domingo, 11 de maio de 2014

Adoro isso de mudar de ideia, de não ter certeza, de sentir o coração disparar enquanto conta pra amiga a ideiazinha maluca que você teve.

***
Agora eu tenho uma cama de gente grande.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Pipa avoada

Quem são essas pessoas que AMAM planejar viagem? Onde vivem? Que genes especiais têm? E principalmente: por que não estão aqui sentadas do meu lado, lendo trezentos blogs, falando com a amiga no Skype enquanto convertem moedas?

Não nasci pra planejar viagem. Nasci pra entrar no avião e ir. Só ir.

E minha companheira de viagem é igualzinha a mim. Estamos levemente apavoradas.


domingo, 4 de maio de 2014

Sobre casas e hematomas

Peguei a bicicleta pra dar uma volta. Não cheguei nem ao fim da rua. Vívian me viu passando e veio esfregar a ingratidão na minha cara: você não me liga, você não me ama. E claro: e aí, já tá lá? Lá é a outra casa. E eu respondo o que venho dizendo pra todo mundo que pergunta: não, mas já comprei a cama, tô indo, é estranho, tô maluca!

Todo mundo diz que é mesmo assim. Tiago já tinha dito muito tempo atrás , quando foi a vez dele, que era assim: esquisito, complicado. Eu achei que era o ascendente canceriano de Tiago falando; estava eu errada, Tiago sempre é mais esperto que eu.

***

Sentei pra arrumar a estante do meu quarto. Tirei os livros todos, espalhei no tapete, fui abrindo um a um. Reli umas 10 páginas do livro que mais reli aos 17 anos, Olho de Gato, da Margaret Atwood. Eu costumava  desejar ser uma personagem da Margaret, queria sentir na vida aquela urgência e identificação  que os livros provocavam. Olho de Gato é sobre uma mulher madura, artista famosa, avó. O que eu sabia (e sei) sobre ser qualquer uma dessas coisas? Mas eu sentava por horas com o livro na mão e  entendia Elaine; minha respiração    ficava pesada e acelerada de empatia por ela. 

Se eu fosse uma personagem da Margaret, seria a mulher de 29 anos, 10 meses e 21 dias que não dá  conta de crescer de uma vez e então vai crescendo aos poucos. Muito lentamente.

***
Vívian virou a perna e me mostrou um hematoma gigante. Ela pratica uma luta cujo nome não me arrisco a escrever e levou um monte de chutes num só ponto da coxa. O hematoma é bizarro, dei um gritinho quando vi. Daí ela me contou toda a história da luta, da mudança de faixa, de um cara que todo mundo acha babaca.
- Como isso vai sumir? - perguntei aterrorizada.
- Tô colocando arnica! Mas o pior você não sabe: minha mãe falou um monte e  disse que eu devia tomar mais cuidado, que NÃO SOU mais uma GAROTINHA Se eu quebrar alguma coisa, não volta mais pro  lugar. 

Vívian é seis meses mais velha que eu. Devo dar início à crise dos 30?

sábado, 26 de abril de 2014

Sou indelicada - muito, às vezes. Falo a primeira coisa que passa pela minha cabeça. Sou fresca pra comer.  Sempre falta letra no que escrevo. Não uso perfume. Minhas mãos são grandes.  Não tenho paciência. Cismo com as pessoas. Desconfio, desconfio, desconfio. Minhas sobrancelhas são falhadas. Sempre esqueço o apagador  na sala dos professores (ou a chamada, ou a caneta pilot, ou as cópias praquele dia). Mudo de ideia. Sou obcecada por controlar odores corporais. Fui mimada pela minha vó. Se puder não fazer, não faço. Odeio que mexam nos meus pés ( que aliás são bem feios). Não ouço rock. Não sei quem é o vocalista do Nirvana. Largo livros pela metade. Me aborreço de verdade com quem não responde mensagens. Sinto muita inveja.Não carrego o celular. Não lembro do vencimento das contas. Demoro a sentir saudade. Não sou bonita - e dificilmente me esforço pra ser.  Esqueço de botar a roupa na máquina. Compro comida demais. Se olho pra comida e alguma coisa me incomoda, fico enjoada. Sou dos dramas e das chantagens. Canto mil vezes os funks que aprendo com os alunos. Não tô nem aí pro Chico Buarque. Estou sempre certa. Quero que me amem sempre. Não ligo pra cinema. Odeio fazer esforço. Morro de insegurança. Falo alto - muito, às vezes. Eu grito quando fico puta. Meu armário é uma bagunça. Acho difícil dar abraços. Prefiro não contar nada. Tenho vergonha de chorar. Não vi os outros filmes que o Leonerdo Di Caprio fez depois do Titanic. Não terminei Dom Quixote. Sempre prefiro os romances juvenis da moda. Sempre me sinto deslocada. Não limpo os sapatos com a frequência necessária. Não sei dançar. Desapareço sem dizer nada. Tenho pele oleosa e cravos na bochecha. Tenho fases de melancolia desregrada. Levo muito tempo sentindo raiva. Tenho astigmatismo e não uso óculos. 


Se ainda assim você quiser gostar de mim...

Ainda sobre verrugas

Eu tava falando que a gente é julgado pelo modo de vestir, pela cor da pele, pelo modo de falar, mas que geralmente as coisas mais importantes sobre nós não estão estampadas na nossa cara.

Eis que um dos meninos vira pra mim e diz:
- Ah, professora, mas tem uma coisa sobre você que dá pra saber só de olhar pra sua cara.
- É mesmo? O quê?
- Que você contou muita estrela.
Uma longa pausa. Meu cérebro tentando decodificar o sentido da frase de menino. 
-Hein?
- É, quem conta estrela fica com verruga. Você contou muita estrela, hein!

Pois é, gente! Pois é!


( eu também achava que apontar pra estrelas dava verruga e nunca apontava. Portanto sou a prova viva de que a crendice está errada.)


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Um desejo ardente: ser poupada das obviedades.

Me ignora, me  manda à merda, mas não me diga o que já sei. Se for pra dizer o óbvio, fique calado. Saliva é de graça, mas não precisa ser desperdiçada.

domingo, 20 de abril de 2014

Essa noite tive um daqueles  meus sonhos apavorantes. A senhora estava no sonho, como tantas vezes esteve ao longo dessa minha extensa carreira de pesadelos, mas dessa vez, pela primeira vez, não estava no lado de cá. Não sonhei com a sua morte; não preciso mais sonhar com o que já aconteceu. Sonhei com a sua presença fantasmagórica. Sonhei com a sua ausência. Acordei com sua ausência. Minha mãe me mandou abrir os olhos e respirar, e fiquei em dúvida se estava acordada ou dormindo. 

Desde aquele dia em setembro, não sei dizer se estou vivendo uma vida normal ou se nunca acordei de um  dos meus pesadelos enormes. Esses dias, esses meses são tudo, menos a minha vida, a vida que eu tinha antes da sua morte. 

Eu digo morte e preciso ficar repetindo pra ver se a palavra ganha algum sentido. Eu digo morte e estou dizendo nada. Eu digo morte, mas o que estou dizendo mesmo é que a senhora não está. Um dia, de repente, tudo que lhe diz respeito foi interrompido, sua ações estão todas no passado agora. Seu lugar ficou vazio.  Eu digo morte, mas devia dizer vazio.


Vazio. Vazio. Vazio. Vazio.

Vazio.