domingo, 18 de março de 2012

Aquela pessoa

Eu tenho um desejo que carrego há anos. Sabe quando você entra num recinto e vê aquela pessoa sentada num canto? Aquela pessoa  com um cabelo estilosamente bagunçado, com um tênis/ sapatilha simpaticamente não muito limpo, óculos legais, um livro cuja  capa você não consegue ver? Aquela pessoa que mal respira enquanto lê, que não dá a mínima se a pessoa do lado dela tá aos berros no celular, que coça a cabeça distraidamente  e pisca ritmado? Eu queria ser aquela pessoa.

Aquela pessoa tem um ar de mistério tão fascinante. Você olha pra ela e fica imaginando que segredos traz consigo. Será que é uma agente ultrassecreta? Será que é  um príncipe se passando por plebeu, igual ao Eddie Murphy naquele filme?Será o próximo amor da sua vida? E você fica sem saber, porque não há menor chance de aquela pessoa puxar conversa contigo. Aquela pessoa nem te nota. Ela só fica lá  lendo, com aquela cara de quem sabe algo que você não sabe.

Eu tenho uma inveja danada dessas pessoas que nem Aquela Pessoa. Eu nunca sou a pessoa silenciosa do recinto. Não consigo ficar dez minutos concentrada num livro. Preciso olhar pra todas  pessoas à minha volta. Preciso perguntar pro coleguinha do lado se ele tá ali há muito tempo. Preciso reparar na cara interessante que a menina lá na frente tem,  analisar  partes do corpo - diferentes da cara ( eu reparo nos braços. E vocês?) -  dos homens que passam.   Preciso abrir um pacote de biscoito, levantar pra encher a garrafa de água, me perguntar mentalmente por que não fui na manicure naquela semana. Preciso ligar pra minha amiga que naquela hora já saiu do trabalho e tá no engarrafamento, abrir o outro livro que eu carrego na mochila mas nunca termino de ler.   Preciso levantar pra ir no banheiro e não fazer xixi nenhum porque tava com vontade mesmo é de me olhar no espelho. Preciso, preciso, preciso fazer qualquer coisa, menos ficar  sentada ali lendo um livro, absolutamente silenciosa.

Nunca ninguém achou que eu fosse uma agente secreta.Era tudo o que eu queria

Mia Couto aos pedaços

" Entre risos e lábios, se entrelaçaram. Pela primeira vez, nessa noite Modari sentiu o morder da ternura. O sabor do beijo resvala entre lábio e dente, entre vida e morte. Lâmina e veludo, qual dos dois no beijo a gente toca? Asfixiação boca a boca: isso é o beijo."

(Trecho do conto A Gorda Indiana, de Mia Couto.)


Coisa boa é esse morder da ternura.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Forever Alone Song Club

Tava aqui ajeitando a agenda do meu celular. Eu tenho 2 chips, dois aparelhos e uma agenda muito zoneada. Em tese,  posso me vangloriar de nunca usar a agenda porque sei  de cor o telefone de todo mundo - exceto o da minha mãe ( Freud há de ter uma explicação!). Acontece que ,de vez em quando, preciso ligar praquela colega de trabalho com quem mal falo e, nesses de- vez -em -quando, eu sempre me ferro porque minha agenda é uma vergonha. Há nomes repetidos, números velhos,  telefone de gente que não vejo há séculos, mas o telefone que me interessa no momento jamais está lá.

Mas hoje começa uma nova etapa na história das minhas agendas de celular. Atualizei todos os contatos, coloquei fotos em todos eles e, o suprassumo da organização, atribuí uma música a cada um dos contatos mais importantes. Uma música que me remete imediatamente à pessoa que está ligando. Foi uma tarefa divertida. Tem de Adele a Nelson Gonçalves, passando por  Gaby Amarantos. Devo registrar, no entanto, uma frustração. A música que mais tenho ouvido ultimamente, aquela que cantarolo no chuveiro num inglês sofrível demais,  ficou sem dono:


"Open up your eyes, then you'll realize/ Here I stand with my everlasting love"

Agora, pior que a frustração de não poder atribuir essa música a nenhum dos meus contatos foi o choque de ver  esta versão:



Tem também esta daqui,  daquela banda da qual tento - sem sucesso-  gostar :

Deus me proteja da fúria dos fãs do U2, mas não rola, gente! Só gosto um pouquinho de Beautiful Day.


E a versão original, segundo a Wikipedia:
Curti!

quinta-feira, 15 de março de 2012

Tatiana S. Levy aos pedaços

"Quando ela surgiu, foi como se Fred Astaire ganhasse sentido.(...) Pudesse,eu congelava tudo, Copacabana inteira, para ouvir Marie- Ange cantar, para  vê-la  dançar. Pudesse, eu, que não sei  cantar nem dançar,  cantaria e dançaria com ela. Sempre me pareceu  que a vida deveria ser um musical: quando estivéssemos tristes começaríamos a  cantar, e a dor se esvairia. quando estivéssemos felizes, começaríamos a cantar e seríamos ainda mais felizes ainda. Uma suspensão na vida, como o fundo do mar."

Trecho de Dois Rios, de Tatiana Salem Levy



Porque legal mesmo é ler dois livros bons pra caramba ao mesmo tempo. Deliciosa alternância

Kevin aos pedaços

(...) De cara, ele me acusou: " Você nunca quis me ter". (...)
" Eu achava que que sim", falei. " E seu pai queria desesperadamente."(...)" Ser mãe foi mais difícil do que eu imaginava", expliquei. " Eu estava acostumada a aeroportos, paisagens marítimas,museus. De repente, lá estava eu, confinada sempre nos mesmos poucos aposentos, eu e o Lego."
(...)
" Alguma vez lhe ocorreu pensar", disse ele, de um jeito capcioso, " que talvez eu não quisesse ter você?"
" Qualquer que fosse o casal, você  não teria gostado. Teria achado a profissão deles idiota, fosse qual fosse." (...) Sinceramente, Kevin... será que você  iria querer ter você? Se houver alguma justiça no mundo, um dia desses você ainda vai acordar com você mesmo num berço ao lado da sua cama."


( Trechos de Precisamos Falar sobre Kevin, de Lionel Shriver)


Não consigo encontrar um adjetivo pra esse livro. E ainda tô na página 74.





quarta-feira, 14 de março de 2012

Dia da poesia

"Busque Amor novas artes, novo engenho, 
para matar me, e novas esquivanças; 
que não pode tirar me as esperanças, 
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho! 
Vede que perigosas seguranças! 
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde 
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto 
um não sei quê, que nasce não sei onde, 
vem não sei como, e dói não sei porquê. "

Daquele que é O cara, Camões.

terça-feira, 13 de março de 2012

Matando saudade

Se sentir burra não é legal. Óbvio. Mas há pelo menos uma situação em que se sentir burra é maravilhoso. Sabe aquele momento  em que aquele professor que sabe de tudo e  leu de tudo fala de coisas que você só tem  um vaga ideia? E ele fala com uma trivialidade que esmaga as poucas coisas que você acha que sabe. Aí você é obrigada a pensar um cadinho,tem que  fazer umas associações, tem que chegar em casa e procurar um livrinho que você leu há muito tempo.

E o melhor: mesmo depois de ter lido o livrinho, de  ter feito uma associaçãozinha, você ainda é burra, muito burra. Você sabe menos ainda do que imaginava. Agora você só tem um monte de perguntas que parecem bem idiotas. Ai, meu Deus, eu não sei nada. É muito divertido não saber nada! É muito divertido fazer perguntas! Eu tava com muitas saudades disso. 

Que saudade de ser aluna!