A vontade de escrever esse post me surgiu na noite do dia das mães, mas só agora começo a escrevê-lo. O nome disso é preguiça, vocês sabem. Pelo menos, ainda é maio. Não tenho nada contra o dia da mães, aliás comemoro todos os anos. Minha família se reunia lá em casa, sempre tinha churrasco, às vezes eu dava presente pra minha mãe. Esse ano, minha mãe teve de trabalhar, então a gente foi jantar no sábado mesmo, e eu passei o domingo sozinha, com o notebook na mão, vendo as declarações de amor que as pessoas fizeram para suas mães. O Facebook no dia das mães me deixa meio deprimida. Longe, muito longe de mim, julgar o que as pessoas escrevem no Facebook. Depois que anunciei a morte e o enterro da minha vó por lá, entendi porque tanta gente escreve coisas mais ou menos íntimas naquela rede social. Às vezes, a gente só quer um jeito mais fácil de todo mundo saber. Eu tô aqui num blog diarinho falando coisinhas da minha vida. As pessoas no Facebook só querem falar das suas vidas também. Acho que é simples assim. Mas, vamos ao ponto, por que é que tu falou que fica meio deprimida com o facebook no dia das mães? Vou explicar.
Você abre a rede azul no dia das mães e estão lá umas fotos lindas, uns textos ainda mais lindos, muitos "eu te amo". Eu mal tenho fotos com a minha mãe porque ela não se acha fotogênica. Esse ano, decidi colocar uma foto no perfil e precisei recorrer a uma do início de 2014, porque as poucas mais recentes não eram boas de se apreciar. Tá bem, esqueçamos as fotos? Eu poderia escrever um textinho bonitinho. De vez em quando, eu escrevo umas coisinhas agradáveis, não seria muito esforço escrever coisinhas agradáveis pra minha mãe. Seria. Quer dizer. Vou explicar: não sei dizer sobre a minha mãe as coisas que são ditas sobre as mães. Minha mãe não é minha melhor amiga, não é uma rainha, nem é um modelo a ser seguido, não é a pessoa mais legal. Passei muitos anos da minha vida sentindo raiva pelos nãos que ela me disse, falei mal dela pras minhas amigas, não sei lidar com muitos aspectos da sua personalidade. Minha mãe me irrita bastante, reclama bastante, faz o único feijão que eu não consigo comer. Somos muito mais felizes agora que moramos em casas diferentes. Pode perguntar pra ela.
E não, eu não odeio minha mãe. Não, eu não a quero bem longe mim. Muito pelo contrário. Acho que a gente se dá muito bem, especialmente agora que sou adulta e sei olhar pra ela como os adultos olham uns pros outros. Minha mãe me criou do jeito que sabia, do jeito que foi possível, e eu tô aqui viva, mas não vejo na história dela nada que a aproxime do heroísmo, da linhagem dos guerreiros. Sobre minha mãe, posso dizer coisas ótimas que não têm necessariamente a ver com fato de que ela me pariu e me criou. Ela conserta chuveiros, nunca faz fofoca nem fala mal dos outros, tem muita empatia, não foge das responsabilidades, tem uma ótima percepção das pessoas. Só por conviver com ela, aprendi que livros são um excelente modo de usar o tempo, que posso ir pra onde quiser e como quiser, que há coisas que a gente precisa fazer e ponto. Minha mãe é uma pessoa bacana. Muito. E, provavelmente, já era bem bacana antes de eu existir e vai continuar sendo se eu morrer agora. Entende? Não acho que ser minha mãe a torna , incrível, uma pessoa da realeza.
Levei mais de 25 anos pra aprender a viajar com a minha mãe de bom grado, acho mesmo que ela não sai bem nas fotos, raramente dou abraços apertados nela. Escrever texto fofo no facebook no dia das mães seria uma falsidade, mas às vezes me pergunto se minha mãe não espera as declarações públicas, os presente convencionais. Quer dizer. Eu acho que minha mãe não espera nada, não, e eu não sou assim tão preocupada em ser uma filha que escreve textos fofos. Mas o dia das mães no Facebook me faz sentir como aquela menininha que na festa das mães na escola não seguia direito a coreografia que a turma ensaiava. Se bem que eu nem era essa garotinha. Eu era a menina que mais dançava e se empolgava, mas meio que em vão porque minha mãe trabalhava e as escolas da década de 90 ignoravam as mães que trabalhavam. Enfim, mas essa é uma outra história.


