sábado, 30 de maio de 2015

Há uma história triste que não pode ser contada aqui, então vou contar uma história fofa, porque hoje eu preciso de fofices:

Aconteceu ano passado. Os envolvidos são duas lindezas, daquelas pessoas que você queria que fossem suas. Ela é aluna modelo, está se tornando uma adolescente tímida e um dia vai saber usar direitinho o  talento que tem pra mandar em todo mundo. Ele é  moleque malandro, simpático, agitado, inteligente. Esse ano, não são meus alunos e estão em turmas diferentes. Pois bem. Certa vez, um outro menino fofo disse pra todo mundo - inclusive pra mim - que ele gostava dela. Ele não desmentiu; gostava dela sim, mas num passado muitíssimo distante, lá no quarto ano. Ela não disse nada, apenas sorriu tímida, tímida como sempre. Já eu tenho uma opinião formada sobre o assunto, baseada em todo um ano pedindo pra que ele não grudasse tanto a cadeira na cadeira dela.

Houve, então, aquele dia em que passei uma atividade em que precisavam citar  um defeito. Ela, aquela lindeza de menina, levou muito a sério a questão e ficou um tempão pensando. Ele, com a cadeira grudada na dela, escrevia e escrevia concentrado.

- Tá difícil?  - Perguntei porque tava começando a ficar aflita com tanto que ela pensava. - É só colocar um defeito seu.
- Eu não sei.. 
Autoconhecimento não é uma coisa tão fácil assim, né?
- Pensa o que você não gosta em você ou algo que alguém reclama sobre você...
Achei que ela fosse pensar mais um pouco, mas a menina preferiu virar pro menino sentado na cadeira ao lado:
- Diz um defeito meu.
Ele sorriu satisfeito com a solicitação, já tinha uma listinha pronta a recitar. Ela foi mais esperta:
- Só não pode dizer que eu sou chata e feia porque isso você diz todo dia. Responde a sério.
O sorriso do mocinho murchou. Ele baixou os olhos pra seu próprio caderno e respondeu bem rápido, quase não consegui entender:
- Então, você não tem defeito, não.

Uma fofice.

***

Eu conto histórias fofinhas  sobre  escola porque as não fofinhas são quase sempre muito ruins. 

***

Um sentimento recorrente:

 Dez réis de esperança
Antonio Gedeão
Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

***

Bem, a menina  ficou toda vermelha com a resposta que ouviu, mas não se deu por satisfeita, então eu tive que dar uma ajudinha a ela. Contei pra ela que meu maior defeito é ser muito ansiosa e expliquei como isso era chato pra minha vida. Claro que  recorri a uma mentira; eu não poderia dizer pra aluna que meu maior defeito é achar que sempre tô certa. Eu era a professora dela, claro que eu estava sempre certa. A bem da verdade, se eu fosse bem honesta mesmo, diria que o maior defeito, aquilo que me incomoda de verdade é ter um coração blindadinho e muito desconfiado. Não, melhor não! Deixa o " eu sou muito ansiosa" mesmo. 

Ela acabou escrevendo que às vezes queria se expressar com mais clareza e não ter medo de parecer boba. Eu sorri.  Porque, né? Todas nós, meu bem! Todas nós!