domingo, 29 de maio de 2016

Um único assunto

Um dia desses, falei a palavra "gato" numa turma e os alunos todos gritaram: "nãããããooo!". Primeiro, levei um susto. Depois, perguntei qual era o problema. Alguém respondeu:

- Não fala de gato, porque a J. vai começar falar também. Ela só sabe falar de gato!

 A turma toda sacudia a cabeça enfaticamente, concordando. A J., claro, se defendeu:

- Que exagero, gente! Eu falo só um pouquinho. E agora nem tenho mais do que falar porque o Araújo morreu. Professora, eu te falei que o Araújo morreu? Morreu e agora tenho um outro gatinho. Mas tô querendo dar ele. Nossa, o bichinho é muito brigão.  Você não quer um gatinho, não?Tá muito difícil de cuidar dele. O Araújo era mais fácil, porque...

Eu respirei fundo.

- J., depois você me fala do seu gatinho. Vamos voltar aqui pra aula, tá?

Um outro dia mais tarde,  passei um trabalho que consistia em escolher um livro e fazer uma resenha sobre ele.  Expliquei que deveriam apontar pra qual faixa etária o livro era indicado. Como sempre agem diante de alguma informação que não conhecem, fizeram um alvoroço. Foi um coro de "Como assim? Não entendi nada. Não vou fazer! Isso é muito difícil! Faixa o quê?"

-Vocês têm que dizer se o livro é pra criança pequena, pra criança mais velha, pra adolescente, pra adulto.

- Ah, já sei, professora! - J. disse mais alto que todo mundo. -  Vou escolher um livro indicado para... GATOS.


Acho que a menina é mesmo monotemática, mas não posso julgá-la pois meu celular tá cheinho de fotos assim:





















sábado, 28 de maio de 2016

Trust no one

Uma coisa que eu não faço nessa vida é confiar no que me dizem. Até acho que devia, mas não consigo. É muitíssimo mais forte do que eu. Não é que eu ache que as pessoas todas são horríveis e desonestas. Não acho mesmo. A questão é que afirmações cheias de certeza podem estar baseadas em dados que não foram questionados, verificados. Um exemplo: nunca acredito num relógio que não seja o meu. Esqueço  o relógio de pulso, celular está descarregado, preciso saber a hora, pergunto pra uma pessoa qualquer que estiver por perto, claro. Registro  a hora que ela me disse e vou atrás de um outro relógio pra ver se a informação bate. Você pode pensar que é um desperdício de energia. Não é. Vou contar uma história pra ilustrar meu ponto de vista, mas no próximo parágrafo porque senão esse vai ficar enorme.


Eu pego no trabalho em horários que variam entre 7h30 e 9h30. Isso significa que eu durmo um pouquinho mais ou um pouquinho menos conforme o dia da semana. Na terça-feira, eu entro 8h20, então acordo 6h45, saio 7h30, tudo no esquema. Daí que houve uma terça em que segui o esqueminha  certinho, mas, ao chegar na esquina da escola, saquei que tinha algo errado. Havia umas crianças na calçada. Ué? Às 8h20, estão todos na sala de aula. Entrei na escola e o clima estava errado: nenhum sinal de agitação, nenhum movimento. Entrei na sala dos professores. Mais silêncio. Uma das minhas colegas estava sentada, preguiçosamente, mexendo no celular. Ué, ela não devia estar na sala de aula? Peguei meu celular. 7h20. Virei pra colega e perguntei a hora. 8h20. Arregalei os olhos. Não era possível. Levantei  confusa e fui na secretaria olhar o relógio da parede. 7h20. Meu deus do céu! Me senti tão maluca, tão perdida. Eu costumo ser muito perdida a maior parte do tempo. Jamais sei a data ou o dia da semana. Tô acostumada. Não me orgulho, mas tô acostumada, Mas ser enganada pelo meu próprio celular já é demais. Pior sensação da vida você viver em um fuso horário particular. Pois bem, imaginem agora se alguém tivesse me perguntado a hora no ônibus. Eu diria a hora errada e essa pobre pessoa poderia tomar decisões ruins baseada nessa informação. Ou pior: poderia duvidar da própria capacidade de perceber o tempo, Ué, saí de casa 7h e já são 8h?! Seria uma tragédia gigantesca. Por isso que eu não acredito no relógio das pessoas.


Cês podem estar aí pensando: ô, Juliana, deixa de ser exagerada! Se alguém tivesse te perguntado a hora, a pessoa teria percebido que a informação tava meio estranha e você poderia ter  dado uma olhadinha num desses sites que informam a hora certa. Sim, vocês têm razão. Tenho que concordar. Mas, ó, se a pessoa pra quem eu perguntar a hora for igual a uma conhecida minha que tá sempre com o relógio 20 minutos adiantado?  E esse sempre é tão sempre que ela esquece e acaba te dizendo a hora sem explicar o pequeno detalhe do muitos minutos a mais. Fico nervosa só de imaginar. Não, prefiro continuar não confiando no que as pessoas dizem.


P.S.: Eu comecei esse post querendo falar de A e acabei falando de G. Vou guardar A pra outra ocasião. Só espero que eu tenha usado o tom certo pra que vocês não fiquem preocupados comigo. hihihi




terça-feira, 24 de maio de 2016

Ninguém com os pés na água

Fiz algo inédito: pisei na areia usando tênis.

Fiz algo inédito e não planejado: disse que tinha medo do  que estava por vir.

Olhei pro mar sem chorar.  Um mar cinza, um céu cinza e eu sentindo uma paz meio maluca. Fiquei de pé no meio da areia, olhando as ondas e desejando alguma coisa entre ser como elas e ser parte delas. 

Tudo tão cinza, eu com um cachecol vermelho. 



quarta-feira, 18 de maio de 2016

Sobre blogs e o blog dos blogs

Eu  já me peguei contando uma história que li num blog como se fosse de um amigo próximo.

Já escrevi posts mentais incríveis no metrô, aí sentei na frente do notebook e não saiu uma linha.

Já achei que "ninguém lê essa bagaça, vou deletar", e aí alguém escreveu um comentário tão legal e o Fina Flor escapou com vida.

Já chorei de soluçar lendo coisas tão bonitas que alguém escreveu em blog.

Quando minha vó morreu, houve noites em que não dormi, então eu pegava o celular e lia os posts da Rita sobre a morte da mãe dela. Eu me sentia tão menos sozinha.

Já tive paixonite séria por um moço que  tem blog. A palavra seduz, né?

Já tive vergonha de deixar comentário em blog porque achava a pessoa muito fodona  e ficava tímida. Aliás, encontrar pessoas cujos blogs leio me deixa intimidada.

Quando tentei me lembrar a idade da Emma, corri aqui no blog porque sabia que tinha escrito um post sobre a chegada dela.

No momento, um dos meus livros favoritos ( e que não é fácil de achar) está na casa de uma moça cujo blog eu leio.

Já passei por blogueira na rua e na hora achei que era alguém da tv. 

Poucas pessoas da minha vidinha off line sabem da existência do Fina Flor - e eu gosto assim!

Tentei explicar pra minha mãe de onde conheço o Felipe e a Rute, mas ela não entendeu.

Em geral, as pessoas que leem este blog me acham fofinha. Ninguém que não conhece o Fina Flor. me acha fofinha.  Blogs também podem ser propaganda enganosa.

Nunca me recuperei do fim do Google reader.

Nem todos os blogs que leio estão linkados aqui porque  seria um blogroll  muito gigante.

Então, todo esse papo sobre blogs é  só um pretexto pra falar daquilo que pode ser considerado um blogroll enorme:  um blog que reúne e exibe as atualizações de vários blogs. A Central do Textão surgiu da vontade de juntar  blogs  num canto só, pra que a gente não se perca uns dos outros outros nesse mar efêmero de redes sociais.   A  ideia da Central veio da cabecinha da Tina, a garota mais popular da blogosfera, a amiga de geral. Ela teve o trabalho de chamar os conhecidos, de organizar uma vaquinha pra que a Juliana fizesse esse blog dos blogs tão lindinho.

Vão lá  conhecer a Central do Textão e  um monte de gente que acha que escrever em blog é muito, muito legal.














sábado, 14 de maio de 2016

Mesmo calada a boca, resta o peito

"Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado" *

Comecei várias vezes esse post. Escrevi uns parágrafos e apaguei. Postei um vídeo e apaguei. Há tanta coisa que eu queria dizer, mas não consigo levar ao fim um texto elaborado. As palavras ainda não superaram a angústia. Deixei então que o Chico dissesse por mim - ele, de quem nem gosto tanto; essa música, na qual nunca prestei muita atenção e que andei cantarolando tanto essa semana.

Tenho me sentido tão confusa, com medo de ser ingênua, me sentido tão ignorante por saber tão pouco de política, de história, de economia, de direito e direitos. Sou uma mulher adulta, uma nascida em 1984, mas por esses dias tenho me sentido como uma criança vulnerável. As pessoas falam em luta, em não aceitar calados, mas acho primeiro que terei que me desacostumar com o que sempre pareceu tão sólido. 

Mas já tenho planos pra quando quando conseguir organizar a cabeça: serei uma pessoa de argumentos. Tenho vivido baseada nos valores que me minha mãe me ensinou e no aprendizado que a experiência enfia goela abaixo. Não dá mais pra acreditar na ilusão de que só isso basta. Vou me apropriar dos rótulos, porque esses primeiros dias já nos mostraram que não serão tempos de sutilezas.


P.S.: Ah, eu moro no  Rio de Janeiro, e isso significa estar duplamente ferrada. 

* acho que Chico Buarque e a sua Cálice não precisam de apresentação, né? Na verdade, eu cantarolo a versão que os alunos de São Paulo fizeram






sábado, 30 de abril de 2016

Se minha próxima refeição fosse a minha última refeição, eu pediria azeitona, salame, palmito, brócolis, farofa e azeite.

Se houvesse uma penúltima refeição, eu pediria pão francês bem quentinho com manteiga.

Se houvesse uma antepenúltima, eu pediria suco de laranja bem gelado.


Se, em vez de últimas refeições, eu pudesse pedir uma refeição impossível, seria a dobradinha com batata feita pela minha vó. Só de pensar, sinto o cheirinho - e é tudo o que posso ter. A minha mãe faz uma dobradinha bem boa, mas a da minha vó era inigualável.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Uma sugestão

Se você não estiver muito feliz hoje, veja esse clipe. Aposto  que ao menos um sorrisinho magro vai aparecer na sua cara, nem que seja um bem magrinho.




Funcionou?

Toda vez que vejo esse clipe, eu fico girando pela sala, fingindo que também estou sob uma chuva de papel picado.

A musica é Ho Hey (que nome ótimo!) e a banda é The Lumineers. A letra é tão lindinha.







quinta-feira, 24 de março de 2016

Falta um pedaço

Os alunos são uns interessados na nossa vida. Querem saber se a professora tem marido, tem filhos, onde mora, por que não compra um carro. Eu particularmente sou um caso que deixa as crianças um pouco confusas. Sou uma mulher de "não tenho". 
Não tenho marido.
Não tenho filhos.
Não tenho carro.
Não tenho irmãos.

Mas o "não tenho" que mais causou comoção foi descoberto nessa semana. Um grupinho estava comentando o capítulo de uma novelinha infantil do SBT. A discussão rolava acaloradíssima, e alguém achou por bem pedir a minha opinião. Primeiro, eu disse que não conhecia a novela. Como assim, professora? Como assim? Todo mundo no universo e em todas as dimensões conhece essa novela.  Diante de tanto espanto, resolvi explicar o motivo da minha ignorância:

- É que eu não tenho televisão.

Silêncio. Todos  na sala olharam pra mim. Todos os olhos se arregalaram. Todas as bocas se abriram. Uma chuva de perguntas desabou sobre mim:

- Por que você não tem? Quebrou? Está no conserto? 
- Não, gente! É que eu me mudei, saí da casa da minha mãe e nunca comprei. 

Talvez se eu tivesse falado em grego, eles teriam entendido melhor. 

-Como assim? Como Assim?
- Gente, não tenho, ué. Não me faz  falta. Não gosto muito de novela, não vejo o jornal. Se eu quiser ver alguma coisa, posso achar na internet.

Minhas palavras entraram por um ouvido e saíram por outro. Continuaram todos chocados, e a televisão que não tenho virou tema do dia. Ainda tentei argumentar, explicar, mas decidi me calar depois de ouvir a sentença, proferida por uma criatura que ainda não chegou à segunda década da vida:

- Professora, você precisa de uma televisão. sua vida está incompleta.

P.S.: Eu não tenho netflix. Cancelei porque pagava e não usava.




quinta-feira, 10 de março de 2016

Acontece muito de eu estar subindo as escadas do colégio depois do recreio e alguém vir reclamar que o fulano tá implicando/puxando o cabelo/ tirando meleca do nariz e passando na blusa da colega. Daí que ontem eu tava lá subindo as escadas ( que são muitas) e equilibrando minhas tralhas  (que são muitas também), quando uma menina do sexto ano me puxou pelo braço e disse:

-Tia, o fulaninho ficou o recreio inteiro incomodando a gente. 

A menina não estava só, umas três outras meninas estavam lá com ela. As três sacudiram a cabeça, ratificando a fala da outra.

- Ah, é? O que ele tá fazendo? Vou conversar com ele.

- Ele tá  chamando  a gente de criança porque a gente trouxe boneca pra brincar no recreio.

Por um segundo, achei que tinha entendido errado. Elas têm 11 anos. Todo mundo diz que as meninas dessa idade não brincam de boneca.

- Vou conversar com ele. Pode deixar.

A menina continuou ainda inflamada:

- É, professora ( ainda estamos na fase de alternância entre tia e professora), briga com ele. Manda ele deixar a gente me paz. Porque a gente brinca de boneca, mas a gente não é criança.

É, não são, não!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Aparentemente, moro no bairro mais legal do Rio. Toda, ênfase no "toda", pessoa pra quem eu conto onde tô morando sorri simpaticamente e diz: " Ah, que legal. Gosto tanto de lá! ". Existem as pessoas que nunca estiveram aqui mas que, ainda assim, têm certeza de que este bairrozinho é um lugar que elas certamente gostam de antemão.

Eu mesma nunca tinha colocado os pés nas ruas daqui antes, e a primeira impressão não foi das melhores. Quando vim conhecer o apartamento, peguei um taxista que se guiava pelo GPS e acabei fazendo um caminho tão bizarro que nem sei reconstituir. Era um fim de tarde bem cinza e não me lembro de ter visto o monte de carros e ônibus que passam ali na esquina. A árvore grandona que faz sombra no meu rosto enquanto escrevo me pareceu melancólica e meio assustadora.

Agora, faz quase um mês que recebo correspondências ( contas, obviamente) neste endereço. Um colega do trabalho me disse que este é o melhor bairro pra quem gosta de beber. Eu ri. Eu não bebo. Ele disse que, morando aqui, eu iria começar a beber. Já imaginei os donos dos bares forçando cerveja ( odeiooo, eca, é amarga) por minha goela abaixo. Ou então uma rede de abastecimento caseiro de bebida alcoólica: todas casas providas de encanamentos de água, esgoto, gás e cachaça.  Até agora, não descobri a torneira de cachaça da minha casa. As duas melhores descoberta até agora foram um sanduíche  divino de linguiça e a comidinha boa do bar da esquina ( boa, gente, muito boa! E barata!).  Ter comida apetitosa por perto deveria ser critério na hora de escolher onde morar. No meu antigo bairro, não havia nenhuma comida que realmente trouxesse felicidade. Passei muitos finais de semana, desejando que a minha pizzaria favorita em Nova Iguaçu tivesse um serviço de delivery beeeeem abrangente. Não tinha. Era sofrido.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Casa, gata, promessa e teto

Emma dorme na beirada da cama. Está estranha a minha gata. Perdeu o útero, a casa, os filhotes, tudo de uma vez. Passou dias miando doído, grudada na porta que ela já sacou que leva pra a rua. Eu também estranhei a casa, mas, ao contrário da Emma, estou aqui por vontade própria. Passei dois meses entrando e saindo de  outras casas menos legais até saber que viria pra essa. Na verdade, esse. É um apartamento. Há pessoas respirando, dormindo, fazendo sexo, cortando as unhas dos pés sobre a minha cabeça.Já não moro na casa silenciosa e fresquinha. Moro nesse apartamento luminoso, fincado numa esquina barulhenta. Passei noites sentindo o frear dos ônibus reverberando na sola dos meus pés. Que agonia. Por duas madrugadas, enfiei espuminhas protetoras nas orelhas pra forjar silêncio. 

***

Aqui perto, bem perto, tem uma livraria. Nunca morei tão perto de uma livraria. Fui lá hoje em busca de um livro que me apetecesse. Nenhum me apeteceu. Acho que não sou mais uma pessoa de livros. Para não dizer que não li nada, abri um livro sobre gatos e acabei por descobrir que Emma pode ser surda. Vocês sabiam que gatos completamente brancos com olhos azuis têm mais chances de terem problemas auditivos? Emma é absurdamente branca, tem olhos azulzíssimos e é a gata mais silenciosa que já vi. Me disseram que a castração deixa o gato mais manso: tive medo de que Emma virasse de vez enfeite de estante. Li num blog que um bom teste de audição para gatos é ligar o aspirador de pó e observar a reação do bicho. Não me lembro como Emma se comporta na presença do aspirador e tô com preguiça de ligá-lo. Ainda não decorei onde ficam as raras tomadas dessa casa.

***

Fiz promessas de ano novo. Escrevi num guardanapo como a JoutJout e guardei bem guardadinho para que as promessas não se perdessem na mudança. Não tenho ideia de onde enfiei. Ter uma boa memória não é uma promessa que eu possa fazer. Mas, tudo bem, não preciso do guardanapo pra lembrar. Minhas promessas são desejos, e o desejo tá sempre aqui.

Uma das promessas vai ficar registrada: quero ser uma pessoa interessante. 

***
O teto do meu quarto é o universo: tem lua, estrelas, Saturno. Há dois quartos nessa casa.  No da Silvana, tem um armário imenso. No meu, tem decalques que brilham no escuro.



quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O último

2015 foi um ano cansativo. Nunca me senti tão cansada. Eu fui vivendo e pensando: ai, que saco! Não tenho energia nem pra mover o dedão do pé. Vivi 2015 no automático, administrando a vida prática ( para a qual não tenho o menor talento) e encarando as maluquices da minha cabeça. Porque esse foi o ano em que todos os meus fantasmas decidiram se reunir numa convenção pra  me assombrar. Não tive trégua, mas acho que fui uma boa soldado. Encarei as maluquices da melhor maneira que pude. E sobrevivi.
Mas eu não quero falar de chatices. Esse blog sempre funcionou como meu HD externo, então quero voltar nesse post daqui a um tempo pra me lembrar do tanto que sou grata pelo que  vivi em 2015. Esse ano estranho e meio torto me obrigou a aprender que amar é mais que deixar ir, é deixar ser. Alguns dos meus laços mais importantes sofreram abalos dolorosos, mas outros se tornaram ainda mais seguros. Um desses laços me confirmou o que sempre tive dificuldades de entender: sozinho, tudo é mais difícil. E eu estou longe de estar sozinha. Tenho uma família cheia dos defeitos, mas que não abandona os seus. Tenho uma mãe que sempre esteve por perto e que não cansa de me surpreender positivamente. Tenho amigos que se dispõem a enfrentar perigos pra me ajudar, que passam uma tarde longa numa sala de espera pra me apoiar, que têm paciência com meus defeitos, que  me confiam  seus segredos, que me dão uma afilhada. Tenho  um trabalho que adoro, num lugar que adoro, onde recebo abraços todos os dias. 2015 foi o ano mais leve e prazeroso que tive em toda minha carreira em escolas.
2015 me deu Sophie, me deu Salvador, me deu o exercício da paciência e da compreensão, me deu  essa coisa boa que é estar viva apesar de.
Vou começar 2016 cheia de uma esperança que não cabe em mim. Apesar dos pesares, tenho fé no poder do afeto dos  que nos amam e na nossa própria vontade de ser mais feliz.  É o que eu quero pra 2016: ser mais feliz, na medida do que for possível. Quero aceitar a tristeza e encarar os dias em que ela vem pesada com algum equilíbrio. Quero ter coragem e paciência. Quero me lembrar que sei me virar muito bem. Quero não estar sozinha. Quero estar mais de peito aberto. Quero saber ser grata. Quero a beleza, a bondade e abraços. Quero  gentileza e maciez. Quero.
Sei que não estive muito por aqui esse ano,mas as pessoas que leem esse blog são muito importantes pra mim. Sempre foram. E eu quero meus desejos de felicidade cheguem até você, pessoa querida que leu esse post,  e que você possa recebê-los como um abraço bem apertado.
Feliz 2016, minha gente!

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Continue a nadar

" É preciso tentar não sucumbir ao peso das nossas angústias, Harry, e continuar a lutar."

Dumbledore, aquele homem maravilhoso, sempre dizendo a coisa certa, né? Tá certo que a gente não tem que derrotar um cara que partiu a alma em sete pedaços e tal, mas acho que é um conselho que não deve ser desperdiçado.

Essa fala é de [ muitos coraçõezinhos pra esse livro] O Enigma do Príncipe.  

domingo, 1 de novembro de 2015

Sentir falta de escrever aqui é uma constante. Houve uma época em que tudo era motivo de post. Nos últimos tempos, penso umas  cinco vezes antes de abrir o aplicativo do blogger. Sim, aplicativo,  quase não tenho usado o notebook. Meu celular novinho com tela maior que a daquele celular da maçãzinha muquirana ganhou a batalha entre os gadgets. Dia desses, eu tive que dar uma reviradinha na casa atrás do notebook. O pobre estava embaixo da cama, empoeirado e obsoleto. Eu começo a escrever e de repente tudo parece chato, bobo, cansativo. Agorinha mesmo, neste exato momento, esses sentimentos tão surgindo aqui na minha cabeca, mas eu vou resistir, serei mais forte. A batalha é dura, viu. Vou respirar um pouco e continuar a guerra no próximo parágrafo.

Travei. Tenho uma ideia do que quero escrever, mas falta aquela palavra boa que impulsiona o parágrafo. Hum. Não queria usar "eu". Minha professora da quinta série me ensinou que iniciar parágrafos  com pronomes pessoais é um recurso pobre e nunca consegui desapegar desse conselho. Só que eu já não estou no início do parágrafo, então vai o " eu" mesmo. Eu... e agora não lembro o queria dizer. Ah, sim. Eu desisto de escrever aqui  porque só sinto vontade de falar de cansaço, que está muito longe de ser um assunto inédito no blog. Eu vivo falando de cansaço, eu vivo cansada. Mas agora é um cansaço com o qual não tô sabendo lidar. Vou contar uma história no parágrafo seguinte pra ilustrar, historinhas sempre explicam melhor.

Dia desses, dois ex-alunos meus brigaram na escola. Uma aluna veio me contar detalhes do evento que agitou o recreio. Para identificar um dos envolvidos, ela usou a expressão: " um viadinho do sétimo ano". Eu não estava preparada pra ouvir isso. Nunca vou estar. Eu conheço o menino a quem a garota se referiu. Ele tem 13 anos, é filho único de uma mãe que trabalha 12 horas por dia, é aluno de uma prestigiosa academia  de dança, é um moleque inteligente e bacana, mas nada disso é importante na hora de identificá-lo. Sei que a briga tem a ver justamente com esse rótulo que todo mundo acha que tem direito de atribuir a ele. Eu queria poder dizer a ele que as coisas vão melhorar quando ele for adulto, mas não  posso dizer mentiras pra adolescentes. Você cresce e nada melhora. Eu tô assustada de verdade com esses tempos em que a gente tá vivendo. Tantos retrocessos, tanta crueldade, tanto ódio, tanto moralismo. Vcs não estão  apavorados?

E fora essas dores normais de ser gente. Porque ninguém avisa que  a vida nunca para de doer, que vc tem é que se virar pra se manter sã enquanto vai lidando com uma magoazinha aqui, um trauminha ali. E haverá dias em que você não vai dar muito conta. Eu estou nesses dias em que não estou dando conta. Estou operando no nível básico de energia. Só tenho fôlego pro mínimo: respirar e trabalhar. Esse é o nível de cansaço. Opa! Mais uma vez a vontade de largar o post bem aqui neste ponto em que claramente falta uma conclusão. Assim como existem as musas, devem existir os gênios maus que conspiraram pra que a gente desista dos posts. Mas eu vou demonstrar bravura, vou terminar no  próximo parágrafo.

Terminei.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Eu sou péssima com relacionamentos, muito péssima. Tem gente que acha que essa é uma afirmação dramática porque sou simpática e sorridente. Existe um pressuposto de que as pessoas extrovertidas e sorridentes são competentes nos relacionamentos. Baseada na minha larga experiência de 31 anos de vida, eu diria que taí um pressuposto furadíssimo. Meus alunos certamente me acham legal, tenho amizades verdadeiras e duradouras, meus colegas de trabalho diriam assim:" ah, Juliana, aquela de português? Ela é meio condescendente com os alunos e tem umas ideias de esquerda, mas é gente boa!" A merda toda está na intimidade, tá naquele limitezinho que eu nem sei bem qual é, mas que tá ali fazendo de mim um desastre no trato com quem chega perto, bem perto.

Eu passei por 4 analistas, e para todas  elas eu disse a mesma coisa: não sei fazer isso, não! Não quero saber de compartilhar, de deixar que saibam. Sou péssima. Prefiro ficar quieta aqui no meu canto. Olha como meu canto é ótimo, limpinho, quietinho e meu, só meu. Ninguém precisa vir aqui. Pode deixar que eu vou lá no canto dos outros pra manter contato. Sou boa em manter contato.Vou só acenar, ouvir e sorrir. Funciona que é uma beleza. Aí todas as 4 analistas repetiam a mesma fala, parece até que combinaram:  Você não acha que é importante poder contar com as pessoas? Uma pergunta como essa quebra qualquer argumento, né?

Sim, é importante; fundamental até. A pessoa não precisa nem salvar sua vida ou seu dia. Basta estar em algum lugar respirando - respirando e com o whatsapp à mão já tá ótimo. Às vezes, é necessário a  gente sentir essa respiração mais de perto, aí a pessoa vem aqui e respira junto. Mas na maior parte do tempo saber que a pessoa existe tá de bom tamanho. 

Relacionamentos dão um trabalho danado, são um saco. Que cansativo que são! Mas, né, tá sozinha nessa vida é cansa bem mais.

(   esse post não tá como eu queria, mas tá na hora de desemperrar o teclado e os dedos.)

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Minha analista disse que sou uma mulher  decidida. Se essa afirmação tivesse vindo de  qualquer outra pessoa, eu teria refutado, com vários bons argumentos. Mas analista é outra história. A gente ouve e presta atenção no que analista diz. E registra, pra ir se convencendo toda vez que ler.

Está registrado, e lerei umas três vezes por dia.

domingo, 20 de setembro de 2015

Cantando sem parar







"Abrirmos a cabeça
Para que afinal floresça
O mais que humano em nós.
Então tá tudo dito e é tão bonito
E eu acredito num claro futuro
De música, ternura e aventura
Pro equilibrista em cima do muro.
Mas e se o amor pra nós chegar,
De nós, de algum lugar
Com todo o seu tenebroso esplendor?"

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Uma ilha e uma cama cheia de formigas

Uma colega veio toda animada me perguntar o que achei de Morro de São Paulo, e eu não soube como ser honesta sem ser confusa. Ela vai pra lá nas férias, marido já organizou tudo. Eu respondi com parte da minha verdadeira opinião: Morro é um lugar lindo. Só se eu tivesse probleminhas de visão, pra afirmar o contrário. Mas não tive coragem de dizer: ó, não sairia do Rio de Janeiro só  pra conhecer a ilha.



Eu amei Salvador, muito, tanto. Fui pra Morro com a promessa de amor ainda maior. No meio do caminho, porém, havia aquela tenebrosa viagem  de catamarã por 2h30min em mar aberto. Passei boa parte dopada de remédio de enjoo, a outra parte foi dedicada a tentar colocar meu corpo no lugar depois de tanto sacolejar. Cheguei na ilha me sentindo como se meu corpo não me pertencesse. Me instalei no hotel indicado por uma colega e saí pra comer. Eram 18h. Entrei num restaurante de comida argentina, devorei uma picanha fantástica, ao som de uma menina que cantava lindamente as minhas músicas favoritas da Amy. Ao final da refeição, ganhei uma caipirinha. Parece que é uma cortesia habitual do restaurante. Eu não bebo, mas tenho um fraco por caipirinhas, o que não me impede de ficar lânguida e engraçada com um copo da bebida Voltei pro hotel meio trôpega, ainda sob o efeito do remédio de enjoo, deitei na cama e apaguei. Só acordei às 6h da manhã do dia seguinte, com a chuva sacudindo a janela.



Em julho, o tempo é instável na Bahia. Me disseram que as chuvas não dão trégua. Eu já sabia da instabilidade do tempo, da possibilidade de não poder entrar no mar. Mas não foi o tempo que me deixou meio infeliz em Morro. Eu teria encarado a chuva numa boa se não tive escolhido a hospedagem inadequada pro meu momento de turista solitária e se   não tivesse chegado com  um mundo de turistas estrangeiros. Fiquei com a impressão de que os baianos de Morro não ficam muito felizes com tantos gringos na sua ilhazinha linda. Eu mesma me senti um pouco estrangeira. Tudo parecia feito pra alegrar e entreter os outros turistas, menos brasileiros, mais brancos, com mais dinheiro. Maeve e Hélio me disseram que fui a Morro num período em que nenhum baiano vai, por isso senti o lugar tão pouco baiano, tão pouco brasileiro. Quero voltar a Morro em pleno verão então.

Passei dois dias inteiros na ilha. Num deles, fiquei todo o tempo no mar, que esperava ser mais morno. Todo mundo dizia que a água do mar baiano é morna. Se comparada às ondas da praia do Arpoador, certamente é mais quente, mas, sei lá, eu esperava... Sei lá! Acho que criei muitas expectativas em torno de Morro e tudo ficou pior porque não consegui parar de comparar com a experiência de Salvador. Vejam bem, não tô comparando as duas cidades. Eu seria bem idiota de colocar na mesma balança uma capital e um balneário turístico que não tem agência bancária. Me refiro a como me senti nos dois lugares. Morro, em julho, talvez não seja o lugar ideal para mulheres viajando sozinha. Ou para Juliana viajando sozinha. Achei tudo muito turístico, tudo muito caro, senti falta de calor humano. Um outro  ponto importante foi o fato de eu ter ficado hospedada na vila, na região onde os moradores vivem. E a sensação que tive foi a de que o turismo e o tanto de moradores estrangeiros têm afastado cada vez mais essa população das praias, da sua terra. E há uma insatisfação clara com isso. 

Meu maior erro, acho, foi ter ficado em uma pousada. No primeiro dia, sob o efeito do cansaço e da caipirinha, achei incrível o bangalô localizado numa área silenciosa e arborizada. No segundo dia, me senti num filme de suspense. Cheguei da rua e encontrei um monte de  formigas na cama. Um monte. Fui atrás do rapaz da recepção, claro. Encontrei somente a moça do restaurante que funciona na entrada da pousada. Ela me disse que a recepção fechava às 19h. Eram 20h. Nunca tinha visto algo assim. Já me hospedei em lugares tranquilos, mas mesmo assim sempre havia alguém na recepção. Fora que a pousada não tinha portão nem qualquer proteção em relação à rua.  Os quartos davam pra uma escada  mal iluminada que levava direto pra entrada sem portão.  As casas no entorno tinham portões e grades na janela.A pousada em frente à minha não tinha grades, mas tinha um portão que ficava fechado à noite. A amiga que me indicou o lugar me disse, depois, que eu tinha sido muito carioca ao desconfiar tanto da segurança do local e que foi avisada no primeiro dia que era só ligar pro celular do dono do pousada que ele aparecia. Eu não fui avisada de nada disso, então me senti insegura mesmo e fui obrigada a catar as formigas do lençol. Pra ajudar, choveu forte de madrugada e fui acordada pelas janelas sacudindo. No dia seguinte, enquanto estava na rua, meu lençol foi trocado e conversei longamente com a arrumadeira ( uma xará da minha mãe) e descobri que era comum que as recepções  das pousadas fechassem cedo. Decidi então dar uma segunda chance ao lugar, apesar do péssimo sinal de wi-fi. Só que a noite seguinte foi ainda pior: choveu horrores, as janelas sacudiram ainda mais e os meus vizinhos de quarto fizeram muito barulho. Acordei mais uma vez no meio da noite; dessa vez sem saber se os vizinhos tavam arrastando móveis e batendo portas porque estavam sendo vítimas de um assassino furioso ou porque eram problemáticos. Os barulhos me assustaram. O carregador do celular deu problema, então eu nem podia ligar pro tal rapaz da recepção, caso ficasse confirmado que meus vizinhos estavam sendo mortos. Passei uma noite péssima. De manhã, fechei a conta e comprei passagem pra Salvador. Descobri que meus vizinhos tinham sido vítimas de uma goteira violenta em cima da cama, de uma porta de banheiro emperrada e de um ar-condicionado ruim. Sofreram mais que eu, claro.

dá até pra ver que preciso de pedicure, né?

Voltei pra Salvador pelo caminho semiterrestre. Demora um pouco mais, porém cheguei inteira na cidade. Saí de Morro sob um céu cinza. Encontrei uma Salvador ensolarada. A volta antecipada me permitiu estar com Maeve e Hélio mais uma vez e ainda conhecer a linda Casa do Rio Vermelho. Eu estive hospedada no mesmo bairro  Jorge Amado e Zélia Gattai moraram e quase vou embora sem conhecer a casa deles, o que teria sido um enorme desperdício.  

Em resumo: Morro é um paraíso, mas eu não fui muito feliz, por lá, não.



P.S.: a cama ficou cheia de formigas porque eu deixei um pacote de biscoito aberto em cima dela.

Outro P.S.: Se vocês forem à Casa do Rio Vermelho, levem dinheiro vivo. Se forem a Morro, façam o mesmo. A bilheteria da Casa não aceita cartão. Em Morro, vários lugares, até os camelôs, têm maquininha de cartão, mas você pode sem dinheiro em espécie nenhum se não for cliente o Bradesco, do Banco do Brasil ou da Caixa.