Em tese, uso óculos há dez anos. Em 2002, uma dor de cabeça me obrigou a entrar no consultório do meu oftalmologista. Saí de lá com um diagnóstico: 0,5 grau de astigmatismo no olho direito, 1 grau no esquerdo. Na época, fiz uns daqueles óculos sem aro na esperança de que esse tipo de armação me desse a sensação de não ter nada na minha cara. Ledo engano. Odiei aqueles óculos todos os dias durantes os 2 anos que eles duraram. E, quando eles quebraram, pra minha grande alegria, decidi que ignoraria o astigmatismo.Tive sucesso por quase cinco anos.
Mas o astigmatismo é um algoz imperdoável ( percebam a seleção vocabular). Há uns dois anos, a maldita da dor de cabeça voltou bem implacável, e lá fui eu visitar o Dr.Goulart . Oito anos depois, eu já não era a pós-adolescente de 2002, e não sobrara um fio de cabelo preto sequer na cabeça do médico. Ele olhou a minha ficha, que agora aparecia num programa de computador mais moderno ( mas o computador ainda era o mesmo), e quis saber por que eu tinha me mantido tão distante. Gaguejei, ruminei, quase chorei; acho que o doutor imaginou que todas aquelas manifestações eram somente provas de saudade e resolveu passar pro exame. Primeiro, aquele maldito exame da pressão ocular. Odeio, odeio, odeio, odeio! Quem pode ser feliz recebendo um ventania bem dentro do olho? Depois, o exame com aqueles numerozinhos e letrinhas. Tenso, muito tenso! Olho praquelas letrinhas e esqueço que fui alfabetizada. Minha estratégia é recorrer a afirmações positivas e repetir mentalmente: eu tô enxergando, eu tô enxergando, tô enxergando. Sim, eu enxergo as letrinhas, mas nem tanto. O pequenino mas considerável déficit de visão está lá e eu ainda preciso das mesmas lentes pra ver o mundo tal como ele é. O astigmatismo, como sempre,venceu a batalha.
Nos últimos dois anos, venho usando uns óculos bonitinhos. Meus óculos são bem simpáticos e ficam bem na cara de qualquer um. Levei 3 minutos pra decidir por ele e não posso reclamar: minha armação é levinha, tem o charmezinho de ganhar um brilhozinho sob a luz do sol. Vejam bem, eu gosto dos meus óculos, preciso deles, mas os trato como aquelas pessoas que não sabem dar valor a quem tanto lhes faz bem. Não uso meus óculos o quanto deveria, largo os coitados pelas estantes e pias da vida. Dia desses, eles passaram dois dias na casa da minha prima sem que eu sentisse a menor falta. Como sentir falta de lentes sujas onde os cílios cadentes teimam em grudar? Como sentir falta daquele suorzinho que surge naquele ponto do nariz onde a armação se encaixa? Eu não sinto.
Daí ontem, comecei a rever minha postura nessa relação. Voltava eu de táxi pra casa, de madrugada, tagarelando com o taxista simpático. Eu tava toda feliz porque ele conhecia o caminho da minha casa, então relaxei. Mas o cara não lia mentes, né, então eu tinha que dizer pra ele onde era minha casa. Tudo começou a ficar nebuloso quando não consegui perceber onde terminava o muro do condomínio da esqina e começava a rua de casa. No entanto, tensão, desespero, medo, pânico vieram todos de uma vez quando o carro parou em frente da casa que eu disse que era a minha. Eu paguei, agradeci, desci do carro e ... epa, essa não é a minha casa. Eu tava em frente à casa do vizinho, uma casa muito diferente da minha, um portão muito diferente do meu. O taxista ficou esperando que eu entrasse e eu lá fingindo que procurava onde estavam as chaves. Ele me deu um aceno de cabeça simpático que interpretei como : " Tadinha, tá muito mal essa daí!" e foi embora. Eu aproveitei a deixa e corri pra minha casa, dois portões mais adiante, querendo gritar pro taxista que eu não bebo, que bebi duas latinhas deguaraná antártica, que tudo aquilo era culpa do astigmatismo, que , se a noite estivesse mais clara e o vidro do carro não fosse filmado, eu não estaria ali na frente do portão do vizinho.
Bem, neste momento, enquanto escrevo, estou com os meus amados óculos bem em cima do nariz, pedindo a eles que me perdoem por tantos anosde displicência, prometendo ser mais fiel e dedicada ao nosso relacionamento. Tô devotada também ao meu bom e velho astigmatismo, satisfeita com a sua habitual companhia, desejando ardentemente que a hipermetropia ou a miopia não se atrevam a chegar.
Minha nossa senhora dos odiadores de óculos, tenha dó de mim.