Minha tia e a melhor amiga vão pra Bahia no fim do mês, e não se fala em outra coisa por aqui. Qualquer coisinha é motivo pra trazer a viagem à tona; estamos todos na expectativa pela chegada do grande dia do embarque. E será mesmo um grande dia. Será a primeira viagem de avião das duas, a primeira viagem pra fora do estado, sem filhos, maridos e obrigações. Serão só as duas e tudo de bom que a Bahia puder oferecer.
Eu tô achando o máximo, tô empolgadérrima - e nem vou com elas. É maneiro ver essas duas ansiosas pelas horas de voo até a Bahia.
Pra quem tem mais grana e sempre viajou de avião, ou pra pessoas como eu que aprenderam se aproveitar das promoções das passagens, a expectativa de duas mulheres adultas por algumas horas dentro de um meio de transporte pode parecer uma besteira. Agora, pensem que as duas pertencem a uma geração e a uma classe social que nunca teve acesso a avião, que sempre teve como opção de férias as cidades litorâneas aqui do RJ mesmo. Quando cheguei em casa depois do meu primeiro voo ( comprado com um mês de antecedência, parcelado em duas vezes pra que sobrasse mais uma graninha pro táxi), minha tia me disse que eu tinha realizado um dos grandes desejos dela. Deu pra sacar tanta animação?
A compra da passagem pra Bahia envolveu toda uma preparação. As duas queriam ir de ônibus, não queriam pagar uma fortuna de avião, não iam saber comprar a passagem, essa coisa de internet é muito difícil, ai, meu deus! Foi uma dureza convencê-las de que era possível encontrar passagens baratas. Todo dia, a amiga da minha tia, que também é minha colega no trabalho, perguntava das promoções, ficava em dúvida, pensava em desistir da viagem, até que por fim compraram. As duas vieram aqui em casa, no meu aniversário, com o pretexto de me dar parabéns, mas o que elas queriam mesmo é que eu entrasse no site e fizesse a compra. Minha tia não quis ficar perto pra não atrapalhar; a amiga dela, por sua vez, se alojou bem atrás de mim e ficou dando palpites " ei, não vai errar nada!", " confere o número do cartão, hein!". Agora, toda vez que as duas se juntam, começam as especulações da viagem. Que mala levar? E se a mala sumir? E se alguém pegar a mala antes da gente? E se a gente fica presa no banheiro? E se der dor de barriga? E se o avião da conexão for embora?
Domingo mesmo, numa festinha que houve na casa da minha tia, ficamos todos falando de viajar de avião. A vizinha da minha tia contou ter pavor do banheiro do avião e por isso foi do Rio ao Maranhão segurando o xixi. Alguém disse que ficou desesperado na hora da conexão e perguntou de tempos em tempos à comissária quando seria a hora certa de desembarcar. Eu contei que não tenho medo, que adoro, que não fiquei nervosa da primeira vez, mas que comparo os momentos de preparação pra aterrisagem àquele brinquedo que despenca em queda livre no parque. Fico com um frio na barriga, a mão gela e agradeço a Deus quando o avião para. Ah, e também MORRO de medo de perder voo! Sempre sonho, na noite anterior, que perdi o voo. Saio de casa cedíssimo, já com check in feito, e olho pro relógio a cada cinco minutos. Da última vez que fui a São Paulo, quis deixar a paranoia um pouco de lado e me ferrei. Quer dizer, não me ferrei coisa nenhuma porque cheguei na hora certa, mas tomei uma chuva tão forte a caminho do aeroporto que precisei comprar sapatos novos porque os meus tavam alagados. Acho que foi o destino me castigando por ter saído de casa meia hora mais tarde do que sairia normalmente. Aquela chuva, que parou assim que peguei o ônibus, tinha a maior cara de praga encomendada.
Bem, mas vamos aguardar os relatos de voo das aventureiras. Tô doida que o fim do mês chegue logo. Minha tia prometeu tirar muitas fotos do avião. A amiga dela diz que, se passar mal, ela vai abrir aquela janela de qualquer jeito, que não tá nem aí pra pressurização, que o importante é sentir um ventinho no rosto.Rá!