Estou lendo Americanah porque metade das pessoas que conheço na internet está lendo - eu, pouquíssimo influenciável. Ainda estou no meio do caminho, mas já morro de amores por Ifemelu e Obinze.
" Ifemelu pousou a cabeça contra a de Obinze e sentiu, pela primeira vez,o que sentiria muitas vezes em muitas outras ocasiões com ele: uma autoafeição. Ele fazia com que gostasse de si mesma. Com Obinze, Ifemelu se sentia confortável; era como se a sua pele fosse do tamanho certo."
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Às vezes, fico irritada com o tanto que as pessoas reclamam. Sou uma hipócrita, claro.Também reclamo de tudo e de todos. Mas me cansa a reclamação que bate ponto, que se repete todo dia. Dá vontade de dizer: pelo amor de deus, fala com a parede, não fala comigo.
Só que acontece também de a reclamação ganhar nuances. Hoje mesmo eu tava ouvindo um cara reclamar. Falou, falou, falou e eu concordei no que podia, porque não sou capaz de ter alcançar o que ele está falando. Ele começou a dar aulas em 1987. Em 1987, eu não era alfabetizada, mal sabia falar.
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Contei pros meus alunos que o inimigo número 1 da escola no início da minha adolescência era o tamagochi.Contei que vi um celular de perto pela primeira vez em 1997. Contei que o primeiro vídeo que vi na internet foi uma cena de Arquivo X. Hoje em dia, só não vejo Criminal Minds em tempo real porque não entendo inglês, então espero dois dias
até que saia a legenda feita por fãs. Mas em 98, a história era outra. Pra ver o trecho de uma cena aguardadíssima, esperei que o vídeo de 30 segundos levasse duas horas carregando, bloqueando a linha telefônica da casa do meu pai. Telefones fixos eram importantes em 1998, né?
- Façam as contas de há quanto tempo foi isso. Eu tinha 14. Hoje tenho 30.
E, pela milionésima vez desde que os conheço, aqueles adolescentes ´ficaram espantadíssimos ao ouvir minha idade. Acho que pra eles ter 30 anos é como ter duas cabeças ou estar à beira da morte. Como a minha cabeça está ok em cima do pescoço e pareço saudável, eles ficam confusos.
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A melhor coisa sobre abraços é que são quentinhos. A segunda melhor coisa é que são íntimos. A terceira melhor coisa é poder abraçar só quem a gente quer. Ao contrário dos beijinhos na bochecha, abraço não é ritual social. Quer dizer, pra mim não é. Por isso morro de constrangimento morro de constrangimento toda vez que alguém adulto que mal conheço, com quem tenho uma relação superficial, de quem nem gosto nem desgosto arranja motivo pra me abraçar.
Existe uma pedagogia do abraço que eu desconheço?



