Duas ex-alunas minhas morreram esse ano. Ambas tinham 13 anos, ambas frequentaram a mesma turma de sexto ano, ambas saíram da escola muito antes de eu me apegar a elas como sou apegada aos outros todos. Lembro do nome e sobrenome das duas, sei em que lugar sentavam na sala, nunca cheguei a saber muito mais. Uma delas morreu nessa semana, atropelada. Um fone de ouvido e o hábito de atravessar a rua no lugar errado facilitaram a ação de um ônibus que vinha em alta velocidade. Pelo menos, foi essa a história que me contaram, porque o acidente não foi noticiado em jornal nenhum. Eu sei o que as alunas assustadas me contaram. A morte de alguém jovem é tão difícil de entender. A melhor amiga da menina desmaiou, eu senti um aperto duro no peito. Mesmo os que não a conheciam estão impressionados. Poderia ter sido qualquer um desses adolescentes que andam com os fones berrando no ouvido, surdos pros sons do mundo. Poderia ter sido eu, que "piso nos astros, distraída" sempre.
Dia desses, Silvana me disse que eu deveria falar no blog sobre como o enterro da minha vó foi leve. Escrevi tantos posts sobre o luto, e ela acha que seria bom contar de como ficamos sentados num canto do cemitério, eu e os amigos mais chegados, rindo tão alto que alguém fez "chiuuu' pra gente. Contar que minha mãe e eu rimos quando uma mulher que ninguém conhecia se postou ao lado do caixão e beijou dramaticamente a testa da minha vó. A mulher era uma prima que minha mãe e meus tios não viam desde a adolescência. Contar que no momento em que o caixão era baixado na cova o celular da minha tia tocou descontroladamente. Ah, sim, pra agradar Vinicinho, minha tia costumava usar Ah lek lek lek como ringtone. Contar de como essa mesma tia ficou desesperada quando viu minha prima comendo a empada que Jaqueline trouxe do shopping. Não come coisa do cemitério, pelo amor de Deus! Tá tudo contaminado com as doenças de quem tá enterrado aqui!
Minha vó era uma mulher de 75 anos, com um coração tão grande que pressionava os pulmões, uma vesícula cheia de pedras, um rim comprometido, níveis incontroláveis de glicose no sangue, pressão altíssima. Ela passou um mês inteiro no hospital, antes tinha passado maus bocados em casa. A morte dela foi um alívio para nós. Não estou sendo cruel, é verdade. Ver alguém sofrer e saber que não há nada que possa ser feito é pior que o inferno, é um inferno com doses cavalares de angústia. Durante o período em que minha vó esteve internada, minha cabeça doía de uma dor frequente, pulsante, cansativa. Doía, doía, doía. No dia do enterro, a dor não estava mais lá. O inferno tinha acabado.
Não consigo (e nem quero ) imaginar como é o enterro de uma menina de 13 anos que morre de um jeito tão.. sei lá... Dois segundos teriam evitado a morte. Se alguém tivesse por perto pra dar um puxão na menina...Se alguém tivesse conseguido fazer um sinal pro motorista do ônibus... Se ela tivesse atravessado no sinal... Se ela tivesse esquecido de carregar o celular naquele dia...
A morte poderia riscar da sua lista meninas de 13 anos distraídas.