sexta-feira, 10 de julho de 2015

Triângulo

Trabalhar em escola pode ser tudo, menos monótono. Chego em casa todo dia com uma história nova, e o bom é que minha roommate nunca enjoa delas. Na última semana, descobri um enredo muito melhor que Malhação acontecendo entre os alunos do sexto ano. A trama é um triângulo amoroso que tô adorando acompanhar.  Vou contar pra vocês. Os personagens são Carol, Canhotinho e Léo. Os nomes não são exatamente esses, mas foram devidamente inspirados na realidade. Carol é uma menina que pinta o cabelo de roxo com papel crepom, usa presilhas multicoloridas, só tira boa nota e aparece todas as manhãs com um saco de papel cheio de pirulitos. Canhotinho é moleque agitado, meio exibido e artilheiro do time mirim de futebol. Léo faz todos os deveres, chega do recreio  suado de tanto correr e usa um penteado maravilhoso. Todos os envolvidos têm 11 anos. Léo e Canhotinho são colegas de turma; Carol estuda na sala ao lado.

Numa manhã qualquer dos últimos meses, Canhotinho me contou que namorava uma menina da  outra turma e me perguntou se eu sabia quem era a Carol. Já estou acostumada a ser atualizada sobre os romances que acontecem na escola. Pessoas de 11 anos adoram se apaixonar umas pelas outras e sentem um prazer especial em falar sobre amores eternos e possíveis casais. Como boa fofoqueira que sou, ouço todas as histórias com muita atenção. Registrei, então, que  Carol e Canhotinho namoravam. Antes de prosseguir, devo advertir vocês que, tendo por base as observações feitas no meu ambiente de trabalho, namorar é um termo usado sem critérios muito definidos, sabe. Sei de um monte de gente que se conheceu no Facebook, namora por whatsapp, mas nunca se viu porque estuda em turnos diferentes e mora em bairros diferentes. Platônico, não? No sexto ano, namorar, na maior parte dos casos, é mais um sentimento que uma ação.  Mas vamos voltar à história. Pois bem, uns dias depois, eu ouvi a Carol falando toda encantadinha do Léo. Opa! Sinal de alerta! , mas ela não namorava o Canhotinho? Foi aí que eu descobri que Carol não namora ninguém; a mãe dela anda não liberou namoro. Carol e Canhotinho estudam juntos desde o quarto ano e desde então o menino vem dizendo que eles são namorados. Eu disse que namorar é um conceito muito complexo nesse contexto, não disse? Me faz lembrar do dia em que Vinicinho viu  um trenó num daqueles maravilhosos desenhos do Discovery Kids e disse animadaço: "É igual ao meu, só que eu não tenho!"

Aula vai, aula vem,  as festas juninas chegam e  eu fico incumbida de arregimentar dançarinos pra quadrilha da escola. Em meio aos interessados, Léo, discreto que só ele, esperou o final da aula pra   me perguntar se alguém da sala ao lado também ia dançar. 

- Alguém quem?
O menino ficou absurdamente vermelho, mas não se entregou:
- Qualquer pessoa. Vai ter gente da outra turma?
- Vai! Tem um monte de gente dançando.
Ele não disse nada. Voltou pra carteira, guardou as coisas na mochila, andou bem devagar pela sala, quase cruzou a porta. Não aguentou:
- E a Carol? Ela vai dançar?
Coisa mais fofa é ver um tímido sendo movido pela coragem. Eu apenas sorri e confirmei com a cabeça.

Ouvindo daqui, ouvindo dali, descobri muitas coisas. Carol e Léo pegam o mesmo ônibus e ela, num ímpeto de ousadia, foi lá e sentou do lado dele. Carol não odeia Canhotinho nem nada, mas também não gosta muito dele porque o menino vive puxando o cabelo dela, gritando chatices, estragando o jogo de uno das meninas. Eu já vi Canhotinho sendo chato com Carol e cheguei até a dar uns conselhos pro rapazinho. Disse pra ele aquele óbvio que um monte de adultos parece não saber: a gente trata bem  as pessoas de quem a gente gosta. Aí o menino partiu o meu coração:

- Mas, professora, ela me odeia, não me dá atenção nem liga pra mim. 

Tão jovem, tão sofrido, tadinho! Mas dá pra entender a rejeição de Carol, né? Fica muito difícil defender o Canhotinho. Se bem que ele é um menino esperto. Depois de ouvir meu conselho, que se aplica a todas as pessoas do mundo (espero que ele tenha entendido isso), o moleque tá se esforçando pra ser menos inconveniente, mas eu pressinto que a batalha esteja perdida.  Hoje aconteceu o primeiro ensaio da quadrilha. Carol e Léo estavam lá. No começo, restou ao Léo, a tarefa intragável de ser o par da professora (eu! o/ ). Carol fez dupla com uma de suas amigas. Aos poucos, o cenário foi mudando. No meio de tantas trocas de par e lugar, Carol e Léo ficaram lado a lado na grande roda. Notei que não havia muita coragem pra um segurar a mão do outro, ali na frente de todo mundo. A grande roda esteve meio cambeta naquele cantinho. Acho que ficar perto já bastava aos dois. Uma hora e meia de confusão e pisões no pé se passou até o momento em que a lista dos pares definitivos teve que sair. Fui perguntando pra todo mundo: quem vai ser o seu par? Quem vai ser o seu par?  Deixei a Carol por último. A menina não me decepcionou. Bochechas vermelhas, sorriso envergonhado, mas muito decidida:
- O Léo vai dançar comigo!

E eu acabei ficando sem par.



7 comentários:

Cheshire cat disse...

Adorei a história e o "é igual ao meu só que eu não tenho" :)

Vanessa Carneiro disse...

own. *.* Tadinho do Canhotinho, mas estou torcendo pro Léo.

Cíntia Ribeiro disse...

Que fofos! Mas confesso que torci por Canhotinho.

Maeve disse...

Você sempre escreve tão bem!!!

Claudine Faleiro Gill disse...

Adoro histórias de amor dos alunos! Eu trabalho com o 1º ano do Ensino Médio e as histórias dos alunos são muito boas também!
Canhotinho vai aprender que puxão de cabelo não é charmoso!

Milla disse...

Ai, fico de coração apertado com esses sofrimentos juvenis.

livroseoutrasfelicidades disse...

Ownnn, que fofos! Pode ser vida real ou pode ser um lindo conto, né, Ju?