era a Carol. Já estou acostumada a ser atualizada sobre os romances que acontecem na escola. Pessoas de 11 anos adoram se apaixonar umas pelas outras e sentem um prazer especial em falar sobre amores eternos e possíveis casais. Como boa fofoqueira que sou, ouço todas as histórias com muita atenção. Registrei, então, que  Carol e Canhotinho namoravam. Antes de prosseguir, devo advertir vocês que, tendo por base as observações feitas no meu ambiente de trabalho, namorar é um termo usado sem critérios muito definidos, sabe. Sei de um monte de gente que se conheceu no Facebook, namora por whatsapp, mas nunca se viu porque estuda em turnos diferentes e mora em bairros diferentes. Platônico, não? No sexto ano, namorar, na maior parte dos casos, é mais um sentimento que uma ação.  Mas vamos voltar à história. Pois bem, uns dias depois, eu ouvi a Carol falando toda encantadinha do Léo. Opa! Sinal de alerta! , mas ela não namorava o Canhotinho? Foi aí que eu descobri que Carol não namora ninguém; a mãe dela anda não liberou namoro. Carol e Canhotinho estudam juntos desde o quarto ano e desde então o menino vem dizendo que eles são namorados. Eu disse que namorar é um conceito muito complexo nesse contexto, não disse? Me faz lembrar do dia em que Vinicinho viu  um trenó num daqueles maravilhosos desenhos do Discovery Kids e disse animadaço: "É igual ao meu, só que eu não tenho!"

Aula vai, aula vem,  as festas juninas chegam e  eu fico incumbida de arregimentar dançarinos pra quadrilha da escola. Em meio aos interessados, Léo, discreto que só ele, esperou o final da aula pra   me perguntar se alguém da sala ao lado também ia dançar. 

- Alguém quem?
O menino ficou absurdamente vermelho, mas não se entregou:
- Qualquer pessoa. Vai ter gente da outra turma?
- Vai! Tem um monte de gente dançando.
Ele não disse nada. Voltou pra carteira, guardou as coisas na mochila, andou bem devagar pela sala, quase cruzou a porta. Não aguentou:
- E a Carol? Ela vai dançar?
Coisa mais fofa é ver um tímido sendo movido pela coragem. Eu apenas sorri e confirmei com a cabeça.

Ouvindo daqui, ouvindo dali, descobri muitas coisas. Carol e Léo pegam o mesmo ônibus e ela, num ímpeto de ousadia, foi lá e sentou do lado dele. Carol não odeia Canhotinho nem nada, mas também não gosta muito dele porque o menino vive puxando o cabelo dela, gritando chatices, estragando o jogo de uno das meninas. Eu já vi Canhotinho sendo chato com Carol e cheguei até a dar uns conselhos pro rapazinho. Disse pra ele aquele óbvio que um monte de adultos parece não saber: a gente trata bem  as pessoas de quem a gente gosta. Aí o menino partiu o meu coração:

- Mas, professora, ela me odeia, não me dá atenção nem liga pra mim. 

Tão jovem, tão sofrido, tadinho! Mas dá pra entender a rejeição de Carol, né? Fica muito difícil defender o Canhotinho. Se bem que ele é um menino esperto. Depois de ouvir meu conselho, que se aplica a todas as pessoas do mundo (espero que ele tenha entendido isso), o moleque tá se esforçando pra ser menos inconveniente, mas eu pressinto que a batalha esteja perdida.  Hoje aconteceu o primeiro ensaio da quadrilha. Carol e Léo estavam lá. No começo, restou ao Léo, a tarefa intragável de ser o par da professora (eu! o/ ). Carol fez dupla com uma de suas amigas. Aos poucos, o cenário foi mudando. No meio de tantas trocas de par e lugar, Carol e Léo ficaram lado a lado na grande roda. Notei que não havia muita coragem pra um segurar a mão do outro, ali na frente de todo mundo. A grande roda esteve meio cambeta naquele cantinho. Acho que ficar perto já bastava aos dois. Uma hora e meia de confusão e pisões no pé se passou até o momento em que a lista dos pares definitivos teve que sair. Fui perguntando pra todo mundo: quem vai ser o seu par? Quem vai ser o seu par?  Deixei a Carol por último. A menina não me decepcionou. Bochechas vermelhas, sorriso envergonhado, mas muito decidida:
- O Léo vai dançar comigo!

E eu acabei ficando sem par.



quinta-feira, 9 de julho de 2015

Cabelo cresce

Meu cabelo tava crescendo sem forma, caindo no olho, parecia franja de poodle.  Decidi cortar. Fui numa cabeleireira que minhas amigas amaram, depositei minhas esperanças na tal cabeleireira fodona e ... meu cabelo ficou uma merda. Hoje foi meu primeiro dia de cabelo ruim e só segurei o choro porque existem desgraças piores nessa vida. Mas que é difícil ser alegre sabendo que  teu cabelo tá péssimo, isso é. Passei o dia repetindo o mantra: cabelo cresce, cabelo cresce, cabelo cresce, cabelo cresce, cabelo cresce.

Uma amiga me disse que podia ser pior, bem pior: eu podia ter pintado com uma cor péssima. E tirar cor péssima de cabelo não é fácil. A outra amiga, que tem sempre fé em mim, disse que daqui  uns 3 dias eu tô bem resolvida e daqui uns meses contarei a história do corte ruim com bom humor. Eu, no momento só tô pensando mesmo em aproveitar que preciso emagrecer e controlar o colesterol e me mudar de mala e cuia prum filme de superação. Só saio na rua novamente quando estiver saudável, mais  magra e com o cabelo ótimo.  Que cês acham?

Tô fazendo drama, eu sei. Mas me deixem fazer drama, só por hoje. E aproveitem pra me contar uma história de tragédia capilar seguida de uma recuperação feliz pra eu me sentir menos idiota/feia/ boba/ desesperançada.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Só por ela ser






"Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera
Ser o verão no apogeu da primavera
E só por ela ser"

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Eu poderia dizer que o quadro do Picasso me fez pensar, mas não seria verdade. O estalo veio mesmo das pessoas, do fato de ter tantas pessoas desconhecidas por perto.  Parada ali, no meio daquele salão cheio de quadros, me dei conta de que há muito tempo eu não via tanta gente, não fazia parte de uma multidãozinha. Já havia notado antes, relendo meus posts aqui no blog, que estava monotemática. Eu só falo de escola, tem um tempo em que só tenho sido professora. Nunca ousarei dizer pros outros, mas aqui posso dizer: eu gosto do lugar em que trabalho, gosto do que faço, tô muito bem. É tão confortável ter a sensação de que você tá no lugar certo.E a gente se agarra ao que é bom  porque é mais fácil . A rotina, os horários, o livros didáticos, o dia da ortografia dão uma sensação de que as coisas estão bem ajeitadas, de que posso controlar alguma coisa nessa vida. É uma ilusão, eu sei.  Mas é a ilusão que, muitas vezes, faz a gente ficar um tantinho mais forte, faz a gente deslizar pelo que pesa sem afundar tanto.

Poderia dizer que ter Jaqueline tão perto também me fez pensar, e seria uma verdade. Fazia tanto tempo que não éramos do jeito que costumamos ser: ela digitando a senha errada do vale refeição e eu lendo em voz alta demais trechos de livros bonitos na livraria. Ela esteve um ano inteiro longe, de muitas formas longe. Agora, tê-la por perto é como dar corda num relógio antigo. Posso contar pra ela minhas histórias de escola e ouvir sua risada entusiasmada. Jaqueline tem sido minha ouvinte há muito tempo. 

***

Tô lendo o livro do Stephen King sobre escrita e tenho me lembrado da garotinha que eu era. Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, eu dizia "escritora". Na verdade, na verdade, eu não queria ser qualquer escritora, queria ser igual à Agatha Christhie. Queria escrever livros que todo mundo lesse, queria fazer com que alguém sentisse o que eu sentia quando lia Agatha. Imagina você escrever um troço e uma pessoa que você nem conhece ficar louca de curiosadidade/ encantamento/ tristeza/ alegria só porque leu o que você escreveu...

Tô ainda no comecinho do livro do King...

***

Comprei muitos livros nos últimos meses, mas não tenho lido nada. Daí hoje eu nem queria entrar na livraria pra não cair em tentação. Não preciso de mais livros: tenho um kobo, toda uma estante no meu antigo quarto em Nova Iguaçu, uns vinte livros no chão do quarto atual. Mas aí eu esbarrrei em dois livrinhos pequenininhos e me faltou o fôlego. De verdade.

Que coisa incrível é isso de alguém escrever um livro lá em outro país, num ano que não é o de agora, e de repente, você abre o livro numa livraria, numa noite qualquer, e perde o fôlego.

Caramba! 

É muito incrível, né?


***

Os livrinhos são esses:








terça-feira, 30 de junho de 2015

A gente sabe que  virou adulta de verdade quando ganha vinho de presente de aniversário. 

Não é?

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Parece que os brigadeiros ficaram bons. Se bem que a opinião de pessoas que recebem bolinhas de chocolate numa manhã de sexta-feira não é lá muito isenta. Devo confessar que precisei de ajuda pra encontrar o ponto perfeito pra enrolar. Liguei pra mãe, pra prima, mas foi a amiga que tava aqui em casa que salvou a receita. A massa voltou pra panela, com mais manteiga e muuuuuuito mais tempo no fogo ( eu não sabia que brigadeiro requer paciência) e, no fim, deu tudo certo.

***

Eu estava certa quanto ao número de festas. Houve mesmo duas na escola - uma na sexta, outra hoje. Para terem uma ideia de como foram essas comemorações de aniversário surpreendentes, imaginem várias pessoas de 11 anos unidas para um propósito, sem orientação direta de um adulto. Imaginou? Então, tipo isso aí mesmo. Uma das festas teve um bolo redondo e muito fofo, tão fofo que se esfarelava, e um outro bolo menor com cobertura de coco. Elogiei os bolos, mas expliquei que preferia comer uma coisinha salgada, então me deram 3 saquinhos de pipoca. Na festa de sexta, não teve bolo. A mãe da menina que ia fazer o bolo chegou muito tarde do trabalho, então cantamos parabéns com  pudim. Achei ótimo.

***

Me pergunto o tempo todo se meus alunos estão me ouvindo de verdade, se estão aprendendo alguma coisa, porque, quase sempre, a sensação é a de que as paredes são mais atentas que eles. Daí acontecem umas coisas que podem até não ser garantia de que seu trabalho tem efeito mas ao menos aquecem o coração. Ganhei um presente delicioso na sexta-feira que se encaixa nessa categoria. Ano passado, eu dei aula prum sétimo ano agitadérrimo, uma turma cheia de alunos que adoro mas que nunca me adoraram na mesma medida. Eles me chamavam de chata, achavam que eu brigava demais, que passava dever demais, que reclamava demais. Dentre esses alunos, há um que tinha o prazer de reclamar de tudo o que eu fazia, de colocar o fone no ouvido quando eu me distraía. Pois bem, no final da aula de sexta, esse adolescente reclamão apareceu na porta da sala que ele não frequenta mais com um tabuleiro de torta salgada. Como eu sei que você não come bolo, professora, fiz uma torta salgada pra você! Meu queixo caiu! Sabe deus quando foi que eu comentei algo sobre não gostar de bolo, mas  fato é que o menino reclamão estava ouvindo. Que bom que ele ouviu, porque a torta estava um absuuuuuuurdo de gostosa. 


***

Minha família também fez festa surpresa, mas nenhuma festa cheia de comida é realmente inesperada numa família na qual esquecer um aniversário é motivo pra ser deserdada. Minha prima também fez torta salgada.

Um aniversário, duas tortas salgadas, três festas: acho que venci na vida.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Quase 26


Tá um frio danado. Sei lá quantos graus, mas sei que é frio suficiente pra eu enrolar um paninho no pescoço. Junho passou por mim tão rápido que nem vi. Têm sido dias amargos e cansados. Pela primeira vez em anos, não passei junho inteiro alardeando aniversário, não pensei em festa. Meus amigos não tavam me reconhecendo. 


Mas a vidinha resolveu me dar uma trégua e a empolgação apareceu por aqui ontem. Na verdade, meus alunos me deram deram empolgação de presente. Eles não sabem que eu sei que vai haver uma festa ( acho que são duas). São as crianças mais incapazes de guardar segredo que conheço; toda hora soltam uma dica. Hoje uma menina me perguntou se eu ficaria feliz se ~de repente~ a mãe de um aluno fizesse um bolo pra mim. Eu apenas ri. Não tive coragem de dizer pra ela que não como bolo. Acho que amanhã  terei de sacrificar meu paladar em nome do bem-estar das crianças.

A energia da preparação da surpresa me alcançou. Comecei uma contagem regressiva tardia. Tô aqui tentando descobrir como se faz brigadeiro. A festa é surpresa, mas não custa colaborar, né? Dizem que qualquer um faz brigadeiro. Não sou qualquer um. Nunca fiz brigadeiro na vida. Torçam por mim. Mando notícias em breve.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

domingo, 31 de maio de 2015

Minha rainha, meu tesouro

A vontade de escrever esse post me surgiu na noite do dia das mães, mas só agora começo a escrevê-lo. O nome disso é preguiça, vocês sabem. Pelo menos, ainda é maio. Não tenho nada contra o dia da mães, aliás comemoro todos os anos. Minha família se reunia lá em casa, sempre tinha churrasco, às vezes eu dava presente pra minha mãe. Esse ano, minha mãe teve de trabalhar, então a gente foi jantar no sábado mesmo, e eu passei o domingo sozinha, com o notebook na mão, vendo as declarações de amor que as pessoas fizeram para suas mães. O Facebook no dia das mães me deixa meio deprimida. Longe, muito longe de mim, julgar o que as pessoas escrevem no Facebook. Depois que anunciei a morte e o enterro da minha vó por lá, entendi  porque tanta gente escreve coisas mais ou menos íntimas naquela rede social. Às vezes, a gente só quer  um jeito mais fácil de todo mundo saber. Eu tô aqui num blog diarinho falando coisinhas da minha vida. As pessoas no Facebook só querem falar das suas vidas também. Acho que é simples assim. Mas, vamos ao ponto, por que é que tu falou que fica meio deprimida com o facebook no dia das mães? Vou explicar.

Você abre a rede azul no dia das mães e estão lá umas fotos lindas, uns textos ainda mais lindos, muitos "eu te amo". Eu mal tenho fotos com a minha mãe porque ela não se acha fotogênica. Esse ano, decidi colocar uma foto no perfil e precisei recorrer a uma do início de 2014, porque as poucas mais recentes não eram boas de se apreciar. Tá bem, esqueçamos as fotos? Eu poderia escrever um textinho bonitinho. De vez em quando, eu escrevo umas coisinhas agradáveis, não seria muito esforço escrever  coisinhas agradáveis pra minha mãe. Seria. Quer dizer. Vou explicar: não sei dizer sobre a minha mãe as coisas que são ditas sobre as mães. Minha mãe não é minha melhor amiga, não é uma rainha, nem é um modelo a ser seguido, não é a pessoa mais legal. Passei muitos anos da minha vida sentindo raiva pelos nãos que ela me disse, falei mal dela pras minhas amigas, não sei lidar com muitos aspectos  da sua personalidade. Minha mãe me irrita bastante, reclama bastante, faz o único feijão que eu não consigo comer. Somos muito mais felizes agora que moramos em casas diferentes. Pode perguntar pra ela. 


E não, eu não odeio minha mãe. Não,  eu não a quero  bem  longe mim. Muito pelo contrário. Acho que a gente se dá muito bem, especialmente agora que sou adulta e sei olhar pra ela como os adultos olham uns pros outros. Minha mãe me criou do jeito que sabia, do jeito que foi possível, e eu tô aqui viva, mas não vejo na história dela nada que a aproxime do heroísmo, da linhagem dos guerreiros. Sobre minha mãe, posso dizer coisas ótimas que não têm necessariamente a ver com fato de que ela me pariu e me criou. Ela conserta chuveiros, nunca faz fofoca nem fala mal dos outros, tem muita empatia, não foge das responsabilidades, tem uma ótima percepção das pessoas. Só por conviver com ela, aprendi que livros são um excelente modo de usar o tempo, que posso ir pra onde  quiser e como  quiser, que há coisas que a gente precisa fazer e ponto. Minha mãe é uma pessoa bacana. Muito. E, provavelmente, já era bem bacana antes de eu existir e vai continuar sendo se eu morrer agora. Entende? Não acho que ser minha mãe a torna , incrível, uma pessoa da realeza.

Levei mais de 25 anos pra aprender a viajar com a minha mãe de bom grado, acho mesmo que ela não sai bem nas fotos, raramente dou abraços apertados nela. Escrever texto fofo no facebook no dia das mães seria uma falsidade, mas às vezes me pergunto se minha mãe não espera as declarações públicas, os presente convencionais. Quer dizer. Eu acho que minha mãe não espera nada, não, e eu não sou assim tão preocupada em ser uma filha que escreve textos fofos. Mas o dia das mães no Facebook me faz sentir como aquela menininha que na festa das mães na escola não seguia direito a coreografia que a turma ensaiava. Se bem que eu nem era essa garotinha. Eu era  a menina que mais dançava e se empolgava, mas meio que em vão porque minha mãe trabalhava e as escolas da década de 90 ignoravam as mães que  trabalhavam. Enfim,  mas essa é uma outra história.





Porta que ninguém vai atender






"Meu coração bate sem saber
Que meu peito é uma porta que ninguém vai atender
Meu coração bate sem saber
Que meu peito é uma porta que ninguém vai atender

Quem sente agora está ausente
Quem chora agora está por fora
Quem ama agora está na cama doente
Só corre nunca chega na frente
Se chega é pra dizer vou embora
Sorriso não me deixa contente"

sábado, 30 de maio de 2015

Há uma história triste que não pode ser contada aqui, então vou contar uma história fofa, porque hoje eu preciso de fofices:

Aconteceu ano passado. Os envolvidos são duas lindezas, daquelas pessoas que você queria que fossem suas. Ela é aluna modelo, está se tornando uma adolescente tímida e um dia vai saber usar direitinho o  talento que tem pra mandar em todo mundo. Ele é  moleque malandro, simpático, agitado, inteligente. Esse ano, não são meus alunos e estão em turmas diferentes. Pois bem. Certa vez, um outro menino fofo disse pra todo mundo - inclusive pra mim - que ele gostava dela. Ele não desmentiu; gostava dela sim, mas num passado muitíssimo distante, lá no quarto ano. Ela não disse nada, apenas sorriu tímida, tímida como sempre. Já eu tenho uma opinião formada sobre o assunto, baseada em todo um ano pedindo pra que ele não grudasse tanto a cadeira na cadeira dela.

Houve, então, aquele dia em que passei uma atividade em que precisavam citar  um defeito. Ela, aquela lindeza de menina, levou muito a sério a questão e ficou um tempão pensando. Ele, com a cadeira grudada na dela, escrevia e escrevia concentrado.

- Tá difícil?  - Perguntei porque tava começando a ficar aflita com tanto que ela pensava. - É só colocar um defeito seu.
- Eu não sei.. 
Autoconhecimento não é uma coisa tão fácil assim, né?
- Pensa o que você não gosta em você ou algo que alguém reclama sobre você...
Achei que ela fosse pensar mais um pouco, mas a menina preferiu virar pro menino sentado na cadeira ao lado:
- Diz um defeito meu.
Ele sorriu satisfeito com a solicitação, já tinha uma listinha pronta a recitar. Ela foi mais esperta:
- Só não pode dizer que eu sou chata e feia porque isso você diz todo dia. Responde a sério.
O sorriso do mocinho murchou. Ele baixou os olhos pra seu próprio caderno e respondeu bem rápido, quase não consegui entender:
- Então, você não tem defeito, não.

Uma fofice.

***

Eu conto histórias fofinhas  sobre  escola porque as não fofinhas são quase sempre muito ruins. 

***

Um sentimento recorrente:

 Dez réis de esperança
Antonio Gedeão
Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

***

Bem, a menina  ficou toda vermelha com a resposta que ouviu, mas não se deu por satisfeita, então eu tive que dar uma ajudinha a ela. Contei pra ela que meu maior defeito é ser muito ansiosa e expliquei como isso era chato pra minha vida. Claro que  recorri a uma mentira; eu não poderia dizer pra aluna que meu maior defeito é achar que sempre tô certa. Eu era a professora dela, claro que eu estava sempre certa. A bem da verdade, se eu fosse bem honesta mesmo, diria que o maior defeito, aquilo que me incomoda de verdade é ter um coração blindadinho e muito desconfiado. Não, melhor não! Deixa o " eu sou muito ansiosa" mesmo. 

Ela acabou escrevendo que às vezes queria se expressar com mais clareza e não ter medo de parecer boba. Eu sorri.  Porque, né? Todas nós, meu bem! Todas nós!

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Não consigo dormir porque só consigo pensar nas coisas que não posso controlar. Minha garganta arranha de um nervoso requentado. Fico repetindo sem intervalos, sem fôlego, que não, por cima do meu coração ninguém vai passar, não serei obrigada a condescendências que não quero, não é assim o amor. 


Hoje quis muito silêncio, meu quarto, o livro repetido. Comprei sorvete pra ver se os clichês dos filmes funcionam. A minha cabeça dói. Parece que fui mesmo rasgada.Eu sei que passa. Já estive aqui muitas vezes. Mas, enquanto não passa, faço Emma deitar sobre meus pés e me cubro até a cabeça. Embaixo do cobertor é escuro e quente. Abro olhos e fagulhas douradas riscam o espaço. Respiro e o ar interno do meu corpo se junta ao ar envolto pela coberta. Consegui meu silêncio. Tenho pelo de gato tocando meus pés. Minha garganta arde, mas tá chovendo. Barulho de chuva traz uma esperançazinha pro mundo da gente.

terça-feira, 12 de maio de 2015

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Brincando de resenhar : Rizzoli & Isles

Tô apaixonada pelos livros da série  Rizzoli e Isles, da Tess Gerritsen, e quero que vocês se apaixonem também.

Cliquem no play, aí, gente!

* eu sigo hesitante e apressada
* repetirei  a palavra "estereótipo" umas 317 vezes.
*o segundo livro é O Dominador.
*o canal da Denise é esse aqui ó: Cem anos de literatura - Denise Mercedes. Mas eu me dei conta de que  na verdade foi esse post do blog dela que chamou minha atenção pra série.
* Silvana é a minha roommate.



Esse blog era tão melhor em 2012. Eu não era uma pessoa melhor nem 2012 foi um ano memorável, mas o blog certamente era mais bacana. 

Eu queria ser a blogueira que eu era em 2012. Ignorem os posts de 2015, gente! Vão lá no arquivo e leiam o que escrevi há 3 anos.

****

Se eu escrevo no celular (como agora), há 150% de chance de o post ficar uma bosta.


Fora que o App do Blogger não tem o recurso de alinhar o texto. Fica tudo recuado à esquerda. Que desespero! Odeio posts recuados à esquerda.

***

Dia desses, eu li um post da Maeve em que havia uma observação pequenininha no final, dizendo que ela sentia falta de as pessoas perguntarem por que ela estava escrevendo tão pouco no blog. Eu interpretei essa afirmação  como sintoma de algo que tb sinto: uma crise provocada pela falta de comentários nos posts. Muito me identifiquei com a Maeve.

Pois bem, num mundo ideal, eu teria deixado um comentário dizendo que sinto mesmo falta de mais posts dela, que leio tudo que ela escreve assim que vejo atualização. No mundo real, li o post, adorei, continuarei lendo o blog da Maeve, mas não deixei nenhum comentário. Eu dificilmente deixo comentários nos blogs. Quanto mais gosto de um blog, menos comentários eu deixo. Eu nunca tenho o que dizer sobre nada, imagina sobre um texto tão legal que a pessoa disse tudo.


Gosto de acreditar que vocês são como eu. To imaginando vcs lendo esse post silenciosamente, depois fechando a página e pensando: gosto tanto do Fina Flor, tomara que a Ju escreva logo outro post pra eu voltar aqui.

Não decepcionem a minha imaginação, por favor!

***
O blog tem essa página no facebook, cujo link tá aí do lado, e, dentre as pessoas que curtiram a página, há alguém que tem um nome composto formado pelo meu nome e o nome da minha mãe. Eu acho tão incrível que exista alguém com o nome assim. Minha mãe ia gostar de saber da existência dessa porque nossos nomes foram primeiro os nomes das avós dela. 

Vou contar pra minha mãe!

***
Assim que publicar esse post, vou abrir o Blogger no computador e alinhar o texto. Não consigo me concentrar na vida se tiver um texto desalinhado no Fina Flor.

Não fica melhor tudo alinhadinho?

Fica sim!

domingo, 3 de maio de 2015

Ainda sobre semelhanças

Entrei na sala dos professores e minha colega disse: 

- Você assim, entrando, de longe, pareceu um pouco com a K.

E eu me dei conta de que o post anterior está incompleto.  K. é a minha chefe, e a frase que  eu mais ouço no trabalho é " eu pensei que fosse a K." Minha chefe e eu temos em comum a cor da pele, o tipo de cabelo e nada mais. Ela é uns 20 anos mais velha, eu sou 20 quilos mais gorda. Somos muito diferentes. Mas os alunos vivem me confundindo com ela, especialmente quando tão subindo as escadas, fazendo merda.

- Ih, lá vem K. ! Corre! 

 E saem todos desembestados escada acima. Ninguém quer que a diretora te veja brincando de lutinha nos degraus do terceiro andar, então todo mundo corre quando aparece o vulto de uma mulher de pele escura e cabelo preto e curto. Mas sempre tem um mais atento que percebe que aquele vulto é mais encorpado, que a voz que tá brigando é mais aguda:

- Não é a K., não! É  só aquela professora de português.

aquela professora de português!

Que bom que a minha autoestima está em dia, né? 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Minha cara

Sempre acontece. Alguém chega perto de mim e diz: nossa, você é igualzinha à minha prima/vizinha/colega ou à irmã da enteada do meu avô. Ouço também: Você é irmã/prima/ sobrinha/ qualquer parente da (do) fulaninha (o)? Ouço tanto que já tenho resposta no automático. Não, eu não tenho irmãos de sexo nenhum e não me pareço com nenhum parente meu. E eu não pareço mesmo com os meus parentes mais próximos. Eu não me pareço com a minha mãe.

( não tô sabendo organizar esse post em parágrafos decentes, então vou abrir um outro parágrafo agora porque ninguém merece um blocão enorme de texto)

 Alíás,  se estiverem 3 mulheres numa sala, todas com a mesma idade da minha mãe, e eu pedir  que apontem quem é a minha mãe, tenho certeza de que vão indicar a pessoa errada. Já aconteceu! Quer dizer, não aconteceu, nunca fiz esse experimento. Mas já aconteceu  assim: minha mãe e eu fazíamos parte de um grupo. Esse grupo se via toda semana. Eu não ficava perto da minha mãe quando o grupo se reunia, ficava perto das minhas amigas porque era mais legal ficar perto delas. Passei uns 3 anos nesse grupo. Durante uns dois anos, as pessoas  achavam que eu era filha da moça que sentava do lado da minha mãe. Descobri isso num dia em que falei uma coisa óbvia tipo " peraê que vou perguntar pra minha mãe" e fiz a pergunta pra pessoa sentada ao lado daquela que todo mundo achava que era minha mãe. Uma maluquice!

As pessoas me achavam parecida com a minha vó. Eu nunca achei. Quer dizer, numas fotos minhas lá pelos 6, 7 anos, até vejo umas semelhanças. Mas depois fiquei tão grande e bochechuda que não consigo mais ver semelhança entre mim e a figura pequena da minha vó. A gente tinha vozes parecidas ao telefone, as pessoas confundiam. As pessoas achavam minha mãe em minha vó parecidas. Nunca achei. Minha vó era igualzinha à irmã mais nova dela. Tão parecida que eu me assustava de ver a cara da minha vó no corpo de alguém com um jeito tão diferente. Olhar pra minha tia era como olhar pra uma versão meio desconfigurada da minha vó. Já a outra irmã tem o cabelo e a personalidade bem parecidos com os da minha vó, então todo mundo dizia que eram idênticas, mas nunca foram. As pessoas se deixam influenciar por um corte de cabelo.

( Vou abrir um outro parágrafo. Ainda tô falando da mesma coisa, mas vocês vão sentir falta de um link entre o parágrafo aí de cima e esse novo. Devia ter rolado aquela coisa de articular as partes do texto, mas não rolou!)

Acabei de lembrar de uma história aqui. Eu tava numa van, voltando do trabalho, quando uma mulher olhou pra mim e disse: "poxa, você não levou água lá em casa hoje? Ficamos sem água!" E eu com cara de "hã?". A mulher insistiu: " não lembrada de mim? Sou fulanete! Da rua X." Olha, moça, a senhora tá me confundindo com alguém. " Ué, você não é a menina lá do depósito de água?" Não, não sou! " Mas é igualzinha! Nossa! Muito igual!" tive que contar pra ela que eu trabalhava naquela escola ali atrás, que eu morava muito longe dali, que nunca vendi água pras pessoas. Sempre penso que numa dessas de " mas é igualzinha!" apanho na rua sem saber por quê. Seria bom ter uma cara menos comum.  Seria mais seguro.

( coesão e coerência, mandaram um beijo pra esse post, mas, tudo bem, o importante é sentir vontade de escrever aqui e não largar pela metade!)


Pensei que precisava do conforto que só vem de comida e me veio à cabeça cenouras  - raladinhas, com azeite, huuum... chego a sentir o cheiro. De onde tirei a ideia de que cenoura é comfort food?

Pensei em cenouras e em me enrolar na minha mantinha azul. Pensei em chorar um cadinho mais, depois levantar, ralar cenouras, fazer arroz fresco e comer quietinha. Emma deitada na sua caminha azul ali no canto da cozinha.

Pensei em muito silêncio e no gostinho de cenoura e azeite na boca.

terça-feira, 14 de abril de 2015

- O que você fez no cabelo?
- Penteei.

A pergunta foi feita pela colega. A resposta foi minha.



***
 - Tá bonita! Você não vinha bonita assim quando dava aula pra gente!

 A., 12 anos, minha ex-aluna. Nesse dia, eu tava usando brinco. Nunca lembro de botar brinco às 6h da manhã.

***

Meus sapatos nunca foram muito limpos, mas ficam piores quando uso no trabalho. Minhas horas na escola envolvem muitos pisões no pé, muitos mesmo. Não são pisões violentos, não chego nem a dar gritinhos ao sentir a pressão dos pezões juvenis sobre os meus. São mais esbarrões. Aquelas pessoas de 12 anos não sabem chegar perto de mim sem esbarrar na minha sapatilha rosa mais ou menos limpa.  Olho pra baixo e vejo as marquinhas de tênis na ponta do meu pé. " Meu pé, toma cuidado com meu pé!" Acho que vou fazer uma plaquinha. É uma ideia, hein!

Uma professora horrorosa que tive na faculdade tinha alertado que as pessoas do sexto ano são adeptas do contato físico. São abraços, beijos, um cutucão no cotovelo, um  esbarrão nas costas. A professora falava como se tudo isso fosse uma tortura.

Essas pessoas não conseguem ficar na tua frente quietas. Falam e puxam tua blusa. Falam e se apoiam na teu ombro. Falam e testam a capacidade 
de extensão do teu cabelo. " Teu cabelo esticaaaa, professora! E, se soltar, enrola de novo!" E nisso as mechas puxadas nunca voltam pro lugar em que cuidadosamente as coloquei de manhã. Eu prefiro que não mexam no meu cabelo, sabe.

***

Antes do almoço, lavo as mãos e uma aguinha preta escorre delas. Tinta da caneta pilot. Só não odeio mais a caneta pilot pq usei giz por um ano e nada pode ser pior que sair de uma sala de aula com a roupa cheia de giz. 

***
Eu gosto dos abraços que recebo na escola. Não são torturantes. Muitas vezes são os únicos que recebo na semana toda.