quinta-feira, 24 de março de 2016

Falta um pedaço

Os alunos são uns interessados na nossa vida. Querem saber se a professora tem marido, tem filhos, onde mora, por que não compra um carro. Eu particularmente sou um caso que deixa as crianças um pouco confusas. Sou uma mulher de "não tenho". 
Não tenho marido.
Não tenho filhos.
Não tenho carro.
Não tenho irmãos.

Mas o "não tenho" que mais causou comoção foi descoberto nessa semana. Um grupinho estava comentando o capítulo de uma novelinha infantil do SBT. A discussão rolava acaloradíssima, e alguém achou por bem pedir a minha opinião. Primeiro, eu disse que não conhecia a novela. Como assim, professora? Como assim? Todo mundo no universo e em todas as dimensões conhece essa novela.  Diante de tanto espanto, resolvi explicar o motivo da minha ignorância:

- É que eu não tenho televisão.

Silêncio. Todos  na sala olharam pra mim. Todos os olhos se arregalaram. Todas as bocas se abriram. Uma chuva de perguntas desabou sobre mim:

- Por que você não tem? Quebrou? Está no conserto? 
- Não, gente! É que eu me mudei, saí da casa da minha mãe e nunca comprei. 

Talvez se eu tivesse falado em grego, eles teriam entendido melhor. 

-Como assim? Como Assim?
- Gente, não tenho, ué. Não me faz  falta. Não gosto muito de novela, não vejo o jornal. Se eu quiser ver alguma coisa, posso achar na internet.

Minhas palavras entraram por um ouvido e saíram por outro. Continuaram todos chocados, e a televisão que não tenho virou tema do dia. Ainda tentei argumentar, explicar, mas decidi me calar depois de ouvir a sentença, proferida por uma criatura que ainda não chegou à segunda década da vida:

- Professora, você precisa de uma televisão. sua vida está incompleta.

P.S.: Eu não tenho netflix. Cancelei porque pagava e não usava.




quinta-feira, 10 de março de 2016

Acontece muito de eu estar subindo as escadas do colégio depois do recreio e alguém vir reclamar que o fulano tá implicando/puxando o cabelo/ tirando meleca do nariz e passando na blusa da colega. Daí que ontem eu tava lá subindo as escadas ( que são muitas) e equilibrando minhas tralhas  (que são muitas também), quando uma menina do sexto ano me puxou pelo braço e disse:

-Tia, o fulaninho ficou o recreio inteiro incomodando a gente. 

A menina não estava só, umas três outras meninas estavam lá com ela. As três sacudiram a cabeça, ratificando a fala da outra.

- Ah, é? O que ele tá fazendo? Vou conversar com ele.

- Ele tá  chamando  a gente de criança porque a gente trouxe boneca pra brincar no recreio.

Por um segundo, achei que tinha entendido errado. Elas têm 11 anos. Todo mundo diz que as meninas dessa idade não brincam de boneca.

- Vou conversar com ele. Pode deixar.

A menina continuou ainda inflamada:

- É, professora ( ainda estamos na fase de alternância entre tia e professora), briga com ele. Manda ele deixar a gente me paz. Porque a gente brinca de boneca, mas a gente não é criança.

É, não são, não!