segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Eu sou péssima com relacionamentos, muito péssima. Tem gente que acha que essa é uma afirmação dramática porque sou simpática e sorridente. Existe um pressuposto de que as pessoas extrovertidas e sorridentes são competentes nos relacionamentos. Baseada na minha larga experiência de 31 anos de vida, eu diria que taí um pressuposto furadíssimo. Meus alunos certamente me acham legal, tenho amizades verdadeiras e duradouras, meus colegas de trabalho diriam assim:" ah, Juliana, aquela de português? Ela é meio condescendente com os alunos e tem umas ideias de esquerda, mas é gente boa!" A merda toda está na intimidade, tá naquele limitezinho que eu nem sei bem qual é, mas que tá ali fazendo de mim um desastre no trato com quem chega perto, bem perto.

Eu passei por 4 analistas, e para todas  elas eu disse a mesma coisa: não sei fazer isso, não! Não quero saber de compartilhar, de deixar que saibam. Sou péssima. Prefiro ficar quieta aqui no meu canto. Olha como meu canto é ótimo, limpinho, quietinho e meu, só meu. Ninguém precisa vir aqui. Pode deixar que eu vou lá no canto dos outros pra manter contato. Sou boa em manter contato.Vou só acenar, ouvir e sorrir. Funciona que é uma beleza. Aí todas as 4 analistas repetiam a mesma fala, parece até que combinaram:  Você não acha que é importante poder contar com as pessoas? Uma pergunta como essa quebra qualquer argumento, né?

Sim, é importante; fundamental até. A pessoa não precisa nem salvar sua vida ou seu dia. Basta estar em algum lugar respirando - respirando e com o whatsapp à mão já tá ótimo. Às vezes, é necessário a  gente sentir essa respiração mais de perto, aí a pessoa vem aqui e respira junto. Mas na maior parte do tempo saber que a pessoa existe tá de bom tamanho. 

Relacionamentos dão um trabalho danado, são um saco. Que cansativo que são! Mas, né, tá sozinha nessa vida é cansa bem mais.

(   esse post não tá como eu queria, mas tá na hora de desemperrar o teclado e os dedos.)

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Minha analista disse que sou uma mulher  decidida. Se essa afirmação tivesse vindo de  qualquer outra pessoa, eu teria refutado, com vários bons argumentos. Mas analista é outra história. A gente ouve e presta atenção no que analista diz. E registra, pra ir se convencendo toda vez que ler.

Está registrado, e lerei umas três vezes por dia.

domingo, 20 de setembro de 2015

Cantando sem parar







"Abrirmos a cabeça
Para que afinal floresça
O mais que humano em nós.
Então tá tudo dito e é tão bonito
E eu acredito num claro futuro
De música, ternura e aventura
Pro equilibrista em cima do muro.
Mas e se o amor pra nós chegar,
De nós, de algum lugar
Com todo o seu tenebroso esplendor?"

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Uma ilha e uma cama cheia de formigas

Uma colega veio toda animada me perguntar o que achei de Morro de São Paulo, e eu não soube como ser honesta sem ser confusa. Ela vai pra lá nas férias, marido já organizou tudo. Eu respondi com parte da minha verdadeira opinião: Morro é um lugar lindo. Só se eu tivesse probleminhas de visão, pra afirmar o contrário. Mas não tive coragem de dizer: ó, não sairia do Rio de Janeiro só  pra conhecer a ilha.



Eu amei Salvador, muito, tanto. Fui pra Morro com a promessa de amor ainda maior. No meio do caminho, porém, havia aquela tenebrosa viagem  de catamarã por 2h30min em mar aberto. Passei boa parte dopada de remédio de enjoo, a outra parte foi dedicada a tentar colocar meu corpo no lugar depois de tanto sacolejar. Cheguei na ilha me sentindo como se meu corpo não me pertencesse. Me instalei no hotel indicado por uma colega e saí pra comer. Eram 18h. Entrei num restaurante de comida argentina, devorei uma picanha fantástica, ao som de uma menina que cantava lindamente as minhas músicas favoritas da Amy. Ao final da refeição, ganhei uma caipirinha. Parece que é uma cortesia habitual do restaurante. Eu não bebo, mas tenho um fraco por caipirinhas, o que não me impede de ficar lânguida e engraçada com um copo da bebida Voltei pro hotel meio trôpega, ainda sob o efeito do remédio de enjoo, deitei na cama e apaguei. Só acordei às 6h da manhã do dia seguinte, com a chuva sacudindo a janela.



Em julho, o tempo é instável na Bahia. Me disseram que as chuvas não dão trégua. Eu já sabia da instabilidade do tempo, da possibilidade de não poder entrar no mar. Mas não foi o tempo que me deixou meio infeliz em Morro. Eu teria encarado a chuva numa boa se não tive escolhido a hospedagem inadequada pro meu momento de turista solitária e se   não tivesse chegado com  um mundo de turistas estrangeiros. Fiquei com a impressão de que os baianos de Morro não ficam muito felizes com tantos gringos na sua ilhazinha linda. Eu mesma me senti um pouco estrangeira. Tudo parecia feito pra alegrar e entreter os outros turistas, menos brasileiros, mais brancos, com mais dinheiro. Maeve e Hélio me disseram que fui a Morro num período em que nenhum baiano vai, por isso senti o lugar tão pouco baiano, tão pouco brasileiro. Quero voltar a Morro em pleno verão então.

Passei dois dias inteiros na ilha. Num deles, fiquei todo o tempo no mar, que esperava ser mais morno. Todo mundo dizia que a água do mar baiano é morna. Se comparada às ondas da praia do Arpoador, certamente é mais quente, mas, sei lá, eu esperava... Sei lá! Acho que criei muitas expectativas em torno de Morro e tudo ficou pior porque não consegui parar de comparar com a experiência de Salvador. Vejam bem, não tô comparando as duas cidades. Eu seria bem idiota de colocar na mesma balança uma capital e um balneário turístico que não tem agência bancária. Me refiro a como me senti nos dois lugares. Morro, em julho, talvez não seja o lugar ideal para mulheres viajando sozinha. Ou para Juliana viajando sozinha. Achei tudo muito turístico, tudo muito caro, senti falta de calor humano. Um outro  ponto importante foi o fato de eu ter ficado hospedada na vila, na região onde os moradores vivem. E a sensação que tive foi a de que o turismo e o tanto de moradores estrangeiros têm afastado cada vez mais essa população das praias, da sua terra. E há uma insatisfação clara com isso. 

Meu maior erro, acho, foi ter ficado em uma pousada. No primeiro dia, sob o efeito do cansaço e da caipirinha, achei incrível o bangalô localizado numa área silenciosa e arborizada. No segundo dia, me senti num filme de suspense. Cheguei da rua e encontrei um monte de  formigas na cama. Um monte. Fui atrás do rapaz da recepção, claro. Encontrei somente a moça do restaurante que funciona na entrada da pousada. Ela me disse que a recepção fechava às 19h. Eram 20h. Nunca tinha visto algo assim. Já me hospedei em lugares tranquilos, mas mesmo assim sempre havia alguém na recepção. Fora que a pousada não tinha portão nem qualquer proteção em relação à rua.  Os quartos davam pra uma escada  mal iluminada que levava direto pra entrada sem portão.  As casas no entorno tinham portões e grades na janela.A pousada em frente à minha não tinha grades, mas tinha um portão que ficava fechado à noite. A amiga que me indicou o lugar me disse, depois, que eu tinha sido muito carioca ao desconfiar tanto da segurança do local e que foi avisada no primeiro dia que era só ligar pro celular do dono do pousada que ele aparecia. Eu não fui avisada de nada disso, então me senti insegura mesmo e fui obrigada a catar as formigas do lençol. Pra ajudar, choveu forte de madrugada e fui acordada pelas janelas sacudindo. No dia seguinte, enquanto estava na rua, meu lençol foi trocado e conversei longamente com a arrumadeira ( uma xará da minha mãe) e descobri que era comum que as recepções  das pousadas fechassem cedo. Decidi então dar uma segunda chance ao lugar, apesar do péssimo sinal de wi-fi. Só que a noite seguinte foi ainda pior: choveu horrores, as janelas sacudiram ainda mais e os meus vizinhos de quarto fizeram muito barulho. Acordei mais uma vez no meio da noite; dessa vez sem saber se os vizinhos tavam arrastando móveis e batendo portas porque estavam sendo vítimas de um assassino furioso ou porque eram problemáticos. Os barulhos me assustaram. O carregador do celular deu problema, então eu nem podia ligar pro tal rapaz da recepção, caso ficasse confirmado que meus vizinhos estavam sendo mortos. Passei uma noite péssima. De manhã, fechei a conta e comprei passagem pra Salvador. Descobri que meus vizinhos tinham sido vítimas de uma goteira violenta em cima da cama, de uma porta de banheiro emperrada e de um ar-condicionado ruim. Sofreram mais que eu, claro.

dá até pra ver que preciso de pedicure, né?

Voltei pra Salvador pelo caminho semiterrestre. Demora um pouco mais, porém cheguei inteira na cidade. Saí de Morro sob um céu cinza. Encontrei uma Salvador ensolarada. A volta antecipada me permitiu estar com Maeve e Hélio mais uma vez e ainda conhecer a linda Casa do Rio Vermelho. Eu estive hospedada no mesmo bairro  Jorge Amado e Zélia Gattai moraram e quase vou embora sem conhecer a casa deles, o que teria sido um enorme desperdício.  

Em resumo: Morro é um paraíso, mas eu não fui muito feliz, por lá, não.



P.S.: a cama ficou cheia de formigas porque eu deixei um pacote de biscoito aberto em cima dela.

Outro P.S.: Se vocês forem à Casa do Rio Vermelho, levem dinheiro vivo. Se forem a Morro, façam o mesmo. A bilheteria da Casa não aceita cartão. Em Morro, vários lugares, até os camelôs, têm maquininha de cartão, mas você pode sem dinheiro em espécie nenhum se não for cliente o Bradesco, do Banco do Brasil ou da Caixa.




domingo, 6 de setembro de 2015

A data

Tenho muita paranoia com prazo de validade de comida. Olho todas as embalagens,  cheiro mil vezes aquele leite esquecido na geladeira antes de beber; de preferência, dou pra alguém experimentar. De todos os intestinos do mundo, o meu é mais frágil. Melhor alguém ter intoxicação no meu lugar. Não adianta me mostrar reportagens sobre a verdade sobre prazos de validade. Tá vencido? Não vai pra minha barriga de jeito nenhum.

Minha mãe sempre achou minha fé naquela data indicada pelo fabricante uma grande bobagem. Devo ter comido muita comida vencida antes de ser capaz de me defender. Obrigada, duendes das filhas de mães teimosas, pela proteção! Minha vó sempre me deu mais ouvidos, como toda boa vó mimadora de netinhas, então corri menos  riscos sob sua tutela. Quer dizer, exceto por aquela vez em que ela me obrigou a comer nugget azedo. Eu devia ter 10 anos e já desafiava, com meu paladar seletivo, a boa vontade da pessoa que penou na infância e passou muita fome na vida.Eu não comia açúcar, não comia peixe, só tomava o caldinho de feijão e isso  quando era obrigada (é duro ser uma criança fluminense quando não se gosta de feijão preto), enjoava com cheiro de melancia. Minha vó tinha paciência. Mas houve aquele dia de que nunca me esqueço em que ela encheu meu prato de nugget estragado e me obrigou a comer um por um. Eu disse pra ela que o gosto tava horrível, amargo, ruim, e minha vó, crente que eu tava chiliquetando, afirmou sem experimentar o nugget que o gosto azedo era limão. Limão, gente! E eu comi. E me pergunto como estou viva pra escrever esse post. Limão! Humpf! Quando minha mãe foi jantar, sua palavra e seu paladar de adulta prevaleceram e os nuggets foram pro lixo. O bom foi que, depois disso, passei uma semana comendo bife com batata frita. Minha vó não deve ter sabido lidar com a culpa.

Lembrei dessa historinha porque hoje minha mãe tentou nos envenenar com farinha vencida. Minha prima aproveitou o dia de chuva e pediu que minha mãe fizesse as rosquinhas que alegravam nossa infância. O pedido foi prontamente atendido e Vinicinho se juntou à minha mãe na execução da receita. Ficamos minha prima e eu no quarto , vendo Faustão e sentindo o cheirinho de massa frita. Tempos depois, Vinicius trouxe duas rosquinhas minúsculas feitas por suas mãozinhas igualmente minúsculas. Aceitamos a oferta de bom grado, mas na primeira mordida soubemos que algo tava errado: a rosquinha tava meio salgada.

Cê botou sal nisso, tia? 
Claro que não!
Mas tá salgado!
Eu não botei sal! 
Ah, mas tá horrível, mãe!

Sem pestanejar, corri pra olhar o pacote de farinha de trigo. Validade: 14/05/2015. Façam as contas. Resultado: um embrulho no estômago, minha prima vomitou, meu intestino sucumbiu. Vinicinho foi dormir com a mãozinha na barriga, reclamando de dor. E a minha mãe preocupadíssima com os efeitos da farinha vencida no estômago do menino. Só no dele, né? 

A menina de 10 anos que eu fui se sente vingada.  Acho que minha mãe não vai mais ignorar aqueles numerozinhos na embalagem. Quer dizer, eu espero.

sábado, 15 de agosto de 2015

Duas ex-alunas minhas morreram esse ano.  Ambas tinham 13 anos, ambas frequentaram a mesma turma de sexto ano, ambas saíram da escola muito antes de eu me apegar a elas como sou apegada aos outros todos. Lembro do nome e sobrenome das duas, sei em que lugar sentavam na sala, nunca cheguei a saber muito mais. Uma delas morreu nessa semana, atropelada. Um fone de ouvido e o hábito de atravessar a rua no lugar errado facilitaram a ação de um ônibus que vinha em alta velocidade. Pelo menos, foi essa a história que me contaram, porque o acidente não foi noticiado em jornal nenhum. Eu sei o que as alunas assustadas me contaram. A morte de alguém jovem é tão difícil de entender. A melhor amiga da menina desmaiou, eu senti um aperto duro no peito. Mesmo os que não a conheciam estão impressionados. Poderia ter sido qualquer um desses adolescentes que andam  com os fones berrando no ouvido, surdos pros sons do mundo. Poderia ter sido eu, que "piso nos astros, distraída" sempre.


Dia desses, Silvana me disse que eu deveria falar no blog sobre como o enterro da minha vó foi leve. Escrevi tantos posts sobre o luto, e ela acha que seria bom contar de como ficamos sentados num canto do cemitério, eu e os amigos mais chegados, rindo tão alto que alguém  fez "chiuuu' pra gente. Contar que minha mãe e eu rimos quando uma mulher que ninguém conhecia se postou ao lado do caixão e beijou dramaticamente a testa da minha vó. A mulher era uma prima que minha mãe e meus tios não viam desde a adolescência. Contar que no momento em que o caixão era baixado na cova o celular da minha tia tocou descontroladamente. Ah, sim, pra agradar Vinicinho, minha tia costumava usar Ah lek lek lek como ringtone. Contar de como essa mesma tia ficou desesperada quando viu minha prima comendo a empada que Jaqueline trouxe do shopping. Não come coisa do cemitério, pelo amor de Deus! Tá tudo contaminado com as doenças de quem tá enterrado aqui!

Minha vó era uma mulher de 75 anos, com um coração  tão grande que pressionava os pulmões, uma vesícula cheia de pedras, um rim comprometido, níveis incontroláveis de glicose no sangue, pressão altíssima. Ela passou um mês inteiro no hospital,  antes tinha passado maus bocados em casa. A morte dela foi um alívio para nós. Não estou sendo cruel, é verdade. Ver alguém sofrer e saber que não há nada que possa ser feito é pior que o inferno, é um inferno com doses cavalares de angústia. Durante o período em que minha vó esteve internada, minha cabeça doía de uma dor frequente, pulsante, cansativa. Doía, doía, doía. No dia do enterro, a dor não estava mais lá. O inferno tinha acabado.

Não consigo (e  nem quero ) imaginar como é o enterro de uma menina de 13 anos que morre de um jeito tão.. sei lá... Dois segundos teriam evitado a morte. Se alguém tivesse por perto pra dar um puxão na menina...Se alguém tivesse conseguido fazer um sinal pro motorista do ônibus... Se ela tivesse atravessado no sinal... Se ela tivesse esquecido de carregar o celular naquele dia...

A morte poderia riscar da sua lista meninas de 13 anos distraídas.