sábado, 31 de março de 2012

Alma "gema"

Ontem, na fila do banco, eu prestava atenção na conversa de duas meninas. Adoro prestar atenção na conversa alheia em lugares públicos. É divertido. Uma delas tava se lamentando por causa das agruras dessa vida de "single lady". Aí a outra resolveu incentivar a amiga a entrar nesses sites de namoro e casamento da vida. A incentivadora dizia: " Entra num site de namoro. O único jeito de namorar hoje em dia é pela internet. Tem uma menina no trabalho que vai casar com um cara que conheceu na net. É uma história legal..." Eu, ali ouvindo, doida pra dar minha opinião na história. Mas como sou educada, fiquei quieta e continuei prestando atenção no papo que depois tomou outros rumos. Já que não dei pitaco na conversa, vou contar minha breve experiência num desses sites pra vocês. Sentem aí, que lá vem adrenalina, romance e emoção!

Foi assim: minha amiga, que acha que eu sou mais ousada que ela, veio pra cima de mim com um papo de que ela queria se inscrever num site de namoros, mas que não tinha coragem. Coragem, pra que coragem? Vai lá, minha filha, se inscreve e me deixa quieta no meu canto. Mas minha amiga é uma sujeita esperta e sabia que não poderia plantar a sementinha da curiosidade nessa minha cabeça de melão sem arcar com as consequências. Passei um tempo dizendo que nem morta exporia minha imagem num site desses, que nem sob tortura preencheria aqueles formulários bestas, jurei por todos os anjos do céu que jamais trocaria e-mail com um desconhecido. Rá! Entrei num famoso site de namoro antes da minha amiga! 

Saquei uma das milhares  de fotos em que apareço de óculos e chapéu ( o nome disso é disfarce), me armei de um  monte de palavras espirituosas pra escrever meu perfil, mirei no príncipe encantado ao indicar as características que me atraem num homem e , pronto, assinei meu passaporte pro amor virtual. A primeira semana no site foi bem morna. Nenhum recado, nenhuma visualização de perfil, e eu sofrendo com a impossibilidade de julgar o nível de charme, garbo e elegância de um moço através de uma única foto ( o meu plano era o gratuito). A segunda semana foi bem mais movimentada.Recebi vários recados no meu e-mail, alguns deles inesquecíveis:

- houve o cara que me chamou de bonitona da Baixada Fluminense. Ok, eu repito: o cara me chamou de bonitona da Baixada Fluminense.  Sem mais!

- um outro era português e me mandou um recado em inglês. Preciso dizer alguma coisa mais? Ah, sim ele  deixou claro que tinha grana e propôs que eu fosse a princesa do castelo dele. ( Esse era o favorito dos meus amigos!)

- houve também aquele que enviou o número do telefone, telefone do hotel onde se hospedaria no Rio pra uma viagem de negócios e meia dúzia de palavras deixando bem claro que não queria saber de virtualidades.

Mas a cerejinha do bolo, a picanha do churrasco, a última gota de fanta laranja gelada num dia de sol em Copacabana foi o moço que eu adicionei no MSN. Eu já estava meio desconfiada de que não teria muita sorte no site, mas  imaginava que nada poderia ser pior que os recados engraçados que chegavam no meu e-mail. Adicionar um cara no MSN não me mataria, né? Já que ele tava ali no MSN, aproveitei pra puxar papo. Eu falava, ele respondia com monossílabos. Eu falava, ele levava mil anos pra responder. Até que um belo dia abro o hotmail e encontro lá um e-mail do sujeito. Oba, um e-mail! Nenhuma mensagem no corpo do e-mail; apenas um arquivo em anexo. Um arquivo de foto. Sim, eu abri. E lá estava, em close e em toda sua glória cabeluda, a bunda do rapaz. Sim, a poupança,  os fundos, o traseiro do rapaz.

E foi assim que eu desisti de todo e qualquer site de namoro.

( Mentira! Eu entrei num outro site de namoro, mas, depois de responder aquele questionário hediodamente chato, recebi uma mensagenzinha que deceparia minha última esperança de um casamento virtual. O site me disse que eu pertencia à parcela de pessoas pras quais eles eram incapazes de encontrar a alma gêmea)


Traseiros são legais, mas  aqui onde eu moro é mais habitual conhecer o rosto da pessoa primeiro.







sexta-feira, 30 de março de 2012

Filhos Eternos

Estou lendo Precisamos falar sobre Kevin num ritmo bem lento.  Tem faltado tempo, vontade e estômago. O tempo e a vontade têm sido consumidos um pouco pelo trabalho, um pouco pela preguiça. Nesse meio tempo, li dois outros livros que recomendo à beça: Dois Rios, da Tatiana Salem Levy, e o Contos do nascer da terra, do Mia Couto.

 Essa leitura de Precisamos Falar me  remeteu imediatamente a um outro livro sobre maternidade/ paternidade, O Filho Eterno. Citei um bocado esse livro por aqui, mas nunca consegui escrever um texto mais organizado. Minha dificuldade se deve a uma necessidade que certos livros despertam em mim, a de decantá-los cuidadosamente ao longo do tempo.  O Filho Eterno revirou minhas entranhas. Terminei o livro em meio a um monte de lágrimas, mas as lágrimas não bastaram pra resolver as angústias despertadas.  O Filho Eterno, como eu já comentei aqui, é um espécie de relato autobiográfico em terceira pessoa   de um cara de 28 anos, um zé-mané pretensioso, que  se vê diante de um filho com síndrome de Down. Pra início de conversa, o texto é a coisa mais linda do mundo. Eu sei que é " coisa mais linda" é um elogio clichezento, mas é isso mesmo. Você vai lendo e vai tendo um treco diante de tanta beleza, de tanto talento pra juntar palavras.Cristovão Tezza é um escritorzaço - um escritorzaço que escreveu um livraço.


 O Filho Eterno cavouca nossas entranhas porque toca naquele ponto sensível que o verniz social encobre tão bem com discurso de comercial de fraldas. Pra que serve ter um filho? O que se faz com uma criança que não corresponde às suas projeções? O que se faz com uma criança que sempre vai ter limitações? O protagonista de O Filho Eterno passa por um doloroso processo ao se dar conta de que o filho que ele imaginava a prova viva de sua própria perfeição e talentos é diferente das outras crianças. Aquela criança com Síndrome de Down não se encaixa - e jamais se encaixará- nas expectativas que foram construídas. E o que torna o livro extraordinário   são justamente as expectativas frustradas, a necessidade de confrontação com a realidade, o percurso que vai na contramão do amor espontâneo e natural que se espera dos pais e mães. Ao fim da última página, eu tive a certeza de que eu não sei nada sobre amor. Os filmes e os comerciais de pomada pra assadura não sabem da missa a metade.

Como vocês sabem, no início de fevereiro, meu primo e afilhado nasceu, e eu tenho acompanhado de perto a vida desse menininho. E eu ando deslumbrada com a realidade de uma criança pequena. Não existe fase da vida em que a gente seja mais autêntico, menos preocupado em ser o que não é. Claro que eu tô falando de um bebê, claro que eu estudei um cadinho das fases de desenvolvimento das crianças, não é disso que eu tô falando. Eu tô falando é do quanto meu primo é muito ele mesmo e nadica de nada parecido com que eu esperava. Ele só sorri pro pai dele, o homem que está com eles nas madrugadas. Ele só sossega no colo quentinho da mãe que o alimenta. Não importa que toda a família compre presentes, brinquedos, um pedaço da lua; Vinícius não se importa com a gente, ele existe pra além dos nossos desejos e ele esfrega essa realidade na nossa cara todos os dias.

Ao ler Precisamos Falar sobre Kevin ( eu tô bem no começo), penso em Vinícius e em seus pais. Vejo de perto que ter uma criança dá muito trabalho, exige grana, exige comprometimento, exige a compreensão de algo muito bizarro: você faz uma pessoa, carrega dentro do seu corpo aquela pessoa e aquela pessoa não é você nem é sua.  Um filho é uma coisa danada de complexa.Dia desses, eu perguntei pra minha prima como era amamentar. Ela reclamou muito de dor no início, e eu fiquei chocada. Ninguém te conta que amamentar dói. Aí ela sugeriu que eu fizesse uma experiência: segurar meu mamilo entre o polegar e o indicador e apertar com força. Ela disse que as primeiras mamadas foram assim pra ela. Bem, eu teria passado muito bem sem esse pequeno experimento.   Virar  a única fonte de alimentação de uma pessoa é um troço muito complexo, gente! Muito!

Em um dos trechos do Precisamos Falar, a mãe de Kevin evoca uma imagem para a gravidez que me deixou bem chocada. Ela diz que os filmes de alienígena tão aí  mostrando a gravidez como o meio de os invasores se reproduzirem e dominarem a humanidade. Ela faz uma citação a Arquivo X, e imediatamente me veio à mente a  cena que já assisti milhares de vezes. Num episódio  da sexta temporada, um homem é encontrado morto no sofá de casa, com um rombo enorme da barriga. Ele tinha sido contaminado pelo vírus alienígena ( ficção científica, galera! Calma!), o ser foi gestado na barriga dele,  se alimentou dele e depois partiu, deixando o corpo do hospedeiro morto. Uma cena horrível. Essa foi a imagem escolhida pela mãe do Kevin ao falar sobre gravidez. Dá o que pensar, né?

Bem, eu tenho a impressão de que esse post tá uma bagunça só. É , tá mesmo! Eu tô aqui ajeitando a minha cabeça , que ficou muito mexida meses atrás pelo livro do Cristovão Tezza e volta a ficar mexida pelo livro que todo mundo tá lendo. Precisamos Falar sobre Kevin é um romance espistolar - a gente lê as cartas que a mãe do Kevin escreve para o pai do menino depois da prisão do garoto. Kevin está preso porque cometeu um crime nos moldes de Columbine: entrou na escola armado e matou vários colegas e professores. E eu acho incrível que a gente conheça essa história pelo ponto de vista da mãe, do ponto de vista da mulher cujo filho dar corpo ao fracasso de todos os seus projetos maternais.Lendo o livro da mãe do Kevin, eu só consigo pensar no título do maravilhoso, incrível, extraordinário livro do Tezza. Que filho não é eterno,né? Acho que não existe nada mais eterno que um filho.




terça-feira, 27 de março de 2012

Eu, professora / Eu, aluna

Minha prima e eu conversando sobre o meu trabalho.

Eu: Passo o exercício e depois circulo de mesa em mesa, tirando dúvidas. Tem dado muito certo. 

Ela: Você olha o caderno de todo mundo ou só de quem pede ajuda?

Eu: De todo mundo, ué!

Ela: Cara, então não dá pra enrolar na tua aula. Você não tem pena de quem tá com preguiça?

Eu: Não.


***

Quando foi que eu me tornei essa professora que  não dá brecha para que  a galera do fundão dispute uma boa partida de jogo da velha?


Daqui a pouco, estarei dizendo por aí que ódio, revolta, indignação de aluno que não quer estudar não me afeta. Ops! Eu já digo isso!

***

No Ensino Médio,  tive uma professora de Biologia ( você também, Luciana!) a quem eu devo a aprovação no vestibular. O nome dela é o primeiro que me vem à cabeça quando alguém fala em gente que sabe ensinar. Não conheço uma única pessoa que tenha estudado com ela que não diga " Pô, é mesmo, a Fulana é  sinistra". Sim, essa professora é sinistra, nos dois sentidos. Sinistra de boa, de  clara, de capaz de te fazer entender qualquer coisa. E sinistra de má, bruxa, cruel, pavorosa, assustadora. Ou quase isso.

A Fulana era aquele tipo de professora cuja aula ninguém tinha coragem de faltar, cujos exercícios ninguém ousava deixar de fazer. Até respirar era uma coisa complicada na aula dela. A gente,claro, não tampava os narizes durante a aula, mas fazia um esforço danado pra que nenhuma parte do nosso corpo se mexesse nesse processo. Deu pra sentir o nível de sinistrice da mulher, né?

Daí que um dia desses, andando no Centro, esbarrei na Fulana. O tempo parou. Meu primeiro impulso foi cometer aquele crime típico de ex-alunos: eu já ia me aproximar, dizendo " oi, fui sua aluna no..."  Claro que ela não se lembraria de mim, claro que ela ia me dar aquele sorriso neutro de professor que não sabe quem é aquela pessoa que veio falar com ele, mas eu não ia me importar. Eu queria era só dizer oi pra ela, só isso. No entanto, um raio de lucidez partiu meu impulso ao meio e eu me lembrei que aquela não era uma professora qualquer, aquela era a Fulana.  Todo pavor, medo, terror que eu tinha dela há 11 anos voltaram de uma só vez e tomaram conta do meu corpo. Eu olhei cautelosamente praquele rosto  e identifiquei a mesma sisudez que eu conhecera  outrora.  Fiquei lá paralisada, no meio da rua, com a mesma postura de respiração presa que adotava nas aulas, e deixei que ela fosse embora.

Depois, contei pros colegas que também foram alunos da Fulana que eu tinha visto ela, e ficamos tentando lembrar o que de tão terrível aquela mulher fazia na sala de aula pra que a gente tivesse tanto medo. Ninguém consegue se lembrar. As aulas dela eram fantásticas, as provas perfeitamente justas, as dúvidas eram tiradas sem dramas; eu particularmente lamentei que ela não fosse nossa professora no ano seguinte. Mas o meu medo, gente, o que eu sentia na sala de aula e o que eu senti naquele dia na rua, era legítimo, tá?

segunda-feira, 26 de março de 2012

Músicas que dão vontade de escrever cartas de amor #2


He gets fierce in my dreams
Seizing my guts
He floats me with dread
Soaked to the soul
He swims in my eyes by the bed
Pour myself over him
Moon spilling in
And I wake up alone


If I was my heart
I'd rather be restless
The second I stop the sleep catches up and I'm breathless
This ache in my chest
As my day is done now
The dark covers me and I cannot run now
My blood running cold
I stand before him
It's all I can do to assure him
When he comes to me
I drip for him tonight
Drowning in me we bathe under blue light

Músicas que dão vontade de escrever cartas de amor #1




Você me tem fácil demais
Mas não parece capaz
De cuidar do que possui
Você sorriu e me propôs
Que eu te deixasse em paz
Me disse vai, e eu não fui
Não faça assim
Não faça nada por mim
Não vá pensando que eu sou seu
Você me diz o que fazer
Mas não procura entender
Que eu faço só pra te agradar
Me diz até o que vestir
Com quem andar e aonde ir
Mas não me pede pra voltar

sábado, 24 de março de 2012

Toda beleza

Parem as máquinas. Parem o tempo. Parem o mundo.

E deixem que só ela cante:



Deusdocéu!

sexta-feira, 23 de março de 2012

He hates me

Sabem aquele episódio de Friends em que Chandler e Joey esquecem Ben no ônibus?  Nesse episódio, não tem aquela cena em que Ben tá calminho e quietinho no colo do pai , aí vai pro colo da Monica e começa a chorar? Ben não chora no colo do pai, Ben não chora no colo de Chandler, mas abre o berreiro só de chegar perto da  Monica. Tão lembrados?

Então, esqueçamos o Ross, chamemos a Monica  de Juliana, Ben passa a ser Vinícius e,voilá, eis o resumo do meu relacionamento com meu ( futuro) afilhado.