quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Minha analista disse que sou uma mulher  decidida. Se essa afirmação tivesse vindo de  qualquer outra pessoa, eu teria refutado, com vários bons argumentos. Mas analista é outra história. A gente ouve e presta atenção no que analista diz. E registra, pra ir se convencendo toda vez que ler.

Está registrado, e lerei umas três vezes por dia.

domingo, 20 de setembro de 2015

Cantando sem parar







"Abrirmos a cabeça
Para que afinal floresça
O mais que humano em nós.
Então tá tudo dito e é tão bonito
E eu acredito num claro futuro
De música, ternura e aventura
Pro equilibrista em cima do muro.
Mas e se o amor pra nós chegar,
De nós, de algum lugar
Com todo o seu tenebroso esplendor?"

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Uma ilha e uma cama cheia de formigas

Uma colega veio toda animada me perguntar o que achei de Morro de São Paulo, e eu não soube como ser honesta sem ser confusa. Ela vai pra lá nas férias, marido já organizou tudo. Eu respondi com parte da minha verdadeira opinião: Morro é um lugar lindo. Só se eu tivesse probleminhas de visão, pra afirmar o contrário. Mas não tive coragem de dizer: ó, não sairia do Rio de Janeiro só  pra conhecer a ilha.



Eu amei Salvador, muito, tanto. Fui pra Morro com a promessa de amor ainda maior. No meio do caminho, porém, havia aquela tenebrosa viagem  de catamarã por 2h30min em mar aberto. Passei boa parte dopada de remédio de enjoo, a outra parte foi dedicada a tentar colocar meu corpo no lugar depois de tanto sacolejar. Cheguei na ilha me sentindo como se meu corpo não me pertencesse. Me instalei no hotel indicado por uma colega e saí pra comer. Eram 18h. Entrei num restaurante de comida argentina, devorei uma picanha fantástica, ao som de uma menina que cantava lindamente as minhas músicas favoritas da Amy. Ao final da refeição, ganhei uma caipirinha. Parece que é uma cortesia habitual do restaurante. Eu não bebo, mas tenho um fraco por caipirinhas, o que não me impede de ficar lânguida e engraçada com um copo da bebida Voltei pro hotel meio trôpega, ainda sob o efeito do remédio de enjoo, deitei na cama e apaguei. Só acordei às 6h da manhã do dia seguinte, com a chuva sacudindo a janela.



Em julho, o tempo é instável na Bahia. Me disseram que as chuvas não dão trégua. Eu já sabia da instabilidade do tempo, da possibilidade de não poder entrar no mar. Mas não foi o tempo que me deixou meio infeliz em Morro. Eu teria encarado a chuva numa boa se não tive escolhido a hospedagem inadequada pro meu momento de turista solitária e se   não tivesse chegado com  um mundo de turistas estrangeiros. Fiquei com a impressão de que os baianos de Morro não ficam muito felizes com tantos gringos na sua ilhazinha linda. Eu mesma me senti um pouco estrangeira. Tudo parecia feito pra alegrar e entreter os outros turistas, menos brasileiros, mais brancos, com mais dinheiro. Maeve e Hélio me disseram que fui a Morro num período em que nenhum baiano vai, por isso senti o lugar tão pouco baiano, tão pouco brasileiro. Quero voltar a Morro em pleno verão então.

Passei dois dias inteiros na ilha. Num deles, fiquei todo o tempo no mar, que esperava ser mais morno. Todo mundo dizia que a água do mar baiano é morna. Se comparada às ondas da praia do Arpoador, certamente é mais quente, mas, sei lá, eu esperava... Sei lá! Acho que criei muitas expectativas em torno de Morro e tudo ficou pior porque não consegui parar de comparar com a experiência de Salvador. Vejam bem, não tô comparando as duas cidades. Eu seria bem idiota de colocar na mesma balança uma capital e um balneário turístico que não tem agência bancária. Me refiro a como me senti nos dois lugares. Morro, em julho, talvez não seja o lugar ideal para mulheres viajando sozinha. Ou para Juliana viajando sozinha. Achei tudo muito turístico, tudo muito caro, senti falta de calor humano. Um outro  ponto importante foi o fato de eu ter ficado hospedada na vila, na região onde os moradores vivem. E a sensação que tive foi a de que o turismo e o tanto de moradores estrangeiros têm afastado cada vez mais essa população das praias, da sua terra. E há uma insatisfação clara com isso. 

Meu maior erro, acho, foi ter ficado em uma pousada. No primeiro dia, sob o efeito do cansaço e da caipirinha, achei incrível o bangalô localizado numa área silenciosa e arborizada. No segundo dia, me senti num filme de suspense. Cheguei da rua e encontrei um monte de  formigas na cama. Um monte. Fui atrás do rapaz da recepção, claro. Encontrei somente a moça do restaurante que funciona na entrada da pousada. Ela me disse que a recepção fechava às 19h. Eram 20h. Nunca tinha visto algo assim. Já me hospedei em lugares tranquilos, mas mesmo assim sempre havia alguém na recepção. Fora que a pousada não tinha portão nem qualquer proteção em relação à rua.  Os quartos davam pra uma escada  mal iluminada que levava direto pra entrada sem portão.  As casas no entorno tinham portões e grades na janela.A pousada em frente à minha não tinha grades, mas tinha um portão que ficava fechado à noite. A amiga que me indicou o lugar me disse, depois, que eu tinha sido muito carioca ao desconfiar tanto da segurança do local e que foi avisada no primeiro dia que era só ligar pro celular do dono do pousada que ele aparecia. Eu não fui avisada de nada disso, então me senti insegura mesmo e fui obrigada a catar as formigas do lençol. Pra ajudar, choveu forte de madrugada e fui acordada pelas janelas sacudindo. No dia seguinte, enquanto estava na rua, meu lençol foi trocado e conversei longamente com a arrumadeira ( uma xará da minha mãe) e descobri que era comum que as recepções  das pousadas fechassem cedo. Decidi então dar uma segunda chance ao lugar, apesar do péssimo sinal de wi-fi. Só que a noite seguinte foi ainda pior: choveu horrores, as janelas sacudiram ainda mais e os meus vizinhos de quarto fizeram muito barulho. Acordei mais uma vez no meio da noite; dessa vez sem saber se os vizinhos tavam arrastando móveis e batendo portas porque estavam sendo vítimas de um assassino furioso ou porque eram problemáticos. Os barulhos me assustaram. O carregador do celular deu problema, então eu nem podia ligar pro tal rapaz da recepção, caso ficasse confirmado que meus vizinhos estavam sendo mortos. Passei uma noite péssima. De manhã, fechei a conta e comprei passagem pra Salvador. Descobri que meus vizinhos tinham sido vítimas de uma goteira violenta em cima da cama, de uma porta de banheiro emperrada e de um ar-condicionado ruim. Sofreram mais que eu, claro.

dá até pra ver que preciso de pedicure, né?

Voltei pra Salvador pelo caminho semiterrestre. Demora um pouco mais, porém cheguei inteira na cidade. Saí de Morro sob um céu cinza. Encontrei uma Salvador ensolarada. A volta antecipada me permitiu estar com Maeve e Hélio mais uma vez e ainda conhecer a linda Casa do Rio Vermelho. Eu estive hospedada no mesmo bairro  Jorge Amado e Zélia Gattai moraram e quase vou embora sem conhecer a casa deles, o que teria sido um enorme desperdício.  

Em resumo: Morro é um paraíso, mas eu não fui muito feliz, por lá, não.



P.S.: a cama ficou cheia de formigas porque eu deixei um pacote de biscoito aberto em cima dela.

Outro P.S.: Se vocês forem à Casa do Rio Vermelho, levem dinheiro vivo. Se forem a Morro, façam o mesmo. A bilheteria da Casa não aceita cartão. Em Morro, vários lugares, até os camelôs, têm maquininha de cartão, mas você pode sem dinheiro em espécie nenhum se não for cliente o Bradesco, do Banco do Brasil ou da Caixa.




domingo, 6 de setembro de 2015

A data

Tenho muita paranoia com prazo de validade de comida. Olho todas as embalagens,  cheiro mil vezes aquele leite esquecido na geladeira antes de beber; de preferência, dou pra alguém experimentar. De todos os intestinos do mundo, o meu é mais frágil. Melhor alguém ter intoxicação no meu lugar. Não adianta me mostrar reportagens sobre a verdade sobre prazos de validade. Tá vencido? Não vai pra minha barriga de jeito nenhum.

Minha mãe sempre achou minha fé naquela data indicada pelo fabricante uma grande bobagem. Devo ter comido muita comida vencida antes de ser capaz de me defender. Obrigada, duendes das filhas de mães teimosas, pela proteção! Minha vó sempre me deu mais ouvidos, como toda boa vó mimadora de netinhas, então corri menos  riscos sob sua tutela. Quer dizer, exceto por aquela vez em que ela me obrigou a comer nugget azedo. Eu devia ter 10 anos e já desafiava, com meu paladar seletivo, a boa vontade da pessoa que penou na infância e passou muita fome na vida.Eu não comia açúcar, não comia peixe, só tomava o caldinho de feijão e isso  quando era obrigada (é duro ser uma criança fluminense quando não se gosta de feijão preto), enjoava com cheiro de melancia. Minha vó tinha paciência. Mas houve aquele dia de que nunca me esqueço em que ela encheu meu prato de nugget estragado e me obrigou a comer um por um. Eu disse pra ela que o gosto tava horrível, amargo, ruim, e minha vó, crente que eu tava chiliquetando, afirmou sem experimentar o nugget que o gosto azedo era limão. Limão, gente! E eu comi. E me pergunto como estou viva pra escrever esse post. Limão! Humpf! Quando minha mãe foi jantar, sua palavra e seu paladar de adulta prevaleceram e os nuggets foram pro lixo. O bom foi que, depois disso, passei uma semana comendo bife com batata frita. Minha vó não deve ter sabido lidar com a culpa.

Lembrei dessa historinha porque hoje minha mãe tentou nos envenenar com farinha vencida. Minha prima aproveitou o dia de chuva e pediu que minha mãe fizesse as rosquinhas que alegravam nossa infância. O pedido foi prontamente atendido e Vinicinho se juntou à minha mãe na execução da receita. Ficamos minha prima e eu no quarto , vendo Faustão e sentindo o cheirinho de massa frita. Tempos depois, Vinicius trouxe duas rosquinhas minúsculas feitas por suas mãozinhas igualmente minúsculas. Aceitamos a oferta de bom grado, mas na primeira mordida soubemos que algo tava errado: a rosquinha tava meio salgada.

Cê botou sal nisso, tia? 
Claro que não!
Mas tá salgado!
Eu não botei sal! 
Ah, mas tá horrível, mãe!

Sem pestanejar, corri pra olhar o pacote de farinha de trigo. Validade: 14/05/2015. Façam as contas. Resultado: um embrulho no estômago, minha prima vomitou, meu intestino sucumbiu. Vinicinho foi dormir com a mãozinha na barriga, reclamando de dor. E a minha mãe preocupadíssima com os efeitos da farinha vencida no estômago do menino. Só no dele, né? 

A menina de 10 anos que eu fui se sente vingada.  Acho que minha mãe não vai mais ignorar aqueles numerozinhos na embalagem. Quer dizer, eu espero.

sábado, 15 de agosto de 2015

Duas ex-alunas minhas morreram esse ano.  Ambas tinham 13 anos, ambas frequentaram a mesma turma de sexto ano, ambas saíram da escola muito antes de eu me apegar a elas como sou apegada aos outros todos. Lembro do nome e sobrenome das duas, sei em que lugar sentavam na sala, nunca cheguei a saber muito mais. Uma delas morreu nessa semana, atropelada. Um fone de ouvido e o hábito de atravessar a rua no lugar errado facilitaram a ação de um ônibus que vinha em alta velocidade. Pelo menos, foi essa a história que me contaram, porque o acidente não foi noticiado em jornal nenhum. Eu sei o que as alunas assustadas me contaram. A morte de alguém jovem é tão difícil de entender. A melhor amiga da menina desmaiou, eu senti um aperto duro no peito. Mesmo os que não a conheciam estão impressionados. Poderia ter sido qualquer um desses adolescentes que andam  com os fones berrando no ouvido, surdos pros sons do mundo. Poderia ter sido eu, que "piso nos astros, distraída" sempre.


Dia desses, Silvana me disse que eu deveria falar no blog sobre como o enterro da minha vó foi leve. Escrevi tantos posts sobre o luto, e ela acha que seria bom contar de como ficamos sentados num canto do cemitério, eu e os amigos mais chegados, rindo tão alto que alguém  fez "chiuuu' pra gente. Contar que minha mãe e eu rimos quando uma mulher que ninguém conhecia se postou ao lado do caixão e beijou dramaticamente a testa da minha vó. A mulher era uma prima que minha mãe e meus tios não viam desde a adolescência. Contar que no momento em que o caixão era baixado na cova o celular da minha tia tocou descontroladamente. Ah, sim, pra agradar Vinicinho, minha tia costumava usar Ah lek lek lek como ringtone. Contar de como essa mesma tia ficou desesperada quando viu minha prima comendo a empada que Jaqueline trouxe do shopping. Não come coisa do cemitério, pelo amor de Deus! Tá tudo contaminado com as doenças de quem tá enterrado aqui!

Minha vó era uma mulher de 75 anos, com um coração  tão grande que pressionava os pulmões, uma vesícula cheia de pedras, um rim comprometido, níveis incontroláveis de glicose no sangue, pressão altíssima. Ela passou um mês inteiro no hospital,  antes tinha passado maus bocados em casa. A morte dela foi um alívio para nós. Não estou sendo cruel, é verdade. Ver alguém sofrer e saber que não há nada que possa ser feito é pior que o inferno, é um inferno com doses cavalares de angústia. Durante o período em que minha vó esteve internada, minha cabeça doía de uma dor frequente, pulsante, cansativa. Doía, doía, doía. No dia do enterro, a dor não estava mais lá. O inferno tinha acabado.

Não consigo (e  nem quero ) imaginar como é o enterro de uma menina de 13 anos que morre de um jeito tão.. sei lá... Dois segundos teriam evitado a morte. Se alguém tivesse por perto pra dar um puxão na menina...Se alguém tivesse conseguido fazer um sinal pro motorista do ônibus... Se ela tivesse atravessado no sinal... Se ela tivesse esquecido de carregar o celular naquele dia...

A morte poderia riscar da sua lista meninas de 13 anos distraídas.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Roommate



Num dia desses aí da vida, Sil virou pra mim e perguntou:

- Será que os vizinhos acham que a gente é um casal?
- Será? Acho que não.
- Ué, por que, não? Ninguém sabe nada da gente. Veem duas mulheres morando juntas, podem pensar que a gente é um casal.
- Ah, eu acho que não! Se bem que as pessoas estranham quando eu digo que moro como uma amiga. Percebo que as pessoas ficam meio desconcertadas.
- É porque elas acham que essa amiga não é uma amiga.
- Que isso? Ninguém vai ser casada com uma pessoa e dizer pros outros que mora com uma amiga. Isso não tem o menor sentido. 

O diálogo não foi bem assim, mas vamos fingir que foi. Dia depois, eu tava lendo um jornal e uma colunista contava que uma de suas tias morou durante anos com uma amiga "especial". Todos na família sabiam da natureza romântica daquele relacionamento tão duradouro, mas, para todos os efeitos, as duas mulheres eram apenas roommates muito íntimas.

A minha ingenuidade é uma coisinha bonitinha, né?

***

Dias desses, veio um moço aqui em casa ver a gatinha pra qual estou procurando um lar. Vieram ele e o filho. Conversei com os dois, simpática, falei da gatinha e tal. Passados uns dez minutos de papo, chegou Silvana, vinda da rua, falando como uma matraca como sempre, ocupando o lugar dela na casa. O moço olhou pra mim, olhou pra ela e perguntou se éramos irmãs. Silvana sorriu, e eu disse a verdade: somos amigas. Não tenho habilidade pra descrever a cara que o moço fez.As pessoas sempre fazem essa cara quando digo que moro com uma amiga. Sempre. É engraçado.

***
Silvana e eu somos amigas há mais de 10 anos e fazemos parte de um grupo de amigos que vêm se tornando adultos juntos. Nunca imaginei que ela e eu moraríamos na mesma casa, mas aconteceu e estamos vivas até então. Dividir a casa com uma amiga não tem nada a ver com ser Monica e Rachel. Não é difícil nem doloroso, mas é diferente, muito diferente da amizade de sempre. Morar com alguém torna as características que você já conhecia muito ampliadas; é muito maluco. E saber lidar com essa nova perspectiva, saber dosar o tom da intimidade, respeitar o espaço da outra é complexo, exige que você reaprenda a se relacionar com alguém que você conhece há uma década.

Exemplo: eu passei toda minha vida ouvindo minha mãe e minha vó reclamarem da minha cara feia e sempre achei que elas tavam fazendo drama. Daí vim morar com a Sil e a minha cara feia entrou em pauta novamente.  Silvana diz que nunca sabe o que significa a minha cara feia. Então, minha mãe e minha vó não eram tão malucas assim, né? A não ser que a Silvana também seja maluca, Mas  acho que não é o caso. Ela tem razão - e que bom que minha mãe não lê esse blog. Eu sempre acordo de cara feia, depois a cara melhora, mas pode voltar a ficar feia a qualquer hora do dia. Minha cara feia pode ser fome, cansaço ou dor de barriga, geralmente é uma combinação dos dois primeiros. Deve ser meio chato mesmo  pra quem está fora da minha cabeça acompanhar o processo de mudança de cara.

Agora consigo ter uma ideia de por que casamentos acabam, viu!

***

Se fosse pra escolher, Silvana seria Monica e eu seria Rachel.  Eu sou uma Rachel menos mimada, bem menos bonita e com alguma intimidade com as panelas, claro. 

Silvana sabe desentupir vasos sanitários, tem uma técnica infalível pra tirar pelo de gato da roupa e desenvolveu um sistema de acomodação e transporte das compras do mercado que não pode ser questionado. Monica, muito Monica, não é?



terça-feira, 28 de julho de 2015

Aliás

1. A Igreja do Bonfim não fica no alto de um morrão e a escadaria não tem 37543 degraus. Fiquei meio decepcionada, viu! A igreja não foi feita pra me agradar, eu sei, mas,sei lá, esperava... Ah, não sei... Desculpem, baianos!

2. Aliás, baianos!!! Ah, os baianos... Antes, eu achava que os mineiros eram as melhores pessoas. Agora, tô sendo obrigada a rever minha opinião e dividir o título com os baianos. 

3. Aliás, comida baiana! Como é que eu vou viver sem acarajé? E nem venha me dizer que tem acarajé no Rio, porque, né, amiguinhos, não, não, não. Quero acarajé da Cira na esquina da minha casa já. Quando eu chegar no Rio, tenho fé de que uma barraquinha estará montada bem pertinho do meu portão. Acarajé que faz crec na hora que a gente morde e com muita pimenta.

4. Aliás, pimenta! Maeve e Emily, baianas legítimas, já atestaram que posso requerer minha cidadania soteropolitana. Passei no teste de baianidade: pimenta, pode botar pimenta. Ai, pimenta! Também fui aprovada com certa moral no outro teste de baianidade: o dendê pesou no estômago, mas não me desarranjou. Desculpa, mas tenho que dizer: arrasei, nem!

5. Aliás, eu já nasci aprovada nesse teste aí. Eu amo farofa, tenho um ranking de farofas favoritas, como farofa com macarrão, só de falar a palavrinha a boca enche d'água. Soteropolitanos comem tudo com farofa. Soteropolitanos comem uma das minhas comidas favoritas da galáxia, bobó, com farofa. Eu achei que estava morta e tinha chegado ao paraíso quando misturei a farofinha de manteiga num bobó escandaloso.

6. Aliás, na minha infância, havia duas comidas recorrentes. Uma era fantástica, o bobó. A outra não nada fantástica: angu à baiana. No Rio, no nosso inverno fake, as pessoas tomam caldos pra esquentar. Você pode chegar numa barraca de caldos e pedir angu à baiana tranquilamente. Passei toda a vida achando que angu era comida baiana, aí chego em Salvador e Maeve nem sabe o que angu. Ontem, no caminho pro Bonfim, conheci Seu Roque. Perguntei o intinerário do ônibus pra ele e, pronto, ganhei companhia pra viagem todas. Seu Roque morou uns meses no Rio e queria saber que embuste é esse de angu à baiana. 

Quem mais aí não sabe o que é angu? É um creme salgado de fubá, é a polenta antes de endurecer. Se for à baiana, a gente come com sarapatel, que no Rio a gente chama só de miúdo mesmo. 

7. Eu ia dizer " aliás, nome de comida", mas taí assunto que merece um post, três livros,  quatro artigos sobre variação linguística. Vou dizer então: " aliás, Rio!"porque nascer no Rio é uma credencial e tanto por aqui. Eu abro a boca e as pessoas sorriem. Querem saber em que bairro eu moro, pra que time torço. Conhecendo ou não conhecendo a cidade, as pessoas já dizem que amam e meio que te amam também. Tenho vontade de dizer que o Rio nem é tão legal assim, mas fico só na vontade porque ser amada gratuitamente é muito bom.

8. Aliás, amor! Tô indo hoje pra outro lugar lindo da Bahia que todo mundo duz que vou amar. Eu acredito, mas meu coração tá aos pedaços. Não vai ser fácil  viver sem Salvador.

Acho que conheço lugares tão ou mais bonitos quanto essa cidade; não se trata só de beleza... Ai, ai... Salvador, ó, é puro amor. Não encontro outra definição.

Como sempre, Caetano tem razão: "quem vem de lá/ sente saudade"

Mas eu volto!