domingo, 3 de maio de 2015

Ainda sobre semelhanças

Entrei na sala dos professores e minha colega disse: 

- Você assim, entrando, de longe, pareceu um pouco com a K.

E eu me dei conta de que o post anterior está incompleto.  K. é a minha chefe, e a frase que  eu mais ouço no trabalho é " eu pensei que fosse a K." Minha chefe e eu temos em comum a cor da pele, o tipo de cabelo e nada mais. Ela é uns 20 anos mais velha, eu sou 20 quilos mais gorda. Somos muito diferentes. Mas os alunos vivem me confundindo com ela, especialmente quando tão subindo as escadas, fazendo merda.

- Ih, lá vem K. ! Corre! 

 E saem todos desembestados escada acima. Ninguém quer que a diretora te veja brincando de lutinha nos degraus do terceiro andar, então todo mundo corre quando aparece o vulto de uma mulher de pele escura e cabelo preto e curto. Mas sempre tem um mais atento que percebe que aquele vulto é mais encorpado, que a voz que tá brigando é mais aguda:

- Não é a K., não! É  só aquela professora de português.

aquela professora de português!

Que bom que a minha autoestima está em dia, né? 

5 comentários:

Laís disse...

Fica assim não. Eles ainda vão se arrepender de ter dito isso ou se tornarão adultos idiotas. O que faz com que essa opinião não valha uma pipoca murcha.

Beijo!

Luana disse...

Isso eh muito bizarro, ne? Fui a um casmaento ano passado. As unicas pessoas negras eram eu e uma menina belga (mae belga, pai da ilha da madeira)... Ela eh mais escura do que eu, ela tem os cabelos curtos (o meu eh compridao), eu devo ter uns 10 anos ha mais que ela...

Dali a pouco uma mulher, branca brasileira, veio me perguntar se ela era minha irma. A cor eh mais pro marrom? Entao devem ser parentes...

Isso me incomoda um pouco, sabe? A mulher, dos cabelos pintados de amarelo, nao era tao diferente de outras 5 ou 6 mulheres, tambem com os cabelos pintados de amarelo.... E em momento alguem eu pensei q elas fossem parentes...

Luana disse...

* eu devo ter uns 10 anos A mais que ela... (luana burra)

Annie Adelinne disse...

Fui pesquisar pra comentar aqui, porque eu lembrei de um episódio de The Good Wife em que um homem foi condenado simplesmente porque a vítima não conseguia diferenciar dois caras negros. Ela sabia que ele estava usando uma camise do time da cidade, esse cara negro também estava, então ela o identificou como o criminoso.

Lembro que na defesa eles usaram um estudo que dizia que as pessoas têm dificuldade para estabelecer diferenças entre pessoas de origem étnica diversa - como quando se fala que japonês é "tudo igual".

Até dei uma pesquisada e achei isso aqui: http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=45880&op=all Essa pesquisa diz que as pessoas não conseguem diferenciar por pouco conviver. Será? Eu tenho a impressão de que há tantos negros no Rio (sempre fico abismada quando ando nas ruas aí, por aqui é bastante incomum), e mesmo assim você falou que acontece. Talvez seja uma questão de convivência mesmo, não apenas cruzar com as pessoas na rua, mas se relacionar diariamente com pessoas de outras etnias... Porque dificilmente se vê um negro que não consegue diferenciar dois brancos, mas acontece que os brancos estão em todo lugar, na televisão, na revista, no outdoor... Não é só no caixa do supermercado, a quem vc nem olha nos olhos, ou na pessoa que passa por você na rua, as pessoas que convivem com vc quando vc não está realmente prestando atenção. Acho que os negros são apenas figurantes na vida da maioria das pessoas.

Juliana disse...

Annie, o que é interessante no que que contei é que trabalho numa escola pública numa favela no Rio, ou seja, mais da metade das crianças é negra. No Rio, nas regiões mais pobres e em cargos que exigem menos escolaridade, somos muitos.

Quando escrevi o post, nem tinha pensado em racismo. Foi o comentário da Luana que me chamou a atenção. Na minha escola, deve haver uns 50 professores posso contar nos dedos de uma mão os negros. Mesmo num ambiente como o de uma escola pública, somos poucos professores. Ouço muitos comentários racistas. As crianças não se reconhecem como negras e não sabem lidar com negros que tão em paz com suas características. Vc não tem noção de como meu cabelo incomoda...
não estão acostumadas a ver mulheres negras em lugar de poder, como a diretora. É complicado!

aconteceu uma vez uma situação que eu nem entendi na hora. eu estava no corredor de entrada,conversando com a coordenadora e a diretora adjunta, ambas brancas. entrou uma senhora negra, virou pra mim e perguntou como ela fazia pra trabalhar lá. Eu olhei sem entender. Ela perguntou de novo e aí disse: " tem vaga? Vc tá trabalhando aqui?" Eu fiquei sem entender nada. Primeiro que nunca perguntam sobre coisas administrativas pra professores. Segundo que nunca me perguntaram o que eu fazia na escola. aí a coordenadora percebeu que a moça tava que querendo saber do contrato pra faxineiro. Das pessoas presentes, eu era a única que não sabia de nada sobre faxineiros novos na escola, mas eu era a única negra, então a moça supôs que aquele era o meu cargo.

O racismo tá entranhado na gente.