segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Continue a nadar

" É preciso tentar não sucumbir ao peso das nossas angústias, Harry, e continuar a lutar."

Dumbledore, aquele homem maravilhoso, sempre dizendo a coisa certa, né? Tá certo que a gente não tem que derrotar um cara que partiu a alma em sete pedaços e tal, mas acho que é um conselho que não deve ser desperdiçado.

Essa fala é de [ muitos coraçõezinhos pra esse livro] O Enigma do Príncipe.  

domingo, 1 de novembro de 2015

Sentir falta de escrever aqui é uma constante. Houve uma época em que tudo era motivo de post. Nos últimos tempos, penso umas  cinco vezes antes de abrir o aplicativo do blogger. Sim, aplicativo,  quase não tenho usado o notebook. Meu celular novinho com tela maior que a daquele celular da maçãzinha muquirana ganhou a batalha entre os gadgets. Dia desses, eu tive que dar uma reviradinha na casa atrás do notebook. O pobre estava embaixo da cama, empoeirado e obsoleto. Eu começo a escrever e de repente tudo parece chato, bobo, cansativo. Agorinha mesmo, neste exato momento, esses sentimentos tão surgindo aqui na minha cabeca, mas eu vou resistir, serei mais forte. A batalha é dura, viu. Vou respirar um pouco e continuar a guerra no próximo parágrafo.

Travei. Tenho uma ideia do que quero escrever, mas falta aquela palavra boa que impulsiona o parágrafo. Hum. Não queria usar "eu". Minha professora da quinta série me ensinou que iniciar parágrafos  com pronomes pessoais é um recurso pobre e nunca consegui desapegar desse conselho. Só que eu já não estou no início do parágrafo, então vai o " eu" mesmo. Eu... e agora não lembro o queria dizer. Ah, sim. Eu desisto de escrever aqui  porque só sinto vontade de falar de cansaço, que está muito longe de ser um assunto inédito no blog. Eu vivo falando de cansaço, eu vivo cansada. Mas agora é um cansaço com o qual não tô sabendo lidar. Vou contar uma história no parágrafo seguinte pra ilustrar, historinhas sempre explicam melhor.

Dia desses, dois ex-alunos meus brigaram na escola. Uma aluna veio me contar detalhes do evento que agitou o recreio. Para identificar um dos envolvidos, ela usou a expressão: " um viadinho do sétimo ano". Eu não estava preparada pra ouvir isso. Nunca vou estar. Eu conheço o menino a quem a garota se referiu. Ele tem 13 anos, é filho único de uma mãe que trabalha 12 horas por dia, é aluno de uma prestigiosa academia  de dança, é um moleque inteligente e bacana, mas nada disso é importante na hora de identificá-lo. Sei que a briga tem a ver justamente com esse rótulo que todo mundo acha que tem direito de atribuir a ele. Eu queria poder dizer a ele que as coisas vão melhorar quando ele for adulto, mas não  posso dizer mentiras pra adolescentes. Você cresce e nada melhora. Eu tô assustada de verdade com esses tempos em que a gente tá vivendo. Tantos retrocessos, tanta crueldade, tanto ódio, tanto moralismo. Vcs não estão  apavorados?

E fora essas dores normais de ser gente. Porque ninguém avisa que  a vida nunca para de doer, que vc tem é que se virar pra se manter sã enquanto vai lidando com uma magoazinha aqui, um trauminha ali. E haverá dias em que você não vai dar muito conta. Eu estou nesses dias em que não estou dando conta. Estou operando no nível básico de energia. Só tenho fôlego pro mínimo: respirar e trabalhar. Esse é o nível de cansaço. Opa! Mais uma vez a vontade de largar o post bem aqui neste ponto em que claramente falta uma conclusão. Assim como existem as musas, devem existir os gênios maus que conspiraram pra que a gente desista dos posts. Mas eu vou demonstrar bravura, vou terminar no  próximo parágrafo.

Terminei.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Eu sou péssima com relacionamentos, muito péssima. Tem gente que acha que essa é uma afirmação dramática porque sou simpática e sorridente. Existe um pressuposto de que as pessoas extrovertidas e sorridentes são competentes nos relacionamentos. Baseada na minha larga experiência de 31 anos de vida, eu diria que taí um pressuposto furadíssimo. Meus alunos certamente me acham legal, tenho amizades verdadeiras e duradouras, meus colegas de trabalho diriam assim:" ah, Juliana, aquela de português? Ela é meio condescendente com os alunos e tem umas ideias de esquerda, mas é gente boa!" A merda toda está na intimidade, tá naquele limitezinho que eu nem sei bem qual é, mas que tá ali fazendo de mim um desastre no trato com quem chega perto, bem perto.

Eu passei por 4 analistas, e para todas  elas eu disse a mesma coisa: não sei fazer isso, não! Não quero saber de compartilhar, de deixar que saibam. Sou péssima. Prefiro ficar quieta aqui no meu canto. Olha como meu canto é ótimo, limpinho, quietinho e meu, só meu. Ninguém precisa vir aqui. Pode deixar que eu vou lá no canto dos outros pra manter contato. Sou boa em manter contato.Vou só acenar, ouvir e sorrir. Funciona que é uma beleza. Aí todas as 4 analistas repetiam a mesma fala, parece até que combinaram:  Você não acha que é importante poder contar com as pessoas? Uma pergunta como essa quebra qualquer argumento, né?

Sim, é importante; fundamental até. A pessoa não precisa nem salvar sua vida ou seu dia. Basta estar em algum lugar respirando - respirando e com o whatsapp à mão já tá ótimo. Às vezes, é necessário a  gente sentir essa respiração mais de perto, aí a pessoa vem aqui e respira junto. Mas na maior parte do tempo saber que a pessoa existe tá de bom tamanho. 

Relacionamentos dão um trabalho danado, são um saco. Que cansativo que são! Mas, né, tá sozinha nessa vida é cansa bem mais.

(   esse post não tá como eu queria, mas tá na hora de desemperrar o teclado e os dedos.)

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Minha analista disse que sou uma mulher  decidida. Se essa afirmação tivesse vindo de  qualquer outra pessoa, eu teria refutado, com vários bons argumentos. Mas analista é outra história. A gente ouve e presta atenção no que analista diz. E registra, pra ir se convencendo toda vez que ler.

Está registrado, e lerei umas três vezes por dia.

domingo, 20 de setembro de 2015

Cantando sem parar







"Abrirmos a cabeça
Para que afinal floresça
O mais que humano em nós.
Então tá tudo dito e é tão bonito
E eu acredito num claro futuro
De música, ternura e aventura
Pro equilibrista em cima do muro.
Mas e se o amor pra nós chegar,
De nós, de algum lugar
Com todo o seu tenebroso esplendor?"

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Uma ilha e uma cama cheia de formigas

Uma colega veio toda animada me perguntar o que achei de Morro de São Paulo, e eu não soube como ser honesta sem ser confusa. Ela vai pra lá nas férias, marido já organizou tudo. Eu respondi com parte da minha verdadeira opinião: Morro é um lugar lindo. Só se eu tivesse probleminhas de visão, pra afirmar o contrário. Mas não tive coragem de dizer: ó, não sairia do Rio de Janeiro só  pra conhecer a ilha.



Eu amei Salvador, muito, tanto. Fui pra Morro com a promessa de amor ainda maior. No meio do caminho, porém, havia aquela tenebrosa viagem  de catamarã por 2h30min em mar aberto. Passei boa parte dopada de remédio de enjoo, a outra parte foi dedicada a tentar colocar meu corpo no lugar depois de tanto sacolejar. Cheguei na ilha me sentindo como se meu corpo não me pertencesse. Me instalei no hotel indicado por uma colega e saí pra comer. Eram 18h. Entrei num restaurante de comida argentina, devorei uma picanha fantástica, ao som de uma menina que cantava lindamente as minhas músicas favoritas da Amy. Ao final da refeição, ganhei uma caipirinha. Parece que é uma cortesia habitual do restaurante. Eu não bebo, mas tenho um fraco por caipirinhas, o que não me impede de ficar lânguida e engraçada com um copo da bebida Voltei pro hotel meio trôpega, ainda sob o efeito do remédio de enjoo, deitei na cama e apaguei. Só acordei às 6h da manhã do dia seguinte, com a chuva sacudindo a janela.



Em julho, o tempo é instável na Bahia. Me disseram que as chuvas não dão trégua. Eu já sabia da instabilidade do tempo, da possibilidade de não poder entrar no mar. Mas não foi o tempo que me deixou meio infeliz em Morro. Eu teria encarado a chuva numa boa se não tive escolhido a hospedagem inadequada pro meu momento de turista solitária e se   não tivesse chegado com  um mundo de turistas estrangeiros. Fiquei com a impressão de que os baianos de Morro não ficam muito felizes com tantos gringos na sua ilhazinha linda. Eu mesma me senti um pouco estrangeira. Tudo parecia feito pra alegrar e entreter os outros turistas, menos brasileiros, mais brancos, com mais dinheiro. Maeve e Hélio me disseram que fui a Morro num período em que nenhum baiano vai, por isso senti o lugar tão pouco baiano, tão pouco brasileiro. Quero voltar a Morro em pleno verão então.

Passei dois dias inteiros na ilha. Num deles, fiquei todo o tempo no mar, que esperava ser mais morno. Todo mundo dizia que a água do mar baiano é morna. Se comparada às ondas da praia do Arpoador, certamente é mais quente, mas, sei lá, eu esperava... Sei lá! Acho que criei muitas expectativas em torno de Morro e tudo ficou pior porque não consegui parar de comparar com a experiência de Salvador. Vejam bem, não tô comparando as duas cidades. Eu seria bem idiota de colocar na mesma balança uma capital e um balneário turístico que não tem agência bancária. Me refiro a como me senti nos dois lugares. Morro, em julho, talvez não seja o lugar ideal para mulheres viajando sozinha. Ou para Juliana viajando sozinha. Achei tudo muito turístico, tudo muito caro, senti falta de calor humano. Um outro  ponto importante foi o fato de eu ter ficado hospedada na vila, na região onde os moradores vivem. E a sensação que tive foi a de que o turismo e o tanto de moradores estrangeiros têm afastado cada vez mais essa população das praias, da sua terra. E há uma insatisfação clara com isso. 

Meu maior erro, acho, foi ter ficado em uma pousada. No primeiro dia, sob o efeito do cansaço e da caipirinha, achei incrível o bangalô localizado numa área silenciosa e arborizada. No segundo dia, me senti num filme de suspense. Cheguei da rua e encontrei um monte de  formigas na cama. Um monte. Fui atrás do rapaz da recepção, claro. Encontrei somente a moça do restaurante que funciona na entrada da pousada. Ela me disse que a recepção fechava às 19h. Eram 20h. Nunca tinha visto algo assim. Já me hospedei em lugares tranquilos, mas mesmo assim sempre havia alguém na recepção. Fora que a pousada não tinha portão nem qualquer proteção em relação à rua.  Os quartos davam pra uma escada  mal iluminada que levava direto pra entrada sem portão.  As casas no entorno tinham portões e grades na janela.A pousada em frente à minha não tinha grades, mas tinha um portão que ficava fechado à noite. A amiga que me indicou o lugar me disse, depois, que eu tinha sido muito carioca ao desconfiar tanto da segurança do local e que foi avisada no primeiro dia que era só ligar pro celular do dono do pousada que ele aparecia. Eu não fui avisada de nada disso, então me senti insegura mesmo e fui obrigada a catar as formigas do lençol. Pra ajudar, choveu forte de madrugada e fui acordada pelas janelas sacudindo. No dia seguinte, enquanto estava na rua, meu lençol foi trocado e conversei longamente com a arrumadeira ( uma xará da minha mãe) e descobri que era comum que as recepções  das pousadas fechassem cedo. Decidi então dar uma segunda chance ao lugar, apesar do péssimo sinal de wi-fi. Só que a noite seguinte foi ainda pior: choveu horrores, as janelas sacudiram ainda mais e os meus vizinhos de quarto fizeram muito barulho. Acordei mais uma vez no meio da noite; dessa vez sem saber se os vizinhos tavam arrastando móveis e batendo portas porque estavam sendo vítimas de um assassino furioso ou porque eram problemáticos. Os barulhos me assustaram. O carregador do celular deu problema, então eu nem podia ligar pro tal rapaz da recepção, caso ficasse confirmado que meus vizinhos estavam sendo mortos. Passei uma noite péssima. De manhã, fechei a conta e comprei passagem pra Salvador. Descobri que meus vizinhos tinham sido vítimas de uma goteira violenta em cima da cama, de uma porta de banheiro emperrada e de um ar-condicionado ruim. Sofreram mais que eu, claro.

dá até pra ver que preciso de pedicure, né?

Voltei pra Salvador pelo caminho semiterrestre. Demora um pouco mais, porém cheguei inteira na cidade. Saí de Morro sob um céu cinza. Encontrei uma Salvador ensolarada. A volta antecipada me permitiu estar com Maeve e Hélio mais uma vez e ainda conhecer a linda Casa do Rio Vermelho. Eu estive hospedada no mesmo bairro  Jorge Amado e Zélia Gattai moraram e quase vou embora sem conhecer a casa deles, o que teria sido um enorme desperdício.  

Em resumo: Morro é um paraíso, mas eu não fui muito feliz, por lá, não.



P.S.: a cama ficou cheia de formigas porque eu deixei um pacote de biscoito aberto em cima dela.

Outro P.S.: Se vocês forem à Casa do Rio Vermelho, levem dinheiro vivo. Se forem a Morro, façam o mesmo. A bilheteria da Casa não aceita cartão. Em Morro, vários lugares, até os camelôs, têm maquininha de cartão, mas você pode sem dinheiro em espécie nenhum se não for cliente o Bradesco, do Banco do Brasil ou da Caixa.