sábado, 15 de agosto de 2015

Duas ex-alunas minhas morreram esse ano.  Ambas tinham 13 anos, ambas frequentaram a mesma turma de sexto ano, ambas saíram da escola muito antes de eu me apegar a elas como sou apegada aos outros todos. Lembro do nome e sobrenome das duas, sei em que lugar sentavam na sala, nunca cheguei a saber muito mais. Uma delas morreu nessa semana, atropelada. Um fone de ouvido e o hábito de atravessar a rua no lugar errado facilitaram a ação de um ônibus que vinha em alta velocidade. Pelo menos, foi essa a história que me contaram, porque o acidente não foi noticiado em jornal nenhum. Eu sei o que as alunas assustadas me contaram. A morte de alguém jovem é tão difícil de entender. A melhor amiga da menina desmaiou, eu senti um aperto duro no peito. Mesmo os que não a conheciam estão impressionados. Poderia ter sido qualquer um desses adolescentes que andam  com os fones berrando no ouvido, surdos pros sons do mundo. Poderia ter sido eu, que "piso nos astros, distraída" sempre.


Dia desses, Silvana me disse que eu deveria falar no blog sobre como o enterro da minha vó foi leve. Escrevi tantos posts sobre o luto, e ela acha que seria bom contar de como ficamos sentados num canto do cemitério, eu e os amigos mais chegados, rindo tão alto que alguém  fez "chiuuu' pra gente. Contar que minha mãe e eu rimos quando uma mulher que ninguém conhecia se postou ao lado do caixão e beijou dramaticamente a testa da minha vó. A mulher era uma prima que minha mãe e meus tios não viam desde a adolescência. Contar que no momento em que o caixão era baixado na cova o celular da minha tia tocou descontroladamente. Ah, sim, pra agradar Vinicinho, minha tia costumava usar Ah lek lek lek como ringtone. Contar de como essa mesma tia ficou desesperada quando viu minha prima comendo a empada que Jaqueline trouxe do shopping. Não come coisa do cemitério, pelo amor de Deus! Tá tudo contaminado com as doenças de quem tá enterrado aqui!

Minha vó era uma mulher de 75 anos, com um coração  tão grande que pressionava os pulmões, uma vesícula cheia de pedras, um rim comprometido, níveis incontroláveis de glicose no sangue, pressão altíssima. Ela passou um mês inteiro no hospital,  antes tinha passado maus bocados em casa. A morte dela foi um alívio para nós. Não estou sendo cruel, é verdade. Ver alguém sofrer e saber que não há nada que possa ser feito é pior que o inferno, é um inferno com doses cavalares de angústia. Durante o período em que minha vó esteve internada, minha cabeça doía de uma dor frequente, pulsante, cansativa. Doía, doía, doía. No dia do enterro, a dor não estava mais lá. O inferno tinha acabado.

Não consigo (e  nem quero ) imaginar como é o enterro de uma menina de 13 anos que morre de um jeito tão.. sei lá... Dois segundos teriam evitado a morte. Se alguém tivesse por perto pra dar um puxão na menina...Se alguém tivesse conseguido fazer um sinal pro motorista do ônibus... Se ela tivesse atravessado no sinal... Se ela tivesse esquecido de carregar o celular naquele dia...

A morte poderia riscar da sua lista meninas de 13 anos distraídas.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Roommate



Num dia desses aí da vida, Sil virou pra mim e perguntou:

- Será que os vizinhos acham que a gente é um casal?
- Será? Acho que não.
- Ué, por que, não? Ninguém sabe nada da gente. Veem duas mulheres morando juntas, podem pensar que a gente é um casal.
- Ah, eu acho que não! Se bem que as pessoas estranham quando eu digo que moro como uma amiga. Percebo que as pessoas ficam meio desconcertadas.
- É porque elas acham que essa amiga não é uma amiga.
- Que isso? Ninguém vai ser casada com uma pessoa e dizer pros outros que mora com uma amiga. Isso não tem o menor sentido. 

O diálogo não foi bem assim, mas vamos fingir que foi. Dia depois, eu tava lendo um jornal e uma colunista contava que uma de suas tias morou durante anos com uma amiga "especial". Todos na família sabiam da natureza romântica daquele relacionamento tão duradouro, mas, para todos os efeitos, as duas mulheres eram apenas roommates muito íntimas.

A minha ingenuidade é uma coisinha bonitinha, né?

***

Dias desses, veio um moço aqui em casa ver a gatinha pra qual estou procurando um lar. Vieram ele e o filho. Conversei com os dois, simpática, falei da gatinha e tal. Passados uns dez minutos de papo, chegou Silvana, vinda da rua, falando como uma matraca como sempre, ocupando o lugar dela na casa. O moço olhou pra mim, olhou pra ela e perguntou se éramos irmãs. Silvana sorriu, e eu disse a verdade: somos amigas. Não tenho habilidade pra descrever a cara que o moço fez.As pessoas sempre fazem essa cara quando digo que moro com uma amiga. Sempre. É engraçado.

***
Silvana e eu somos amigas há mais de 10 anos e fazemos parte de um grupo de amigos que vêm se tornando adultos juntos. Nunca imaginei que ela e eu moraríamos na mesma casa, mas aconteceu e estamos vivas até então. Dividir a casa com uma amiga não tem nada a ver com ser Monica e Rachel. Não é difícil nem doloroso, mas é diferente, muito diferente da amizade de sempre. Morar com alguém torna as características que você já conhecia muito ampliadas; é muito maluco. E saber lidar com essa nova perspectiva, saber dosar o tom da intimidade, respeitar o espaço da outra é complexo, exige que você reaprenda a se relacionar com alguém que você conhece há uma década.

Exemplo: eu passei toda minha vida ouvindo minha mãe e minha vó reclamarem da minha cara feia e sempre achei que elas tavam fazendo drama. Daí vim morar com a Sil e a minha cara feia entrou em pauta novamente.  Silvana diz que nunca sabe o que significa a minha cara feia. Então, minha mãe e minha vó não eram tão malucas assim, né? A não ser que a Silvana também seja maluca, Mas  acho que não é o caso. Ela tem razão - e que bom que minha mãe não lê esse blog. Eu sempre acordo de cara feia, depois a cara melhora, mas pode voltar a ficar feia a qualquer hora do dia. Minha cara feia pode ser fome, cansaço ou dor de barriga, geralmente é uma combinação dos dois primeiros. Deve ser meio chato mesmo  pra quem está fora da minha cabeça acompanhar o processo de mudança de cara.

Agora consigo ter uma ideia de por que casamentos acabam, viu!

***

Se fosse pra escolher, Silvana seria Monica e eu seria Rachel.  Eu sou uma Rachel menos mimada, bem menos bonita e com alguma intimidade com as panelas, claro. 

Silvana sabe desentupir vasos sanitários, tem uma técnica infalível pra tirar pelo de gato da roupa e desenvolveu um sistema de acomodação e transporte das compras do mercado que não pode ser questionado. Monica, muito Monica, não é?