segunda-feira, 6 de março de 2017

Favoritos

Há dois anos, eles eram os meus favoritos. Eram os que mais me davam prazer de trabalhar: inteligentes, comprometidos, fofinhos, simpáticos, organizados, bonitinhos demais. Eu gostava deles, eles gostavam de mim. Gostavam tanto que me deram uma festa de aniversário quando já não frequentávamos a mesma sala de aula. Poucas vezes me senti tão, tão querida.

2017, eles estão no oitavo ano e voltamos a estar na mesma sala. Não foram necessárias apresentações no primeiro dia de aula, nós nos conhecemos. Ainda são inteligentes, interessados, simpáticos. Mas eu não estava preparada  para encontrar a adolescência naquelas pessoas . A adolescência, essa malvada, que  tira da gente as crianças fofas e  adoráveis e deixa no lugar pessoinhas maiores que você, com  vozes desafinadas e hesitantes, especialistas em revirar olhos pra tudo o que você diz. Eu respiro e eles reviram os olhos. Eu leio um texto e eles reviram os olhos. Tô aqui pensando em procurar no mercado livre um escudo especializado em proteger os adultos desse gesto tão opressor.  Me sinto tão pequenininha quando eles, todos eles, me olham assim. 

 Às vezes, tenho certeza de que eles me odeiam. Só não acho isso o tempo todo porque o meu afeto não deixa.  Só por isso.


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