sexta-feira, 6 de março de 2015

Aquilo que também é amor

Durante todo esse tempo em que sou professora, ouvi o mesmo conselho: endureça. As pessoas dizem isso com todas as letras e cheias de boa vontade. Conheço profissionais dedicados e excelentes que repetem: endureça! endureça! endureça! É que a realidade da escola faz isso mesmo com a gente, deixa a gente defendida e cansada. Eu mesma passo os dias dizendo: não me contem as histórias trágicas! Não me interessam as histórias! Essa minha fala é absurda, eu sei, eu sei, eu sei. Eu bem sei que as pessoas  também são a sua história, o seu lugar, as pessoas que têm por perto, mas prefiro acreditar que é possível tratar algumas das pessoas de 12 anos que conheço como tábula rasa. Porque, amiguinhos, a vida é fodamente dura e existem coisas pelas quais as pessoas passam que a gente não consegue ouvir. Eu prefiro não ouvir, não me contem.

Uma aluna do nono ano me disse essa semana que eu tenho fama de alterada. Adorei a escolha do adjetivo. É uma boa alternativa ao escandalosa, maluca, chiliquenta, reclamona,chata.Sou chatíssima, é muito verdade. Se eu mesma tivesse que me definir como professora diria que sou péssima. Tenho a impressão de que aquelas crianças não entendem nada do que digo, e quando entendem fico perguntando se alguém já tinha ensinado antes pra elas. Todo dia eu entro na sala de aula e  acho que tô falando inutilidades pras paredes. Digo frases de efeito como: "nesse momento, não há nada na vida de vocês mais importante que esse ditongo" , mas eu não acredito nisso. Se me dessem a opção, eu seria só uma observadora. O ditongo e os acentos iriam pro inferno (vocês adultos e maduros  que estão lendo esse post também entregam ingenuamente suas vidas e seus  textos aos autocorretores.) Sentaria na minha cadeira bem localizada de professora e ficaria só observando. Esse modelo falido, ultrapassado e cagado de escola é um inferno, mas dentro desse inferno circulam e vivem pessoas e... cara, coisas deliciosas acontecem quando juntam um monte de gente num lugar.  A gente tende a pensar logo nas multidões ferozes, no ambiente de trabalho selvagem, na dureza das relações. Mas eu só consigo pensar no tanto de afeto, no tanto de calor e boa vontade, no tanto de aprendizado não formal que também estão na escola.

Esse ano, escolhi não pegar os mesmos alunos do ano passado. Foi uma escolha consciente. Eu não daria  conta de ver as minhas pessoas de 12 anos se transformando em adolescentes bem na minha frente. Não ia dar certo.Eu ia sofrer muito. Preferi que fossem pro sétimo ano sem mim. Tô aqui bem contente de receber os abraços que um e o outro vêm me dar; vou aproveitando os abraços enquanto a adolescência não aparece pra pulverizá-los. E são esses abraços, os acenos na escada, as visitas que recebo na porta da sala que me fazem perceber  que não sei endurecer. Prefiro não saber das tragédias e das durezas a endurecer.  Vínculos são uma coisa extraordinária, e essa minha profissão cansativa e maluca é danada de boa para torná-los possíveis.




4 comentários:

Paulo Francisco disse...

Vida difícil né!?
beijogrande

Cheshire cat disse...

Quando eu ainda era corajosa e dava aula em colégio também preferia os humanos de 12 anos :)

Claudine Faleiro Gill disse...

Eu pensava isso e tinha medo dos humanos-alunos que tinham mais de 12 anos...aí tive que assumir as turmas do Ensino Médio...e descobri que os humanos-alunos de 15 anos têm histórias fantásticas para contar, que no espaço de uma aula vou da tragédia a comédia várias vezes com eles e que eu também não sei endurecer... Há muita vida na sala de aula...

Aline Aimée disse...

Texto lindo, Ju.
Eu também não endureço, por isso acabei largando.
Não consigo não me envolver psicologicamente com as merdas todas que acontecem numa escola pública e não dei conta.
Mas admiro muito e bato palmas para quem consegue. É sinal de força, querida. E você tem.
Beijo!