domingo, 15 de dezembro de 2013

Eu tenho medo de esquecer ,todo meu esforço está direcionado pra não esquecer. Mas ainda assim me distraio e me pego quase acostumada com o fato de que ela não está. Quase. Me acostumar de verdade seria como negar que ela existiu. Às vezes, a imagem do rosto dela e das flores no caixão salta diante dos meus olhos. Tantas vezes eu brinquei sobre a  morte dela, dizia que usaria todas as roupas e bibelôs guardados. Quando mais menina, eu tinha sonhos frequentes em que chorava muito depois do enterro. Hoje, eu preciso espremer a memória pra me lembrar que não são dela os passos que cruzam o quintal. Olho pras fotos dela e não sinto nada. As fotos me fazem esquecer que houve uma morte. Nas fotos, ainda vejo vida.

Ainda olho pra escadas e penso em como seria cansativo pra ela subir. Ponho os copos nos mesmos lugares em que sempre estiveram. Nunca usei nenhuma de suas toalhas. Quando eu dizia que gastaria todas as moedas do cofrinho, ainda não sabia nada sobre a morte!

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Dias desses, entrei na sala de aula e encontrei os alunos do sexto ano escandalizados. 
- Tia, olhaaaaa o que desenharam no quadro.

 Alguém do turno da noite tinha feito uma daquelas representações bem infantis de um pênis. Sabem aquele desenho com as duas bolinhas e tal, então. Fiquei desconcertada por uns dois segundos e logo fui caçar o apagador na mochila. E os alunos de 11,12 anos absolutamente escandalizados tentando me convencer que aquele desenho era a coisa mais chocante do mundo. Eu ainda tentei me fazer um pouco de boba, mas nem deu. O desenhista fez questão de nomear sua obra com letras garrafais.


Em meio ao debate acalorado entre os alunos, comecei a apagar o quadro. Quando eu estava na metade do desenho, uma menina- uma doçurinha de menina- falou:
- Que que tem o desenho, gente? É só um peixe.


Um peixe. Tive que apertar os lábios pra não gargalhar.

A ingenuidade é uma coisa fofa.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Os bebês não são muito diferentes uns dos outros, mas você acha que aquele seu bebê ( no meu caso, nem é meu) é a melhor e maior novidade na Terra desde a invenção da roda. É que você nunca ouviu aquela vozinha antes, nunca ouviu aquela risadinha antes. Se você pensar direito, seu bebê está fazendo aquilo que a humanidade faz desde sempre- andar e falar -, mas não importa: tudo naquela criança é novo, aquela criança é o próprio mundo reinventado.

***
Dia desses, cheguei na casa de Vinícius e fui recebida por seu convite animado: - Enta! Enta!
Daí me pegou pela mão, me levou até o sofá e bateu vezes seguida no assento. Era pra eu entrar e sentar. Entrei e sentei. Então, Vinicinho me deu um de seus carrinhos e voltou lá pra sua brincadeira.
Um perfeito anfitrião. Me ofereceu o que tinha de melhor em casa, um carrinho sujo de sei lá o quê.

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Num outro dia desses, tava jogando no celular, quando ouvi Vinícius dizer:
- Ania! Ania! Ania!
Levei um tempo pra perceber que a Ania em questão era eu.  As pessoas costumam arranjar muitos modos de reduzir meu nome, mas Ania é uma novidade. Ele aprende a língua e reinventa meu nome.

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Minha vó não gostava muito de ser chamada de bisavó. Dizia que Bisa era coisa pra gente muito velha. Então,ela falava: " Dá um beijo na vovó, Vini! Senta aqui com a vovó, pretinho!" Ela falava vovó; nós falávamos bisa. Minha vó morreu antes que Vinícius soubesse falar qualquer uma dessas palavras.

Daí que estava ele olhando as fotos no meu celular- o moleque adora fotos e touch screen-, quando parou numa foto que não conhecia: minha vó no hospital, no último dia em que a vi. Vini apontou o dedinho pro celular e disse:
- Bisa!
- O que foi que você disse? 
- Bisa!
Meu coração deu um saltinho. De todas as coisas tristes sobre a morte, o esquecimento é uma delas  - talvez a pior. Todos os dias me vejo num embate entre esquecer e lembrar. A ausência da minha vó já é mais forte que sua presença. Todos os dias, ela vai morrendo mais e mais, e esse desaparecimento contínuo é o que mais dói. Ela não vai estar aqui no Natal, Vinícius não vai comer as rabanadas que ela fazia, Vinícius não vai ouvir a voz da minha vó. Vinícius vai ser gente grande nesse mundo em que minha vó não está. Enquanto ele vai crescendo, ela vai desaparecendo.

Mas aí acontece de esse bebê que está aprendendo o mundo olhar a foto da minha vó e dar a ela o nome certo.  Meu coração dá saltinhos sempre que me lembro.  Minha vó morta existe nesse mundo que a Vinícius inventa enquanto aprende português. 
Eu fiz planos de alegria pra hoje, mas  termino o dia triste. Levo mais tempo que todo mundo pra perceber que os encantos acabam. E detesto o que é feito só pra cumprir agenda. Detesto relações protocolares.

Não sei - e nem quero aprender- estar pela metade. A gente já  tem que aturar tanta chatice na vida, engolir sapos, conviver tempo demais com quem não importa, por isso eu prefiro o afeto e a inteireza. Eu prefiro os abraços inteiros, prefiro o aconchego. Porque, de superficiais e mornas, me bastam as horas perdidas no trânsito.

Eu pensei que o post de hoje seria alegre. Eu preferia que fosse. Tava acostumada com a alegria.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Presentinhos

Dezembro, gente! Dezembro! 
(Pausa pra todos aqueles comentários sobre a passagem meteórica do ano)

Dezembro é mês de natal,  de ano-novo e de presente no Fina Flor. Mais uma vez vou me oferecer para o cargo de ajudante do Papai Noel e 

vou enviar um presente pra uma das pessoas que lê o Fina Flor



Quem esteve por aqui ano passado, vai se lembrar que o sorteio do ano passado foi um sucesso, o Felipe e a Lílian ganharam presentinhos e fomos todos felizes. Por isso, vou repetir o método de sorteio e de escolha do presente: eu faço sorteio, eu escolho o presente. À pessoa sorteada, caberá a tarefa mais legal: escolher alguém para ganhar um presente também. Serão dois presentados: o/a sorteado/a e a pessoa que ela/ele escolher.Ai, Juuuu, que máximo! Posso escolher a minha mãe? Posso indicar o porteiro do meu prédio, aquele fofo que recebe minhas encomendas? Posso indicar meu namorado e assim economizar a grana do presente dela? Não,quer dizer, pode... Ai, melhor explicar direito.  A pessoa sorteada deve indicar alguém  para ganhar um presente escolhido por mim, mas a pessoa indicada tem que ser alguém que tenha um blog ou leia blogsQualquer um que tenha blog, qualquer um que que leia blog? Você vai poder indicar qualquer pessoa que escreva em qualquer tipo de  blog ( não precisa ser leitor do Fina Flor, nem precisa ser um blog que eu conheça) ou alguém que goste de blogs. 

Um sorteio, dois presentes, simples assim.


Pois bem:

1- Vou sortear uma pessoa pra ganhar um presente. As chances de que algum de vocês receba um livro é gigantesca, viu!

2- A pessoa sorteada escolherá  uma outra pessoa, blogueira ou leitora de blogs, para a qual eu também enviarei um presente. A pessoa indicada não precisa ser leitora do Fina Flor e nem precisa ter um blog, mas precisa estar na blogosfera de algum jeito.

3- Deixem um comentário NESTE POST dizendo que querem participar do sorteio.

4- Sorteio no dia 21/12. A sorteada ou o sorteado deve entrar em contato até o dia 30/12. Se não houver nenhum sinal de vida dentro desse prazo, refaço o sorteio.

5- Peço aos leitores silenciosos  e àqueles que não têm blog que deixem um e-mail ou o twitter, para que eu possa avisar se forem sorteados.

6- O sorteio vale pra pessoas que moram no Brasil e fora dele, viu?

7- Não vale me escolher. Adoro ganhar presente, nada impede que vocês me encham de presentinhos,  sempre tenho planos de fazer um sorteio cujo prêmio seja me presentear, mas, desse sorteio, eu não participa.


Participem, gente! 


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Ascendente

Sempre às voltas com o ir e ficar.

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Ainda bem que existe quem diga: prioridades, Juliana, prioridades!
Outros verões estão por vir.

Mas tem horas em que bate uma urgência, como se nada fosse mais importante que o impulso. Bate também um medo: e se não houver?

Me imagino correndo e berrando pelo aterro, pelo desterro...

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Uma aluna disse pra mãe dela que sou uma professora amorosa. Ninguém nunca tinha me chamado de amorosa antes. 

Amorosa. Amorosa. Amorosa.

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Uma vez me disseram que tenho uma delicadeza que precisa ser adivinhada. Me disseram também ,  em outras circunstâncias,  que nunca se imaginaria que eu fosse tão sensível.

Eu mesma tantas vezes me sinto  uma fraude.

Aí me explicaram que é tudo culpa de sagitário.

Eu quero acreditar que seja mesmo.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Se mau humor mata, vão se preparando pro meu enterro.

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Chega o apocalipse, mas não chega 21 de dezembro.