sábado, 26 de abril de 2014

Sou indelicada - muito, às vezes. Falo a primeira coisa que passa pela minha cabeça. Sou fresca pra comer.  Sempre falta letra no que escrevo. Não uso perfume. Minhas mãos são grandes.  Não tenho paciência. Cismo com as pessoas. Desconfio, desconfio, desconfio. Minhas sobrancelhas são falhadas. Sempre esqueço o apagador  na sala dos professores (ou a chamada, ou a caneta pilot, ou as cópias praquele dia). Mudo de ideia. Sou obcecada por controlar odores corporais. Fui mimada pela minha vó. Se puder não fazer, não faço. Odeio que mexam nos meus pés ( que aliás são bem feios). Não ouço rock. Não sei quem é o vocalista do Nirvana. Largo livros pela metade. Me aborreço de verdade com quem não responde mensagens. Sinto muita inveja.Não carrego o celular. Não lembro do vencimento das contas. Demoro a sentir saudade. Não sou bonita - e dificilmente me esforço pra ser.  Esqueço de botar a roupa na máquina. Compro comida demais. Se olho pra comida e alguma coisa me incomoda, fico enjoada. Sou dos dramas e das chantagens. Canto mil vezes os funks que aprendo com os alunos. Não tô nem aí pro Chico Buarque. Estou sempre certa. Quero que me amem sempre. Não ligo pra cinema. Odeio fazer esforço. Morro de insegurança. Falo alto - muito, às vezes. Eu grito quando fico puta. Meu armário é uma bagunça. Acho difícil dar abraços. Prefiro não contar nada. Tenho vergonha de chorar. Não vi os outros filmes que o Leonerdo Di Caprio fez depois do Titanic. Não terminei Dom Quixote. Sempre prefiro os romances juvenis da moda. Sempre me sinto deslocada. Não limpo os sapatos com a frequência necessária. Não sei dançar. Desapareço sem dizer nada. Tenho pele oleosa e cravos na bochecha. Tenho fases de melancolia desregrada. Levo muito tempo sentindo raiva. Tenho astigmatismo e não uso óculos. 


Se ainda assim você quiser gostar de mim...

Ainda sobre verrugas

Eu tava falando que a gente é julgado pelo modo de vestir, pela cor da pele, pelo modo de falar, mas que geralmente as coisas mais importantes sobre nós não estão estampadas na nossa cara.

Eis que um dos meninos vira pra mim e diz:
- Ah, professora, mas tem uma coisa sobre você que dá pra saber só de olhar pra sua cara.
- É mesmo? O quê?
- Que você contou muita estrela.
Uma longa pausa. Meu cérebro tentando decodificar o sentido da frase de menino. 
-Hein?
- É, quem conta estrela fica com verruga. Você contou muita estrela, hein!

Pois é, gente! Pois é!


( eu também achava que apontar pra estrelas dava verruga e nunca apontava. Portanto sou a prova viva de que a crendice está errada.)


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Um desejo ardente: ser poupada das obviedades.

Me ignora, me  manda à merda, mas não me diga o que já sei. Se for pra dizer o óbvio, fique calado. Saliva é de graça, mas não precisa ser desperdiçada.

domingo, 20 de abril de 2014

Essa noite tive um daqueles  meus sonhos apavorantes. A senhora estava no sonho, como tantas vezes esteve ao longo dessa minha extensa carreira de pesadelos, mas dessa vez, pela primeira vez, não estava no lado de cá. Não sonhei com a sua morte; não preciso mais sonhar com o que já aconteceu. Sonhei com a sua presença fantasmagórica. Sonhei com a sua ausência. Acordei com sua ausência. Minha mãe me mandou abrir os olhos e respirar, e fiquei em dúvida se estava acordada ou dormindo. 

Desde aquele dia em setembro, não sei dizer se estou vivendo uma vida normal ou se nunca acordei de um  dos meus pesadelos enormes. Esses dias, esses meses são tudo, menos a minha vida, a vida que eu tinha antes da sua morte. 

Eu digo morte e preciso ficar repetindo pra ver se a palavra ganha algum sentido. Eu digo morte e estou dizendo nada. Eu digo morte, mas o que estou dizendo mesmo é que a senhora não está. Um dia, de repente, tudo que lhe diz respeito foi interrompido, sua ações estão todas no passado agora. Seu lugar ficou vazio.  Eu digo morte, mas devia dizer vazio.


Vazio. Vazio. Vazio. Vazio.

Vazio.


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Escola e verrugas

Dia desses, uma antiga colega de escola me marcou numa foto da turma de 1994.  Levei um tempinho pra achar a menina de 10 anos que fui no meio de tantas carinhas. Olhei, olhei, olhei e , por fim, percebi que eu estava no canto mais nítido da foto. Meu rosto é um dos mais fáceis de ser identificado, mas eu passei por ele sem notar. Não me reconheci  na menininha séria, naquele olhar de quem não sabe muito bem como agir.
Várias pessoas lembraram de mim, alguém comentou que eu era cdf, a professora disse que eu era seriíssima. Seriíssima? Nunca ninguém usou esse adjetivo pra falar de mim; eu não consigo pensar em mim como seriíssima. Estou acostumada a ser a pessoa sorridente nas fotos. Queria poder voltar no tempo e dizer pra menininha de 94 que no futuro ela será a pessoa sorridente das fotos. No futuro, menininha, você dirá, às gargalhadas, que seu sorriso é igual ao do Mussum. No futuro, você terá fotos nada sérias no perfil do facebook!

***
Passei 8 anos na mesma escola e não tive amigos. Só no último ano fiz uma amiga. Nós fomos colegas de turma durante todo esses anos, mas mal nos falávamos. Na oitava série, ela se aproximou de mim por sugestão da vó. Eu era uma boa menina, estudiosa, quietinha, uma boa companhia aos olhos de qualquer vó. A menina não gostou muito da sugestão  a princípio; ela me achava metida. Todo mundo me achava metida. Passei parte da minha vida provocando antipatias. Uma das minhas melhores amigas me olhou feio durante uns 3 meses, até que um dia fizemos uma viagem de ônibus juntas e ela foi obrigada a sentar do meu lado. Anos depois, ela me disse que naqueles primeiros 3 meses tudo que eu fazia a irritava: minha voz, as coisas esquisitas que eu falava, o fato de os adultos me acharem ótima. 

Não lembro quando as pessoas deixaram de me achar antipática. Se é que deixaram... Deixaram?

***

Passei pelo ensino fundamental sem ser hostilizada ou humilhada. Não tinha melhores amigos, mas não me faltavam colegas pra trabalhos em grupo. Participava das atividades extracurriculares todas. Escapei das crueldades infantis.

A  primeira vez em que fui hostilizada na escola  eu já não era aluna. Foi em 2012. Cheguei em outubro numa turma de sexto ano, substituindo uma professora muito querida. Imaginei que a adaptação  seria difícil; foi mais que difícil: os alunos e a escola como um todo  eram muito complicados. Foram 2 meses terríveis até o fim do ano letivo. Houve um dia em que liguei pra Sueli, tremendo, com o coração disparado, só pra falar com alguém que gostasse de mim. 

Eu tenho no rosto e no pescoço aquelas verrugas escuras que aparecem em peles negras. Começaram a aparecer no início da juventude e vêm se multiplicando.  Me acostumei a tê- las. Não gosto nem desgosto delas. Se as pessoas acham feio, nunca me disseram nada - tem gente que nem repara. Mas adolescentes reparam, os alunos daquela turma tenebrosa repararam e passaram a me chamar, pelas costas mas de um modo que eu ouvisse, de galinha pintadinha. Num outro contexto, eu acharia muita graça do apelido, mas naquela escola, com aquelas crianças, senti o desamparo que só quem foi uma menina deslocada sabe como é.

Saí da escola tenebrosa, passei por outros lugares, estou de volta ao sexto ano. As pessoas do sexto ano são muito interessadas em tudo que diz respeito aos professores. Eles querem saber da sua casa, da sua vida, de por que você não tem marido e filhos, acham que você devia namorar o professor tal, mexem no teu cabelo, perguntam o que são essas coisinhas pretas no teu rosto. Dia desses, uma menina parou na minha frente e perguntou se as bolinhas no meu  rosto doem. Eu suspirei toda defensiva e comecei a dizer que não, não doem, mas vou tirá-las em breve, têm um nome que não lembro... A menina colocou um dedo sobre uma das verrugas mais salientes e disse:

" Ah, tia, não tira tudo, não! Deixa algumas. Elas são tão bonitinhas, parecem sardas. Você fica bonita com esse monte de pintinha!"

Quase contei pra ela que costumo pensar em mim como um brigadeiro - cheio de granulado.


( as verruguinhas não costumam aparecer em fotos; é preciso tirar foto bem de perto.)



segunda-feira, 14 de abril de 2014

Botei o pé na sala de aula, e todo mundo correu pra sentar nos lugares certos. Larguei a mochila na mesa, e os cadernos começaram a aparecer nas mesas, com o dever de casa.

Me tornei aquela professora que, quando aponta no corredor, alguém grita " lá vem  ela!" 

Sou uma bruxa!

( Sou só um pouco bruxa. Chamo todo mundo de criancinha e não vou passar dever de casa pro feriado.)

( O lance do corre que lá vem ela só funciona bem em duas turmas. Já é um começo!)

Chega de prometer


" Não perca tempo assim contando história
(...)
E retomar a trajetória 
É retroceder." 



Eu não acredito em mudanças. Quer dizer, não acredito em promessas de mudanças. A pessoa não vai mudar. Não vai ser a última vez. Não vai mudar porque te ama, porque ama os filhos, porque ama o cachorro. Sou muito cética quanto aos poderes efetivos do amor. Não duvido do amor de ninguém; duvido das promessas. 

Eu acredito que as pessoas mudam. Mudam sim! Porque querem, porque não dão mais conta, porque sentiram que de fato não vão sobreviver a uma próxima vez. As pessoas mudam porque percebem que vão perder alguém que amam, mas não mudam porque esse alguém tá sofrendo. As motivações são pessoais, são individuais, são como calo e joanete, só quem tem sabe como é.  As pessoas mudam porque dói nelas - só quando dói nelas.

Eu não acredito em promessas. Eu acredito nas mudanças acontecendo. Acredito em de repente perceber que mudou. Acredito em gostar antes de tudo - e muito - de si.

Minha vontade é dizer: por favor, deixem o amor fora dessa. Deixem o amor em paz. 

Chega de prometer.

( quando digo " as pessoas", quero dizer " nós")