segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Roommate



Num dia desses aí da vida, Sil virou pra mim e perguntou:

- Será que os vizinhos acham que a gente é um casal?
- Será? Acho que não.
- Ué, por que, não? Ninguém sabe nada da gente. Veem duas mulheres morando juntas, podem pensar que a gente é um casal.
- Ah, eu acho que não! Se bem que as pessoas estranham quando eu digo que moro como uma amiga. Percebo que as pessoas ficam meio desconcertadas.
- É porque elas acham que essa amiga não é uma amiga.
- Que isso? Ninguém vai ser casada com uma pessoa e dizer pros outros que mora com uma amiga. Isso não tem o menor sentido. 

O diálogo não foi bem assim, mas vamos fingir que foi. Dia depois, eu tava lendo um jornal e uma colunista contava que uma de suas tias morou durante anos com uma amiga "especial". Todos na família sabiam da natureza romântica daquele relacionamento tão duradouro, mas, para todos os efeitos, as duas mulheres eram apenas roommates muito íntimas.

A minha ingenuidade é uma coisinha bonitinha, né?

***

Dias desses, veio um moço aqui em casa ver a gatinha pra qual estou procurando um lar. Vieram ele e o filho. Conversei com os dois, simpática, falei da gatinha e tal. Passados uns dez minutos de papo, chegou Silvana, vinda da rua, falando como uma matraca como sempre, ocupando o lugar dela na casa. O moço olhou pra mim, olhou pra ela e perguntou se éramos irmãs. Silvana sorriu, e eu disse a verdade: somos amigas. Não tenho habilidade pra descrever a cara que o moço fez.As pessoas sempre fazem essa cara quando digo que moro com uma amiga. Sempre. É engraçado.

***
Silvana e eu somos amigas há mais de 10 anos e fazemos parte de um grupo de amigos que vêm se tornando adultos juntos. Nunca imaginei que ela e eu moraríamos na mesma casa, mas aconteceu e estamos vivas até então. Dividir a casa com uma amiga não tem nada a ver com ser Monica e Rachel. Não é difícil nem doloroso, mas é diferente, muito diferente da amizade de sempre. Morar com alguém torna as características que você já conhecia muito ampliadas; é muito maluco. E saber lidar com essa nova perspectiva, saber dosar o tom da intimidade, respeitar o espaço da outra é complexo, exige que você reaprenda a se relacionar com alguém que você conhece há uma década.

Exemplo: eu passei toda minha vida ouvindo minha mãe e minha vó reclamarem da minha cara feia e sempre achei que elas tavam fazendo drama. Daí vim morar com a Sil e a minha cara feia entrou em pauta novamente.  Silvana diz que nunca sabe o que significa a minha cara feia. Então, minha mãe e minha vó não eram tão malucas assim, né? A não ser que a Silvana também seja maluca, Mas  acho que não é o caso. Ela tem razão - e que bom que minha mãe não lê esse blog. Eu sempre acordo de cara feia, depois a cara melhora, mas pode voltar a ficar feia a qualquer hora do dia. Minha cara feia pode ser fome, cansaço ou dor de barriga, geralmente é uma combinação dos dois primeiros. Deve ser meio chato mesmo  pra quem está fora da minha cabeça acompanhar o processo de mudança de cara.

Agora consigo ter uma ideia de por que casamentos acabam, viu!

***

Se fosse pra escolher, Silvana seria Monica e eu seria Rachel.  Eu sou uma Rachel menos mimada, bem menos bonita e com alguma intimidade com as panelas, claro. 

Silvana sabe desentupir vasos sanitários, tem uma técnica infalível pra tirar pelo de gato da roupa e desenvolveu um sistema de acomodação e transporte das compras do mercado que não pode ser questionado. Monica, muito Monica, não é?



7 comentários:

Luana disse...

Eu sou do tipo que quando alguem conta que mora com um amigo/a eu nao penso nada de mais... Quer dizer, nao que tenha algo pra pensar, mas eu nao faco essa associacao de que o amigo eh "amigo"...

"tem uma técnica infalível pra tirar pelo de gato da roupa" - qual?

Juliana disse...

Ela usa ima daquelas luvas amarelas de uso doméstico. Vc passa na roupa, no sofá, ma cama. Saí tudo! E olha que eu tenho um gata branca.

Luciana Nepomuceno disse...

se ela souber mexer na furadeira, vou abrir concorrência.

Vanessa Carneiro disse...

Pra mim, amigo é amigo. Se você me disser que mora com uma amiga é isso mesmo que vou achar, talvez eu também seja meio inocente.

Quando era adolescente eu e algumas amigas planejamos de morar juntas, não sei se teria dado muito certo.

Esse teu post me lembrou uma vez em que eu fui encontrar com Carol (minha prima) no cinema. Eu cheguei atrasada e ela já tava comprando os ingressos aí eu cheguei pedindo desculpas pelo atraso, só que eu chamei ela de "meu amor" e a cumprimentei com o beijo. Cara, a mulher que tava do lado dela achou que éramos um casal e olhou pra gente de cara feia.

Juliana disse...

Sabe usar, sim, Lu! Furadeira, aquele troço que prende parafuso, ainda pinta paredes...

Cheshire cat disse...

Se a pessoa me diz que mora com um amigo eu acho que ela: mora com um amigo, oras.

Eu já dividi apartamento, mas nunca com amigo, amigo de verdade. E detestava. Meu problema é que eu sou uma bagunceira com limites, então gente muito organizada se estressa comigo e gente muito bagunceira me estressa, daí fica difícil.

Mas eu sou incapaz de deixar louça na pia e acho que isso já faz de mim uma ótima candidata a roommate.

Aline Aimee disse...

Nunca pensei nessa questão!
Se você me diz que mora com uma amiga eu acredito, ué.
"A minha ingenuidade é uma coisinha bonitinha, né?"
As pessoas são muito desconfiadas...
Quero a dica pros pelos de gatos.

Beijo!