sábado, 14 de maio de 2016

Mesmo calada a boca, resta o peito

"Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado" *

Comecei várias vezes esse post. Escrevi uns parágrafos e apaguei. Postei um vídeo e apaguei. Há tanta coisa que eu queria dizer, mas não consigo levar ao fim um texto elaborado. As palavras ainda não superaram a angústia. Deixei então que o Chico dissesse por mim - ele, de quem nem gosto tanto; essa música, na qual nunca prestei muita atenção e que andei cantarolando tanto essa semana.

Tenho me sentido tão confusa, com medo de ser ingênua, me sentido tão ignorante por saber tão pouco de política, de história, de economia, de direito e direitos. Sou uma mulher adulta, uma nascida em 1984, mas por esses dias tenho me sentido como uma criança vulnerável. As pessoas falam em luta, em não aceitar calados, mas acho primeiro que terei que me desacostumar com o que sempre pareceu tão sólido. 

Mas já tenho planos pra quando quando conseguir organizar a cabeça: serei uma pessoa de argumentos. Tenho vivido baseada nos valores que me minha mãe me ensinou e no aprendizado que a experiência enfia goela abaixo. Não dá mais pra acreditar na ilusão de que só isso basta. Vou me apropriar dos rótulos, porque esses primeiros dias já nos mostraram que não serão tempos de sutilezas.


P.S.: Ah, eu moro no  Rio de Janeiro, e isso significa estar duplamente ferrada. 

* acho que Chico Buarque e a sua Cálice não precisam de apresentação, né? Na verdade, eu cantarolo a versão que os alunos de São Paulo fizeram






3 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

cara, te amo.

eu sou uma década mais velha, mas também vivia achando que os valores bastavam. eu sou ruim de argumento, porque me parece óbvio: respeito, óbvio; liberdade, óbvio; garantia da humanidade de todos, óbvio. Mas não, né. Temos que saber os números. E, mesmo assim...

beijos, beijos, saber você, saber as pessoas me fortalece <3

Palavras Vagabundas disse...

Eu sou 3 décadas mais velha e tudo que parecia tão sólido e que muitos lutaram para chegar se desfaz no ar. Tenho medo, muito medo, mas acho que lutar sempre vale a pena. Não estou otimista, mas sou otimista na luta. Beijos

Fernanda disse...

Entendo, Ju. O sentimento por aqui tá parecido... Mas tamo junto. Te deixo tb com Chico: Amanhã há de ser outro dia...