A gente não se acostuma a ver tanto sofrimento.É rotina, não há nenhuma novidade nas enchentes no Rio de Janeiro,porém quem é capaz de não sentir um peso no coração ao ver tanto sofrimento? Pessoas morrendo, pessoas perdendo entes queridos, pessoas perdendo suas casas.
O que mais se tem ouvido é " Pra que o cara constrói uma casa num lugar perigoso?" ou " Por que as pessoas não saem logo dessas casas que estão condenadas? " .A gente fica indignado com a resistência das pessoas em deixar suas casas que parecem penduradas nos barrancos ou que ficam inundadas por água imunda e lixo, mas é fácil falar quando se está quentinho e protegido numa casa segura.
A casa da gente não é só um amotoado de tijolos e concreto. Antes fosse. O lugar onde se mora é um pouco da nossa história, um pouco do que a gente é.Ainda mais se foi construído desde o alicerce ou pago em prestação em prestação. Seja rica e luxuosa, seja simples e modesta, nossa casa é o nosso lugar, o nosso " reino". O espaço onde estamos mais à vontade, onde guardamos nossos objetos mais valiosos, onde moram aqueles a quem ,na maioria das vezes, queremos bem.
Ver a casa da gente descer morro abaixo ou deixá-la para trás não deve ser nada fácil. Tem de se ter coragem, porque mais que tijolo, está se deixando pra trás, um abrigo, o nosso abrigo. Me parte o coração ver toda aquela terra sobre as casas das pessoas,m esmo quando ninguém morreu por causa do desabamento. Nem consigo me imaginar numa situação dessas.
Aqui onde moro é comum ter enchentes,mas minha casa , localizada numa parte mais alta, não é afetada. Dessa vez, graças às obras da prefeitura, nada aconteceu . Mas muitas pessoas, inclusive da minha família, já perderam móveis, roupas, fotos, lembranças.
Na última enchente grande, vi uma cena que me tocou muito. Passei em frente da casa de uma conhecida e estavam lá na calçada, molhados e destruídos, uma boa parte dos livros dela. Livros de faculdade, livros do colégio, livros ganhados. Aqueles livros contavam um pouco da trajetória dessa minha conhecida. Todos eles tinham uma história. Imagina o que é ter de deixar o lixeiro levar um pouco da sua história. São só livros, eu sei. Depois se compram outros. ok! Mas um pouco do que eles representavam acaba indo embora também.
Livro é só um amontoado de papel. Casa é só um amontoado de tijolo.Beleza! Mas a gente deposita nesses bens materiais um pouco de quem somos. O apego ao que é material é lícito, é um humano, na medida em que o que acumulamos , o que construímos é também a marca que deixamos no mundo.
Muito angustiante isso tudo.
E essa chuva que não para... O tempo por aqui tá muito instável. Num só dia, faz sol forte, chove pesado, depois fica garoando e o frio, muito frio.
Enfim...